Distribuição e Exibição

Por João Pereira Lima


O Rio Market é um espaço de encontros, debates e onde negócios acontecem. Por estar dentro do Festival do Rio e pelo cinema ser uma grande família onde todos se conhecem, assistem os filmes um dos outros, saem para jantar e comemorar, o ambiente é descontraído. Muitos debates aconteceram neste clima favorável e não poderia ser diferente no Seminário “Estratégias de Lançamento de Filmes de Pequeno e Médio Porte” que contou com a moderação de Giselia Martins da Globo Filmes, e a participação de Tito Liberato da Diamond Films Brasil, Silvia Cruz da Vitrine Filmes, Victor Michels da Imagem Filmes, Felipe Lopes da ArtHouse, Paula Cosenza da Pandora Filmes, e Luciana Falcão da Paramount Pictures.

Em resumo, podemos dizer que tanto a primeira quanto a última questão a ser levantada no Seminário se refere ao que é considerado um filme pequeno ou médio. Por exemplo, para a Paramount são aqueles distribuídos em cerca de 25 salas de cinema e para a Vitrine podem ser em apenas 2. Partindo desta questão podemos entender a complexidade do universo da distribuição, e, se analisarmos a forma como está ocorre concluímos que para cada filme existe um planejamento e uma trajetória própria, seguindo jamais uma única fórmula, apesar da repetição de certos parâmetros.

Entendemos que cada distribuidora segue e executa um modus operandi diferente, tanto nas estratégias próprias da empresa como nas particularidades demandadas para cada filme. As distribuidoras podem participar desde a escritura do roteiro ou em uma etapa mais avançada, com o filme em fase de finalização. Poucas vezes entram depois do filme finalizado. Isto é válido para a distribuição no Brasil de filmes nacionais. Os filmes estrangeiros no Brasil e os filmes brasileiros fora do país são, normalmente, negociados como produtos já prontos para a comercialização, incluindo nesse processo um longo namoro entre produtoras e distribuidoras nos fóruns e mercados audiovisuais.

A distribuição é pensada de acordo com as características e potencialidades de cada filme e depende muitas vezes na trajetória trilhada por este. O momento certo para lançar o filme depois de pronto também é um tema muito debatido pelas distribuidoras. Passar por festivais internacionais para depois fazer o circuito nacional e só assim ser distribuído no Brasil é a fórmula mais usada na criação de público para filmes nacionais, já que além de outras questões, estes não contam com o marketing pesado fornecido pela indústria cinematográfica de Hollywood por exemplo. Outras estratégias são explorar questões levantadas pelos filmes ou por seus diretores e produtores, ainda que não planejadas inicialmente. O filme “Aquarius” de Kléber Mendonça, distribuído pela Vitrine, se manteve bastante tempo na mídia pelo momento político do país e pelo posicionamento do diretor e equipe. Outro exemplo é o filme de drama e/ou terror psicológico “Mãe” de Darren Aronofsky. Depois do fracasso de bilheteria nos Estados Unidos, a estratégia da Paramount no Brasil foi explorar a admiração à figura do diretor, trazendo-o para a estreia do filme no Brasil, além de explorar nas redes sociais a curiosidade gerada com diferentes trailers lançados em momentos distintos da campanha de marketing.

A exploração das redes sociais e o reconhecimento e alcance do público alvo de cada filme são sem dúvida as estratégias mais usadas pelas distribuidoras antes e durante o lançamento. Sendo que a televisão, os influenciadores digitais e as diversas plataformas de VOD (Video on Demand) também fazem parte desta competição por espaço em um mercado cada vez mais competitivo.

A discussão sobre as salas de cinema passa por diversas questões. A primeira delas é que há alguns anos deixaram de ser o principal plataforma de exibição. Atualmente, na era digital, um filme pode ser exibido em um apenas um horário de uma determinada sala, ou pode também, ser exibido em diversas salas dentro de um mesmo cinema. Poucos filmes hoje são exibidos em sessões continuas durante todo o dia, muito menos os nacionais. O VOD ganhou um espaço considerável, é cada vez mais frequente o lançamento de um filme quase que em paralelo com as salas de cinema.

Uma outra questão polêmica é o tempo em cartaz. Nesta era da globalização e da rapidez do fluxo de informações, os exibidores, algozes e parceiros das distribuidoras, visam o lucro dos seus negócios, e dentro do sistema econômico vigente não poderia ser diferente. A distribuidora almeja ter seus filmes o máximo de tempo em cartaz, mas os números da bilheteria são praticamente o único dado que os exibidores levam em conta na decisão de manter ou não um filme nas suas salas. A cauda longa, ou seja, toda a trajetória do filme desde sua estreia nas salas até a distribuição para televisões nacionais e internacionais e VOD, é o que dirá se o filme fez ou não sucesso. Ainda assim dados de exibições públicas ou em ambientes específicos normalmente não são contabilizados.

Silvia Cruz explicou que cerca da metade dos filmes brasileiros lançados no cinema não são assistidos por um contingente maior que cinco mil espectadores e, portanto, não geram o retorno financeiro necessário para pagar o investimento das distribuidoras. A necessidade de se pensar modelos alternativos é urgente, seja por meio de financiamento público ou através de patrocinadores. Lançado pela Vitrine, o projeto Sessão Vitrine Petrobrás pode ser um modelo de êxito. Com uma proposta de preços mais baixos e horários fixos, além de formar público aumentam a frequência ao cinema, uma vez que não haverá grande perda de dinheiro àquele que não gostar do filme. O exibidor passa assim a dividir o risco com a distribuidora, criando um modelo que pesa menos para lado da distribuidora, que normalmente assume o risco sozinha, e, também para o público que tem maior incentivo ao acesso às salas de cinema.

O parque exibidor é a questão mais complicada quando se fala de distribuição no Brasil. A expansão para o interior do país, a formação de público, a criação de formas alternativas de exibição, tudo isto esbarra na competitividade de um mercado em expansão onde a manutenção do lucro, em termos atuais, a sustentabilidade econômica, é o que importa unicamente. Em um país culturalmente subordinado como o Brasil onde a maior parte dos filmes de sucesso é formada por filmes norte americanos ou comédias nacionais lançadas pelas Majors, o parque exibidor é em sua maioria controlado por multinacionais da indústria do entretenimento. Nesse sentido, não temos dúvida que os exibidores de cinema não comercial no Brasil têm historicamente uma importância fundamental para formação de público e exibição de filmes que jamais seriam vistos se não fossem essas rarefeitas iniciativas. Mas infelizmente este modelo não se expandiu como poderia e ainda é inexistente em uma grande parte do país.

Em seguida, no seminário intitulado “Ocupação das Salas de Cinema: Cenário Atual e Novas Estratégias para o Aumento da Média por Sala”, representantes do Cinesystem Cinemas, Cinépolis Brasil e UCI traçaram um panorama atual das políticas do setor com foco em suas empresas. O moderador Jorge Peregrino conduziu o debate e foi a voz consciente em um debate muito restrito e lamentável, se considerado a importância do tema. Escutamos o representante da UCI, depois de uma pergunta sobre como aumentar o público de filmes nacionais, culpar a baixa qualidade dos filmes e o pouco profissionalismo dos trabalhadores do setor audiovisual nacional.

Polêmicas à parte, compreendemos que o aumento da taxa de ocupação, centro do debate, mostrou ser uma questão complexa. O aumento do número de salas é inversamente proporcional ao aumento na taxa de ocupação e os dados apresentados por todos reforçou que a ocupação das salas no Brasil tem uma boa média em comparação com outros países.

A localização dos cinemas também é uma questão central. As pessoas vão ao cinema perto do local de moradia e o público também varia de acordo com a localização. Outra questão são os preços mais baixos em horários ou dias específicos da semana. Segundo os debatedores estas promoções não aumentaram o público, simplesmente o deslocaram do domingo para dias de ingressos mais baratos. A questão da acessibilidade, que ainda é economicamente inviável para os exibidores, também é uma preocupação que a cada dia se torna mais atual.

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