A provação ao novo mundo

Por Fabricio Duque


“Deserto” é um estudo de caso sobre a questão imigratória de mexicanos que buscam abrigo e salvação nos Estados Unidos, a “Terra Meca da liberdade”, que protege da “violência” do país natal destes “desertores”. A narrativa conduz o público a vivenciar, psicologicamente, sem o viés panfletário, a xenofobia de um americano, que acredita que precisa “proteger” sua “casa” de invasores “gringos”. A trama busca a sinestesia ao radiografar esta intolerância, que se assemelha à raiva de um cachorro treinado para matar e liquidar qualquer um que cruze a fronteira no deserto.

O diretor Jonás Cuarón é filho do cineasta Alfonso Cuarón, de “Gravidade”, cujo roteiro co-escreveu, e engajado na questão social da imigração. Seu filme anterior “Año uña”, de 2007, que conta a história de uma adolescente mexicano que se apaixona por uma americana mais velha que encontra no verão do México. Ele sendo mexicano, com pai mexicano e mãe mexicana, vive na transição dos dois países com seu pai, inevitavelmente, está imbuído destas diferenças alfandegárias.

Este americano não é funcionário da Imigração, tampouco um guarda. É na verdade um perseguidor implacável que se “alimenta” da massificação das ideias incutidas pelos radicais preconceituosos, estes que por sua vez creem na superioridade patriótica. De que as barreiras devem ser fechadas a balas por meio de uma metralhadora (comprada com facilidade em qualquer loja ianque). Ele, um típico psicopata à solta, faz justiça com as próprias mãos, porque não confia mais no sistema. A solução terminal é a morte, com requintes de crueldade e com festejos catárticos póstumos.

“Deserto” representa, inquestionavelmente, as regras, ideias, indicações político-comportamentais do presidente atual Donald Trump, que encerra acordos internacionais e que enxerga na diferença cultural-geográfica um perigo à sociedade. O “patrulheiro” americano personagem corrobora uma guerra pessoal, intransigente, como um soldado “robô” que foi estimulado toda uma vida a se comportar como um animal. Ele usa seu “rastreador”, um cachorro amigo e “parceiro” profissional que o ajuda a encontrar estes “invasores”.

A humanidade deste americano Sam, cujo nome quase nunca repetido, que como já foi dito, é a representação sócio-comportamental desta nova era, acontece pelo amor e devoção a este animal de estimação, um ator canino nato e merecedor do prêmio Oscar Dog. O filme também nos questiona e nos confronta por quem nós lutamos, nos colocando de um lado ou de outro. Somos a favor dos mexicanos atravessarem ou devemos dar razão ao sistema americano? De um lado, entende-se a necessidade do ir e vir, livre sem limites. Do outro, esta imigração desenfreada pode sufocar a carga financeira-econômica de um país. Lutamos pela solidariedade globalizada da liberdade ou pela proteção local de um povo, que se sente ameaçado com essa “invasão”?

Moises (o ator Gael García Bernal) está viajando com um grupo de pessoas que tenta atravessar pela fronteira do México com os Estados Unidos, buscando uma nova vida no norte. No caminho eles se deparam com um solitário homem, Sam (o ator Jeffrey Dean Morgan), que assumiu as funções da patrulha na fronteira em suas mãos racistas. E mais peçonhento que cobras no habita natural. Todos terão de achar um jeito de sobreviver nessa paisagem incrivelmente brutal antes do deserto consumi-los.

“Deserto” é um filme que incomoda por sua temática transmitida de forma pura, crua, direta e cruel. Inicia-se como mais um exemplo de gênero ação de “salve-se quem puder” em um deserto que “viaja no tempo” ao faroeste. O tempo mudou. As roupas mudaram. A sensação de “encantamento” passou ao “cansaço” do ódio raivoso. “Eles continuam vindo”, diz-se e sem querer alude ao seriado “Walking Dead”. Agora, a patrulha é mais intensa, mais intolerante, mais sanguinária e mais bélica. Busca-se a ideia de uma hegemonia hitleriana de ser, logicamente sem esquecer dos detalhes narrativos mais sentimentais, como o bichinho de pelúcia e a oração prévia. Mas tudo é justificado por sua conceitual e atual premissa-argumento.

Nós espectadores, pertencentes deste moderno mundo, percebemos que estamos ladeira abaixo, que cada vez retrocedemos mais. Que não há mais salvação. Mas quem disse que uma “andorinha só não faz verão”? O longa-metragem mostra que estes latinos, tão “amaldiçoados”, não compactuam da entranhada violência americana. São superiores. Não atiram e ajudam aos outros. É a parábola bíblica de Moises em ação real nos idos de hoje O mar agora é o deserto. Falta água, sobra calor. O fim do mundo está próximo. E o vilão, o próprio ser humano, que influenciado por líderes desestruturados, volta-se contra seu próximo e potencializa sua individualidade egocêntrica. Concluindo, “Deserto” não nos abandona no caminho e luta até o final pela crença de uma sociedade justa, livre, igualitária, tolerante e sem barreiras. E chega aos cinemas com um timing perfeito, atual e que estimula o discurso contra a xenofobia retrógrada. Sobreviver é a única opção. Lutar não mais uma escolha, mas sim uma obrigação. O deserto, a provação ao novo mundo. Concorreu ao prêmio de Melhor FIlme no London Film Festival (2015).

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