A essência da arte por treze Cates

Por Fabricio Duque


“Manifesto”, do alemão Julian Rosefeldt (quase um estreante, se analisarmos sua carreira com dois curtas-metragens e um longa de ficção científica experimental “The Creation”), é uma ode incondicional à essência da arte, que precisa ser verdade e não sincera, que se utiliza das ideias como obras-de-arte. É um ensaio mental terapêutico de encontrar o impulso, a coragem, a ação, a motivação de se criar a arte. De não se utilizar da razão, mas sim da paixão corrosiva, sem limites, sem tabus, sem freios, sem distâncias, sem exposições blasés. É uma experimentação textual de verborragia adjetivada, livre, cirúrgica, de vanguarda, que só se preocupa com o presente. Não a passados e futuros.

“Manifesto” permite a cópia (até porque “nada é original”), cita Jean-Luc Godard e sua descontinuidade (“Não importa de onde se tira as coisas, mas para onde as leva”), ensina a crianças (o futuro) o manifesto cinematográfico dinamarquês Dogma 95, criado por Las von Trier e Thomas Vintenberg, que protege a arte visual dos gatilhos comuns e artificiais das indústrias cinematográficas.

Aqui é uma experiência discurso que se mescla livremente adaptada de Karl Marx, Herzog, e muito outros. Que mistura o conceito do dizer com a maestria interpretativa da atriz Cate Blanchet, que se entrega totalmente em seus treze papéis de si mesma com domínio absoluto e preciso. Ela é uma entidade. Cada um representa uma época e um tipo de arte. Cada um é abduzido com sutilezas. Cada um é uma possessão presente. Pop-Art, Dadaísmo, Fluxus, minimalismo, arte como seita, como decadência, como arrogância, como discurso “miojo” (três minutos está pronto), tudo representa a loucura e suas consequências. A idiossincrasia, a solidão, a catarse, a apatia. Sim, tudo é arte.

Os históricos manifestos de arte podem ser aplicados à sociedade contemporânea? É isso o que Cate Blanchett tenta responder ao explorar os componentes performáticos e o significado político de declarações artísticas e inovadoras do século XX, que vão dos futuristas e dadaístas ao Pop Art, passando por Fluxus, Lars von Trier e Jim Jarmusch.

O filme, que foi gravado em apenas doze dias, e exibido no Festival do Rio 2017, subverte a própria linguagem quando se auto-analisa, imprimindo a revolução ao expandir a percepção do possível. O que é arte? Uma criança, por exemplo, que não sabe dos limites, verá apenas sete cores no arco-íris? Não será nosso conhecimento de mundo que encontra conforto na padronização? Há uma máxima popular que diz que “um homem que não sabia que a ação que ia fazer era impossível, foi lá e fez”.

“Manifesto” é o típico filme que expulsa o público de sua zona de conforto, principalmente se este espectador é um crítico, como este que vos escreve estas linhas. É um “refresh”, uma “out of limits”. É deixar a imaginação fluir sem convenções, sem ressalvas, sem didatismos, sem preocupações com o leitor. Arte é rebelar a si mesmo. Ser único, particular. Sem covardia e puritanismos. Mais verdade passional e menos técnica construtiva.

Julian Rosefeldt busca conjugar ficção, arquitetura, artes plásticas, vídeo instalações, documentário e narrativa teatral para construir simbolismos, que encontram nos ângulos de câmeras, principalmente nas tomadas aéreas, uma metáfora do distanciamento do próprio ser humano em relação a seu próprio meio-espaço em que ocupa. Seu cinema transcende o entendimento e a definição, e é por isso que sua mise-en-scène liberta o pedantismo e pretensão de sua liturgia. É espontâneo, moderno, invocado.

Sim, é um filme autoria. E de atriz. Realizado para que Cate Blanchet corrobore seu talento inegável e inquestionável. Ela é um monstro em cena. A forma como conduz transições como a criação da marionete boneca dela mesma é uma das cenas que nos deixa de boca aberta e com um suspiro quase silencioso para que não perdemos nenhum reflexo que nos é transmitido.

“Manifesto” é muito mais que um filme experimental. É uma viagem sensorial filosófica que nos conecta à essência. E literalmente nos conduz a um tormento intelectual. Santo Agostinho ensinava que para que algo fosse descrito era necessário buscar as características intrínsecas e inerentes. Uma cadeira, por exemplo, não é uma cadeira por ser de madeira ou por ser acolchoada. Outras também possuem exatamente as mesmas existências. Então, o que faz de um cadeira ser uma cadeira? O que faz da arte ser uma arte única? O que faz um ser humano ser exclusivamente individual? O filme é arte do futuro? Podemos a elevar do nível sete? Que por sinal, é o andar que uma de suas personagens trabalha. Metáfora é arte? Vivemos em uma vida real? Concluindo, “Manifesto” é a desconstrução da arte pelo estudo da própria arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados