Da estética romena à argentina com moldes hollywoodianos

Fabricio Duque


O novo filme do diretor argentino Pablo Giorgelli, de “Las Acácias”, busca abraçar as características do cinema romeno, principalmente a temática de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu, que venceu a edição de 2017 do Festival de Cannes e que polemizou ao humanizar a questão do aborto. Aqui, o roteiro apenas referencia a esta estética de cinema direto com câmera na mão que acompanha a personagem em todos seus momentos, micro-ações, reviravoltas, decisões, anseios, medos, quereres, ingenuidades e necessidades.

“Invisível” é um filme particularmente de atriz, a contemplando nos mínimos detalhes, a fim de criar no espectador uma sensação de cúmplice intimidade. Nós somos intimados à sinestesia, vivenciando junto as angústias e dores de Ely (a atriz Mora Arenillas, irretocável e impecável na construção de seu papel), uma jovem de 17 anos que vive com sua mãe, Susana (Mara Bestelli), em um pequeno apartamento em um conjunto habitacional localizado no bairro de La Boca. É o “regime de superendividamento”.

O longa-metragem segue uma tendência do cinema independente, que é a imersão naturalista à realidade da trama. Não há fantasias, não há suavizações. É a vida crua desnuda de ficções. É estrutura de documentário para fornecer mais vivacidade e credibilidade na experiência visual.

Porém este não é um filme romeno, tampouco dinamarquês. E sim, argentino. Assim, outros elementos precisam enumerados. “Invisível” corrobora o ácido humor típico geográfico, em questão aqui, e também a consequência “final feliz” da redenção de seus personagens, os conduzindo à moralidade religiosa que causa a culpa versus o desprendimento ateísta da importância individualizada do momento exato em que se vive. Se em um há a dúvida, no outro, prevalece a urgência.

Deseja-se conjugar e mesclar o melhor dos dois mundos, contemplando os silêncios entendidos, estes que tentam traduzir as aflições da alma, e retratando um período específico do dia-a-dia alterado de Ely, que precisa lidar com sua apatia, torpor e aceitação do cúmulo da praticidade lógica, como por exemplo o sexo mecânico sem emoção, cobrança e de comportamento robótico.

Ela mantém uma relação distante com sua mãe e leva uma rotina pesada, se dividindo entre as atividades domésticas e o trabalho diário num pet shop. Tudo muda quando ela descobre que está grávida de Raúl, bem mais velho, casado e seu chefe. Consumida pela angústia, a jovem terá que fazer uma difícil decisão: fazer ou não um aborto.

“Invisível” é um filme de primeiro plano. Atenção total a sua protagonista. Todo o resto participa como coadjuvante. A mãe deprimida, a aula de italiano que não acrescenta, o trabalho em uma veterinária, os mesmos casacos, dormir no sofá da sala, até mesmo os ângulos de câmera que a perseguem por espelhos, frestas e vidros.

É um estudo de caso social da ilegalidade do aborto e das dificuldades de compras dos medicamentos ilícitos sem receita. A película é definitivamente contra esta prática, explícito em muitos comentários, que posiciona uma igualdade destes remédios ao “mercado negro maconha” e ou a opção de “entregar a criança à adoção”. Cada vez que passa, “Invisível”, é mais panfletário. Mais moralista. Menos argentino, menos romeno e mais hollywoodiano.

Outra questão de luta é o feminismo. “Ter poder e domínio sobre o próprio corpo é da sociedade”, diz-se. Ely não conta ao pai da criança por medo e por submissão da figura da mulher. Ela, que vive em um mundo machista, tem medo de ouvir que a culpa é sua e que a responsabilidade de engravidar também.

Mas a protagonista tem dezessete anos, vive em uma Buenos Aires contemporânea, sofre os problemas de uma “classe trabalhadora” e integra a “geração perdida”, com seus instintos sexuais, com a televisão que “salva” das conversas familiares e com a inversão dos papéis, transformando adultos em adolescentes e adolescentes em adultos. Mas também Ely é humana e adolescente, e por isso acredita no amor e no príncipe encantado, mesmo só encontrando “cafajestes” com mulher e filhos.

“Invisível” tenta ser lógico e auto-suficiente quando ensina que qualquer um pode ser médico se houver pesquisa na internet. Ely e a amiga leem sobre os efeitos colaterais do aborto. Sangramentos. Câimbras. É tão prático que todo o tempo e todas as necessidades mitigam sua possibilidade de sofrer. Ela não está mais sozinha. Decide fazer o aborto por pressão. E agora? O procedimento causa medo. A espera causa culpa? Desespero? Encontra conforto no choro? Libertação? E agora de novo? O que fazer? Sem contar a decisão que permeia todo o filme ao “dia difícil”, o final é óbvio quando romantiza com superficialidade.

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