“E o Vento Levou…” as “Senhoras dos Anéis” do Sertão

Por Fabricio Duque


“Entre Irmãs” é o novo filme do diretor Breno Silveira, o mais “sentimental” dos nossos cineastas, por não ter medo de inserir em suas obras (“Dois Filhos de Francisco”, “À Beira do Caminho”, “Gonzaga – De Pai Para Filho”), que versam sobre perdas, mas principalmente sobre amor e redenção, um apelo mais popular, imprimindo suas próprias emoções e traduzindo o “ser simples na história, singelo na forma, mas pegando profundamente as pessoas, cortando, doendo”.

“Meu filme não é uma tragédia, não é pesado. É a história de um homem reaprendendo a amar. Mostra que nunca é tarde para revisitar suas dores e entendê-las”, diz Breno, que assume que é emotivo, e desbragadamente apaixonado pelas coisas brasileiras e por pessoas simples e nunca se importou em ser chamado de “sentimental demais”. “Há uma linha tênue entre o piegas, o clichê, e o que tem verdade, sentimento. É nessa corda bamba que eu gosto de andar”, finaliza o diretor contendo a emoção do momento.

Aqui é explícito definir uma tendência de se realizar obras com estrutura de televisão transportada à estética do cinema. É narrativa de uma interiorana novela de época (por conta de sua edição com cortes mais rápidos) com uma saturada e contemplativa fotografia (que conta com tomadas aéreas e a busca de uma ambiência mais naturalista do Sertão, como a simplicidade de se comer fruta do pé). É um filme que caminha no limite tênue do “morde e assopra”, conjugando a liberdade espontânea do ser com gatilhos comuns ambulantes das ações teatralizadas, que alimentam caricaturas e ingenuidades empregadas (a tontura quando olha para baixo e ou o “xixi” na árvore) e músicas manipuladas com grandiosidades sentimentais, que “rasgam” a cena e se aproximam de um filme de Steven Spielberg. E ou “Titanic”, de James Cameron.

É, acima de tudo, um épico histórico. Pode ser considerado, por conta de sua duração de três horas, como um “E o Vento Levou…” do sertão e ou um “Senhor dos Anéis” pelas palavras da atriz Marjorie Estiano, uma das protagonistas, que divide palco com Nanda Costa. São duas irmãs competidoras, cúmplices e vulneráveis (uma delas uma “aleijada vitimada”), que precisam conviver com o machismo opressor dos homens que escolhem seus futuros, subservientes e submissas. Podemos adiantar que esta é uma história que luta pela quebra de paradigmas, expondo hipocrisias, preconceitos e limitações comportamentais de identidades sexuais, usando e abusando da inversão dos papéis sociais.

“Entre Irmãs”, exibido no Festival do Rio 2017, é um filme de estrada. De sonhar com uma vida melhor. Do campo à cidade. De desejar o “verde do quintal do vizinho”. De medo “ouvido” aos cangaceiros “carcará”. “A culpa é de estar mais cheinha é do bolo de rolo”, diz-se. As interpretações imprimem um tom mais antinaturalista, mais superficial e mais encenado e mais urgente nas reações. Elas, “matutas”, buscam o amor, que se torna uma opção de salvação, tanto pelo desejo, quanto pela possibilidade de sair daquele lugar. “Pede um garanhão e ganha um pangaré. Nesta terra não há flor”, alfineta-se uma que é “costureira”. As duas trocam aceitáveis insultos, como picardias cúmplices: “bunda de balaio”, “braço de viola”, “cabelo de rameira”.

O longa-metragem é também sobre o amadurecimento. De transição da adolescência à fase adulta. A inocência perdida como metáfora, como abrir uma gaiola e o passarinho “escolher se vai ou fica” (e “canta porque tem que cantar”). “Liberdade não é coisa que se vê”, diz-se com realismo, quase desesperança. Uma “foge” ao destino possível no Recife (“a Paris dos trópicos”), a outra o “entende” como um sinal. Para que a trama seja “arredondada”, é preciso pulular mais e mais gatilhos comuns, como o choro sem lágrimas, o lenço caído e a tia que só “usará preto”. As duas histórias, separadas, intercalam-se, nivelando por cenas mais clichês, diretas e fulminantes. A música mantém o tom dramático-sentimental.

Há vingança, enfrentamento, difamações, decisões de poder, casamento de branco, sexo com desejo, amor mais ao campo do platonismo e a crença ignorante de que a “mulher traz má sorte”. Uma foi obrigada. A outra não. São sinas forçadas e escolhidas. De um lado a oportunidade de se viver o fascínio da cidade grande do Recife antigo com gelo na frente do ventilador. Do outro, a simples oração atendida. Uma princesa, a outra, a Maria Bonita. Uma vinga a honra. A outra estuda o inglês, e aprende etiqueta à mesa. E a “frenologia” tenta unir as duas.

“Entre Irmãs” também traz a tona, em timing perfeito, a questão da homossexualidade. De incomodar pelo “capricho”. A aceitação não existe porque todos pensam com a “cabeça” dos outros, e estes outros com o “achismo” de outros, que por sua vez não sabem o que pensar. De necessidade de se buscar a cura gay (“Quando disciplina e força de vontade não curam, então o choque elétrico salva, deixando “vazio por dentro””). De que o amor precisa ser unicamente prático, religioso e à procriação. “Dizer o que é necessário, não o que é verdade”, ensina-se. Suas personagens gastam tempo e energia demais tentando “agradar” os “próximos” e mantendo o respeito à reputação.

Traz também o período histórico de Tenório Vargas, a luta pelo cangaço. É tudo muito, mesmo em três horas. Temas são potencializados à exaustão para que caibam no roteiro corrido e pudico, visto que a nudez é moralizada e escondida nos lençóis e nos enquadramentos da câmera, filmada de bem longe. “Nunca feche os olhos quando for fazer pontaria”, diz-se.

A estrutura de novela fica mais evidente quando percebemos seus núcleos e que tudo é explicado e enxertado com ruídos e diálogos nos possíveis silêncios. Há a humanização do cangaceiro que é assim por causa da sociedade. Há o “sentir o gostinho da liberdade e a imprudência da juventude” (como beijos gays aos moldes de um “Romeu e Julieta gay”, cenas no carnaval, sexo por compaixão), mas culmina no retrocesso do moralismo das escolhas à vida “bela, recatada e do lar”, como a negra que dá banho na branca. São tantas liberdades poéticas que a mente do espectador dispersa e descobre que a pipoca acabou e que ainda falta até seu final.

“Entre Irmãs” “embarca” na estética sentimental. “Fui feliz porque não tinha o passado, só o futuro”. Entre a “misericórdia”, cenas em closes, a questão radical feminista da solidão pela perda como posicionamento político-existencialista, tramas interligadas, a clausura, a mãe que impõe seu apoio incondicional, tudo é sobre o sentimento, sobre o “fundo de escapada”, sobre o romantismo incurável, sobre a esperança da felicidade. É um filme que acredita que mesmo após todas as perdas e desilusões, o mundo ainda pode proporcionar o melhor futuro de todos. É só acreditar. Breno Silveira é fiel em suas ideias ao conduzir suas visões por suas emoções mais populares e de “auto-ajuda”.


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