Um Filme de Estrada, de perpetuar a saudade e de “Tambéns”

Por Fabricio Duque


O diretor Fellipe Barbosa de “Gabriel e a Montanha”, mais uma vez, conversa com o hibridismo do cinema ao buscar conjugar atores e não atores dentro de uma trama “on the road”. É um filme de estrada. De recomeço existencialista. De re-configurar crenças nos posicionamentos político-sociais. De vivenciar experiências turístico-humanitárias. De mitigar ao máximo a importância do conforto oferecido pela tipicidade de quem procura luxo ao viajar. De sentir os lugares menos economicamente favorecidos, como um morador pertencente. É o conceito de se encontrar mais no menos.

Mas também é sobre a aventura individualista do ser humano. De quebrar as próprias barreiras. De competir com os limites dos outros próximos. Seu personagem principal viaja para escalar os picos mais altos das montanhas, para que assim possa alimentar o próprio ego com a superação do resultado favorecido e para ter histórias a contar. É um ensaio à vida e à inerência de quem realmente somos.

O longa-metragem também amplia o discurso político pela necessidade do momento vivido, saindo do campo teórico das ideias elucubradas. É uma re-conexão à simplicidade das decisões óbvias, de abrir mão das próprias vontades para enxergar o outro em sua essência mais pura.

“Gabriel e a Montanha” apresenta a solidão, o impulso, a passionalidade e a ingenuidade de um jovem que potencializa seu poder de que tudo é possível. De ser um super-herói, imune à “kryptnonita”. É uma radiografia. De dentro. De suas emoções mais brutas. À moda de “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn, o filme quer libertar o este ser, que também é um indivíduo que vive dominado, massificado e aprisionado por um sistema capitalista de fragilidades alimentadas (e cúmplices) pelo próprio coletivo.

É também um filme de homenagem a um amigo que foi eternizado pelo olhar pessoal do diretor. Por ter um viés particularmente sentimental, é inevitável sua irregularidade e improvisação, tanto das condições de sua equipe (que filmou in loco), quanto pelas interpretações de seus atores que entregaram seus corpos a esta experiência. Para que esta liberdade criativa acontecesse, o roteiro precisaria caminhar no limite tênue da técnica e da espontaneidade. Havia a necessidade de descortinar, descontinuar e desapegar da forma para naturalizar ações, reações e diálogos. Este subterfúgio é uma “faca de dois gumes”: afiada à encenação hesitada (o ponto negativo) ou à maestria do que se realmente é (o ponto positivo, objetivado e galgado).

Mas é quase humanamente impossível este equilíbrio quando atores e não-atores convivem juntos em cena. Os profissionais precisam adequar-se ao coloquialismo local e os que estão atores desejam não perder a oportunidade única de expressar seus talentos acreditados. De um lado, baixa-se a expectativa. Do outro, eleva-se. Assim, nós espectadores percebemos uma atmosfera de pretensão amadora, como nas conversas clichês: “No Brasil, quanto mais filhos, mais se gasta”.

Gabriel Buchmann (o ator João Pedro Zappa) tinha um grande sonho: conhecer a África. Entretanto, mais do que visitar seus pontos turísticos ele desejava conhecer como era o estilo de vida do africano, sem se passar por turista. Desta forma, decide encerrar sua viagem ao mundo justamente no continente, onde se envolve com vários habitantes locais e recebe a visita da namorada, Cristina (a atriz Caroline Abras), que mora no Brasil. Prestes a retornar, seu grande objetivo se torna alcançar o topo do monte Mulanje, localizado no Malawi.

“Gabriel e a Montanha”, baseado nas anotações do próprio Gabriel, teve sua primeira exibição na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2017, vencendo o prêmio France 4 Visionary Award e o Gan Foundation Award For Distribution, e participou na mostra competitiva do Festival do Rio do mesmo ano que acabou de acontecer.

O filme, por capítulos, conduz seu espectador pela característica independente do cinema direto (que usa o olhar prático do social nos detalhes, como o cartaz de “Diretas Já” e a camisa do time de futebol Flamengo. Contempla-se a imagem, estendendo a observação das cenas. Dois homens negros na África encontram o “mzungu: homem branco brasileiro”, “morto com seus pertencimentos”, que foi “conhecer pobreza” e “trocar culturas”. Ele aprende a cortar cabeça de um coelho para pegar o “pé da sorte” e ou a usar uma roupa típica que lembra os “Flinstones”.

“Gabriel e a Montanha” retrata pela superfície. Ora com sentimentalismo aproximado. Ora com distanciamento proposital. É fora de tom por não definir se segue Serguei Eisenstein ou Dziga Vertov. Como já foi dito aqui, há uma hesitação. Rédeas. Um medo de se ir adiante. Conta-se a viagem por fotos e sem dinheiro. Gabriel, o personagem, tem pressa. Como um turista, quer correr e realizar todos os passeios por causa de seu tempo curto da volta e de seus vistos estão expirando. Ele aos poucos percebe que o caminho é muito mais importante que sua chegada. Ele “anda rápido”, mas “come devagar”.

Talvez esta seja a grande questão do filme: confrontar o espectador com o coletivo e o individual do protagonista. Ao mesmo tempo é procurada uma imersão na vida social, com imagens que atraem imagens, e uma discussão do espaço vazio, que afeta o ser, humano que embarca nesta aventura de autoconhecimento. Um estudo do ego? O sujeito é sempre coletivo? Há outro confronto filosófico: o de que o indivíduo no mais fundo do querer de sua alma busca a simplicidade. Viver com menos. Não ter mais tantas responsabilidades fúteis.

O segundo capítulo representa outro conflito: com as limitações da namorada. Ele, com mais “aceitações empáticas”, precisa lidar com os “inícios” de seus próximos. Neste ponto, gatilhos comuns desengonçados e utópicos “ressentidos” são pululados à exaustão, como o tom dos dois, em um safári turístico na África, que discutem o sistema de educação do país, e ficam nervosos sem mais poderem argumentar com discurso anti-naturalista, “decorado”, em ideias mais hipócritas, perdidas e ainda alienadas. São dois mundos: o “marrento livre” e a “excêntrica aventureira”. E os locais que enxergam neles uma “oportunidade”. “Qual sua missão?”, pergunta-se.

É moralista, maniqueísta, exagerado, teatral, forçado, caricato e apegado demais. Falta fluidez. O diretor aprisionou seu próprio filme. Talvez por pressão, proximidade e intimidade. É menos “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, e muito mais uma carta de amor e carinho ao amigo querido, “um espírito livre”, que “não queria ser turista”. É a busca pela confiança. Domar os espíritos. Libertar a saudade. É contar a história por lembranças. Quando Gabriel, o personagem fictício, enterra a foto do pai na montanha, seu diretor faz a mesma coisa com seu amigo, o perpetuando no topo e nas telas do mundo. É uma jornada melódica, cantarolada na superação.



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