Um herói possível, real e que (Graças a Deus) foge dos padrões

Por Marcus Teixeira


Esqueça a crítica séria, engessada ou qualquer outra coisa que remeta ao estático. Para falar de “As aventuras do Capitão Cueca” vale tudo, menos a exatidão do texto pronto. Ser ranzinza, mal humorado ou sabichão de mais não versa com a liberdade criativa do filme.

“As aventuras do Capitão Cueca”, fala da história de dois, inseparáveis, amigos: Jorge e Haroldo. Que utilizam o seu bom humor para contagiar e alegrar o dia no colégio que estudam. Mas nada, nunca, termina da maneira como planejam. Pois são sempre perseguidos pelos professores e pelo diretor, que acredita que se divertir e estudar não cabem no mesmo espaço.

Em uma escola triste, onde gritos e risos são visto como algo abominável, cabe a Haroldo e Jorge a missão de trazer alegria e bom humor. Para isso os dois formam uma dupla, quase, perfeita: um exímio desenhista e o outro um exímio “inventor de histórias”. Juntos, eles criam o personagem Capitão Cueca, super herói atrapalhado, bem humorado e dedicado a salvar a vida das pessoas. Os dois destinam horas para se dedicarem ao personagem.

Como empecilho para toda criatividade dos meninos, surge o diretor Krupp, o mal humor em pessoa. Disposto a acabar com a amizade dos meninos e separa-los de turma, para que assim as artimanhas da dupla e a história em quadrinho do “Capitão Cueca” saia de circulação, de uma vez por todas.

Diante da ameaça de trocar de turma, Jorge encontra em um anel hipnótico, encontrado na caixa de cereal, a chance de se safarem daquele que seria o pior castigo da vida dos dois, a separação da dupla. Ele hipnotiza o diretor e faz com que ele assuma a identidade do poderoso, e atrapalhado, capitão cueca.

A partir daí o que vemos é um show de clichês e situações cómicas, pois o diretor Krupp, a todo momento e de forma inconsciente assume a identidade do super herói mais atrapalhado que o Chapolin Colorado. Que fica duplamente divertido quando percebemos os extremos do herói engraçado, bem humorado e divertido se contrapondo ao diretor, chato e mal humorado.

“As aventuras do Capitão Cueca” brinda os espectadores com um herói que é inclusivo, o diretor Krupp ostenta com um certo orgulho, um corpinho nada em forma, para os padrões Batman, Super Homem ou Capitão América.

Em um momento em que se discute, cada vez mais, a questão do empoderamento das minorias, nesse caso um obeso, e seus desdobramentos no comportamento do público, refletido na sociedade. Sociedade essa que ainda trata de forma discriminatória obesos ou pessoas que estejam fora de forma.

A grande sacada de “As aventuras do Capitão Cueca” é a de mostrar que um herói não precisa ter nenhum monte de músculos. A única referência a outros heróis é a inseparável capa. Mas toda semelhança com os mais diversos tipos de heróis termina por ai.

O fato de o “Capitão Cueca” ser inspirado em histórias criadas por duas crianças, foge de uma linguagem caricata. O grande herói tem todas as suas atitudes direcionadas de acordo com a vontade das crianças, que passam a deter o controle sobre o diretor.

É uma pena a direção não inovar na linguagem do filme. Copiar modelos de animação já existente e com uma fórmula, de certa forma, bem sucedida, parece escancarar a falta de criatividade em efeitos, que poderiam refletir uma história que dialogasse mais com a linguagem dos quadrinhos, uma vez que seria plenamente aceitável, diante da habilidade dos personagens principais.

Com oitenta e nove minutos de duração, o filme torna-se cansativo. Há um determinado momento em que a história patina sem sair do lugar. O papel do antagonista, fica pequeno diante de personagens mais fortes e mais carismáticos. Ao vilão cabe o estereótipo do professor, já não tão jovem assim, mas que utiliza todo seu repertorio e conhecimento para distribuir sua maldade por toda escola.

De certo, o filme, não deve repetir o histórico de sucesso do bens sucedidos “Sherek”, “KungFu Panda” ou “Madagascar”, porém se a ideia é o entretenimento, ele cumpre bem o papel e garante aquela velha e boa sensação de ter saído do cinema com o pensamento de que valeu a pena o ingresso.

“As aventuras do Capitão Cueca”, foram inspirados em livros escritos pelo autor Dav Pilkey. Talvez por isso, o filme pode ser visto como uma obra que resgata a infância. O fato de ter uma história contada por duas crianças atiça a criatividade por perceber que heróis não precisam de corpos sarados. Os heróis podem ser o porteiro do prédio, um amigo ou até mesmo o diretor.

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