O monstruoso, escatológico e vomitado submundo fecal

Por Fabricio Duque


“Pazucus: A Ilha do Desarrego”, do estreante diretor brasiliense Gewdner (um “exponente da arte maldita e do cinema underground nacional na atualidade”, que também participa como ator – o personagem Omar) em um longa-metragem, é mais um “demente, alucinante, absurdo e estranho” projeto “terrir” que busca realizar uma livre e despretensiosa experiência-homenagem-parodia-debochada ao classicismo amador e tosco do cinema gênero Filme B de horror que vai de Fritz Lang, Zé do Caixão, Ed Wood, a “Fome Animal”, de Peter Jackson, que sem recursos técnicos, mas com uma urgência de produzir e colocar em prática as ideias, criava a fantasia do susto pelo possível existente.

É escatológico, orgânico, visceral, direto (“Suas lágrimas serão de lombrigas”), histérico, de humor potencializado à caricatura (choros co um tom acima e reações que extrapolam o ridículo), metafórico (a essência da vida sexual do canibalismo-regurgitação social), psicológico (“Talvez você seja amado, Carlos, pelas vozes de sua cabeça”) e também integrado à observação de pessoas-passantes desavisadas sobre a obra “de forças invisíveis” de ficção que está sendo realizada em tempo real (pela captação de uma câmera escondida).

Dentro do intestino de Carlos, Monstros Fecais se preparam para o seu fim. Esta confusão estomacal torna-o uma presa fácil para o obsessivo Dr. Roberto. Ao mesmo tempo, Oréstia e Omar procuram harmonizar seu relacionamento em um acampamento e são, gradualmente, oprimidos pela natureza, que de paradisíaca torna-se infernal. A ilha é, por excelência, um território perturbado. Pedaço de terra desligado do continente ou território que emerge dos abalos advindos do centro do mundo: voltar a se integrar ao mar é o fantasma que ronda todas as ilhas.

“Pazucus: A Ilha do Desarrego”, que integra a 9a Semana Festival de Cinema 2017, ex-Semana dos Realizadores, pretere o conceito à veracidade da forma. A ideia é mais importante que seus sofisticados efeitos especiais. É para ser propositalmente autoral, amador, caseiro, manual e artesanal, a fim de mostrar a transmutação física e o talento técnico de cada criação mascarada e maquiada. É do intestino que tudo sai e da ilha em que cada um mora. É a loucura personificada. É o surto psicótico elevado à milésima potência. Os monstros internos ganham vida causando a patologia-consequência dos vômitos e diarreias em uma cidade integrada (“Com o portal, traremos desarrego para todos”). “O futuro, meus filhos, é uma carta em branco”, diz-se. E o assassino serial à solta que busca o “Carlos”. Com trilha-sonora oitentista que remete aos arranjos de “Pet Shop Boys”.

O filme é tão tosco que se torno incrivelmente divertido. Nós, espectadores, rimos da exposição do ridículo como elemento sério narrativo, que desconstrói o roteiro com um auto-deboche da cena, tornando tudo um grande ensaio em imagens que não possuem relação uma com as outras. É uma grande colagem, ora oportuna e improvisada do que se passa pela frente, ora interferindo com a performance teatralizada “cruzando o caminho” dos outros. É exatamente neste momento que um ator deve ser ator. Não sair do personagem e não se desligar quando olhos curiosos sentem estranheza e solidariedade.

A câmera é uma atenção à parte, pelos ângulos não convencionais, que potencializam a narração pululante de psicopatia explicitamente enlouquecida de uma mente que divaga sem controle (“Como gosto de um iogurtezinho e um mamãozinho no café da manhã”), e com uma capa amarela de chuva que lembra “It: a Coisa” e ou “Twin Peaks”, mas aqui, o terror é do maldito “poderoso cocozão feiticeiro” que não quer sair (“O oceano fecal de trevas”, que “possui” seres, fazendo com que “durmam de conchinha” – “Os cocôs têm a habilidade do carinho da morte”) com voz que lembra “Gremlins”.

É impossível não rir com o roteiro, viagem estranha, de “Pazucus: A Ilha do Desarrego”. É tão surreal, de humor grosso, atrapalhado, desengonçado, alterado, esquizofrênico, satírico, bobo, exaltado e expansivo, quase infantilizado, que causa nojo, que busca “encontrar o ovo”, o riso “spaghetti” “Shrek” com “South Park” (e seu “Mr. Hank”) com as “papagaiadas” de “Mister Bean” e “vomita” críticas ao sistema social e à “especulação imobiliária”. A mensagem que se quer passar é que “o monstro do mal é libertado de você depois de uma boa cagada, senão você estourará de merda”. “A maldição é o futuro”, diz-se. E “não fazer cocô” também.

“Pazucus: A Ilha do Desarrego” causa “pesadelos” da “floresta amaldiçoada” com o perigo dos “pobres” chegando. Nós realmente precisamos ser fortes durante a exibição e proteger nossos estômagos com algum remédio anti-enjoo, devido a ultra carga de escatologia reinante e pululante. É, vamos comemorar o fim do mundo, Oréstia! Assista até o último segundo. Surpresas “sairão”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados