A Lei e a Ordem pelo Estudo da Desordem

Por Fabricio Duque


“Operações de Garantia da Lei e da Ordem”, realizado pela cineasta Júlia Murat (de “Pendular”, “Histórias que Só Existem Quando Lembradas”), e co-dirigido por Miguel Antunes Ramos, corrobora a máxima “filho de peixe, peixinho é” de sua mãe, a também diretora Lucia Murat, que passou pelo período da ditadura. A filha busca o ativismo pelo cinema ao vivenciar na contemporaneidade novos momentos de tensão nos protestos que visam “a força da democracia e a força da juventude em fazer o Brasil avançar” (com o pronunciamento da então presidenta Dilma Rousseff sobre as manifestações e sobre a “violência que envergonha o Brasil”), seguindo as crenças de Jean-Luc Godard que dizia que a “câmera é uma arma” de proteção.

Este é um documentário “filme colagem” com vídeos e reportagens da internet, que investiga (e objetiva provar), civilmente, o “despreparo acuado” da Polícia Militar que foi criada para proteger a população e os bens públicos do vandalismo, baderna e violência. Os trechos escolhidos “tem a finalidade de informação, crítica e polêmica”, “não são o objetivo principal da obra nova” e também “não prejudicam a exploração normal das reportagens”.

Logicamente, toda e qualquer obra há um caminho tendencioso. “Operações de Garantia da Lei e da Ordem” favorece os manifestantes e critica os policiais e a mídia que “manipula” “forjando” opiniões. Nós somos convidados a protestar junto contra um sistema (Cabral, PEC 37) que praticamente está nos “últimos suspiros”, visto a inserção inicial de um ruído que lembra a máquina hospitalar que mede a pressão (e vida) do coração.

O documentário, exibido no Festival de Brasília 2017, e agora na Semana dos Realizadores 2017, é sobre a tensão entre povo e Estado. Entre indivíduos sociais e representantes militares. É sobre a impulsividade-adrenalina corajosa, enérgica e de utopia inocente destas pessoas (a geração conectada todo o tempo e que filma tudo como documenta e prova) “comuns” que acreditam que podem “mudar o mundo”. É um filme feito para incomodar, para causar desconforto, para nos retirar de nossas zonas de conforto, para estimular e acordar o povo “amontoado, apático, apolítico”, letárgico e pacífico, que está contra a “injustiça” e a “corrupção” (esta palavra massificada pela mídia).

“Operações de Garantia da Lei e da Ordem” é um filme direto. Urgente. Busca a potência emocional do confronto real para construir a justificativa do argumento. Não há entrevistas, apenas imagens coletadas (e públicas) e textos citados em tela. É também um filme plano. De passos que desejam ajudar a entender o desconexo entendimento, como “Estimular as lideranças comunitárias favoráveis às operações”, “Enfraquecer o ânimo e o moral das forças oponentes”, “Utilizar-se dos meios necessários para coibir ações individuais e coletivas”, “Restringir a liberdade de atuação das forças oponentes”, “Fortalecer o sentimento de necessidade do cumprimento do dever na forca empregada”, “Fazer o uso progressivo da força”. É também um filme sarcástico, que se utiliza do dos argumentos já pronunciados para criticar obviedades.

Mas também é um filme que se conduz exatamente pelo pensamento contrário. É unilateral quando documenta imagens reais e inquestionáveis. Sim, é para ser reacionário e de alimento à ideia de que a polícia faz tudo por causa de sua “burrice”. Este é um sarcasmo direto, completamente da fábula debochada de “Por trás da Linha dos Escudos”, de Marcelo Pedroso, exibido no Festival de Brasília 2017, que causou polêmica única e exclusivamente pela simples tentativa de observar, com um viés mais humanizado, vivenciar e tentar entender o lado opressor dos militares e dos “P2”, policias infiltrados “observadores”, que tem a “função de observar e captar informações para prevenir qualquer problema”.

“Operações de Garantia da Lei e da Ordem” é para ser um exemplar gênero de protesto. É sua essência. Sua busca intensa “pela informação honesta” contra esta disritmia sistêmica de “jornais de ‘jornalismo profissional’ – sensacionalismo sentimental – neutros que julgam como propaganda, sendo um partido político ou uma facção criminosa”, condenando antes da análise da Justiça, mesmo quando busca cenas que criam incompatibilidades visuais como a música clássica para potenciar o discurso verdadeiro de militância de vítimas “mascaradas que queimam viaturas como simbolismo” e “professores” contra o abuso de poder inquestionável destes opressores, que “prendem ilegal e arbitrariamente ” manifestantes e pessoas “acampadas”. “Atrás da violência há algo mais que a pura irracionalidade?”, pergunta-se com “onda de desinformação”. E quanto mais mexe, mais deturpações “desinformadas” acontecessem.

Concluindo, é um filme que procura catarse para confrontar esta questão social presente em nossa sociedade que busca a radicalidade aos moldes de uma “fogueira caça às bruxas”. Qual é o limite do jornalismo? Qual sua função? Tem que servir como uma forma justiceira? O documentário busca responder essas perguntas com a violência exacerbada da polícia, comportando-se como “animais” com raiva. Na música do Titãs já dizia que “polícia para quem precisa de polícia… é para proteger”, finalizando com o pronunciamento do presidente interino Michel Temer pelos “valores fundamentais do país e um bom Brasil para todos nós”. A ação “Garantia da Lei e da Ordem” é realizada exclusivamente por ordem do Presidente da República.

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