Por Fabricio Duque


Hoje, 15 de outubro, é o Dia do Professor, e também quando nós, espectadores cinéfilos vertenteiros, conheceremos os vencedores da Première Brasil, que este ano inovou em gênero, narrativa e polêmicas. A Cerimônia de Premiação acontecerá no início da noite no Cinema Odeon.

O Festival do Rio 2017 estimulou importantes questões. A principal delas o fato do festival ser do Rio de Janeiro, estar no Rio de Janeiro, mas não receber nenhum centavo de apoio da Prefeitura da Cidade Maravilhosa O cineasta Walter Carvalho, que está com o documentário “Iran” na Mostra Competitiva, foi enérgico quando disse que “o Festival do Rio deveria processar a Prefeitura do Rio de Janeiro”. Tudo envolto em uma onda de protestos contra a “censura” na arte cultural.

Os percalços e as limitações orçamentárias (muita da “loucura apoteótica” de trazer mais de duzentos e cinquenta filmes com seus realizadores) não foram problemas. O festival não desistiu, adaptou novas regras (muitas que deram certo, outras não – algumas que causaram revolta dos cinéfilos jornalistas-críticos: a diminuição de dez ingressos por credencial) e mais uma vez conseguiu realizar mais uma edição.

O Vertentes do Cinema, a cada ano, busca arredondar a cobertura, que é diária, “esquizofrênica” e quase “estratosférica”. Esta edição, expandimos a construção das críticas com Vídeos Exclusivos e a novidade as matérias especiais do Rio Market.

Os Vídeos Exclusivos foram totalmente realizados por nossa equipe afiada, integrada, antenada e competente: Lisandra Detulio (repórter), Cris Gregório (câmera), Rafael Souza (câmera) e Pedro Victor Borges (editor) “lutaram com garras à moda de As Boas Maneiras” para não perder nenhum dos entrevistados das equipes dos filmes da competição e fora de competição. Já a cobertura do Rio Market 2017 foi realizada com excelência pelo vertenteiro João Pereira Lima, que conhece como ninguém a arte do mercado cinematográfico.

Quantos às críticas, nós criamos o conceito do Work-In-Progress, até porque acreditamos que nenhuma análise fica devidamente satisfatória durante o período do Festival, e que seja cruel ao ao realizador porque cada construção necessita de maturação, de ordenar ideias. Quando realizamos uma crítica instantaneamente no “sabor” da emoção, o texto tende, majoritariamente, a ficar no campo do passional instantâneo. Muitos amigos críticos dizem com carinho que nós estamos “degustando” os filmes. Sim, até porque quem come sem pressa sente melhor o gosto dos alimentos.

Uma das “reboladas” que nós precisamos ter é a de fazer malabarismos para colocar aquele ou outro filme na programação, contando com a geografia e o trânsito da cidade do Rio de Janeiro que não nos favorece. É desgastante sair de Botafogo, correr ao Largo do Machado, correr ao Centro, correr a Lagoa e voltar correndo ou a Botafogo e ao Centro. Sim, também cansamos. Conclusão: filmes a menos em nossa lista cinéfila.

Tudo porque acima de críticos somos apaixonados pelos filmes. Não podemos nos permitir a não assistir “Ex-Libris” de Frederick Wiseman (mesmo com suas três horas e dezessete minutos) e ou “A Fábrica de Nada”, de Pedro Pinho (com seus cento e setenta e sete minutos) e ou Wang Bing e ou o novo filme do James Franco à meia-noite e ou o acontecimento cinéfilo que foi ontem assistir a “Roda Gigante”, de Woody Allen, que se configurou como a segunda exibição pública internacional com pouquíssimas horas de diferença. Podemos quase afirmar que estávamos também, ao mesmo tempo, no Festival de Nova York.

Sim, o Festival do Rio 2017 tem disso. É amor, cinefilia e paixão incondicional. Por estes três sentimentos é que criticamos o redor, como o engessamento do cinema São Luiz. Mas vamos lá. Continuamos a nadar.

A cada ano, nosso site premia com o Troféu Vertentes do Cinema os filmes que mais se destacaram no festival. Não escolhemos, até porque nenhum deles deve ser preterido por outro e nunca comparado, visto a pluralidade diversificada de composições narrativas e visuais. O que tentamos fazer é indicar os que mais mexeram. Os que mais nos conduziram pelo caminho de nos tirar de nossas zonas de conforto. De inovar sem a importância de seguir padrões já conhecidos.


TRÓFEU VERTENTES DO CINEMA

O Troféu Vertentes do Cinema escolhe dois prêmios oficiais, possibilitando ainda vertenteiras Menções Honrosas. O artista plástico carioca Raphael Cavalcanti, que só trabalha com material reciclado de todos os tipos (cabos de telefone, tampa do chocolate alpino, carretel de fios de cobre), e sempre diz que “nenhuma obra dele é igual, porque é arte, e arte não é igual, se for vira industrial”, criou o modelo único do nosso Troféu simbólico (ainda não oneroso).

 


Melhor Filme de Longa-Metragem da Mostra Competitiva: “UNICÓRNIO”, de Eduardo Nunes.

Pela inovação estética, pela unicidade narrativa, pela fábula existencialista, pela metáfora da descoberta da sexualidade, pela fotografia que nos aprisiona em um universo particular e lúdico, pelo desenvolvimento de tempo pausado, pela percepção psicológica do dentro para fora, pela liberdade despretensiosa de manter o significado do ser, pelo realismo fantástico à moda de “Mary Poppins”, pelo respeito a nossa inteligência de enveredar pela personificação do mundo de Hilda Hilst, pela filosofia poética do olhar.


Melhor Filme de Curta-Metragem da Mostra Competitiva: “VACA PROFANA”, de René Guerra.

Pela discurso político de representação dos transgêneros, pela narrativa humanizada de nos conduzir pelo elemento orgânico, pela verdade temática que mostra que mãe é quem cuida (e que tem talento para ser “Ela será mãe. Ela é mãe”), pela sinestesia da trama que nos aproxima de um indivíduo social que busca a essência simbólica da maternidade, pelo confrontamento à hipocrisia, pela intimidade ao cotidiano, pelo sofrimento espontâneo que transcende a forma e serve como um estudo de caso.


Prêmio Nada Mais Importa (Premiado pela equipe do Vertentes do Cinema): “ALGUMA COISA ASSIM”, de Esmir Filho e Mariana Bastos.


Melhor Documentário do Festival do Rio 2017: “HENFIL”, de Angela Zoe.

Transpassa-se exatamente o que um documentário deve abordar: conhecimento, emoção e verdade, aprofundando curiosidades, esclarecendo fatos e desenhando um retrato que respeite su homenageado. Sim, este cumpre todos estes requisitos e muitos outros. O documentário apresenta a vida do cartunista e ativista Henfil e, através de narrativas paralelas, explora um movimento de descoberta do artista junto aos jovens a partir de uma turma de animadores que tenta trazer seu trabalho para os dias atuais. O filme ainda traz revelações sobre a maneira como o artista usou seus desenhos como um aparato para driblar a censura política, e também como um recurso para lidar com sua saúde frágil, causada pela hemofilia, e para expor sua inquietação criativa. O filme só tem um ponto negativo: é curto demais com seus setenta minutos. Sua diretora disse que isto é proposital para que fiquemos com um “gostinho de quero mais”. E nós ficamos.


Melhor Filme Internacional do Festival do Rio 2017: “THE FLORIDA PROJECT”, de Sean Baker.

Uma fábula realista sobre os moradores periféricos, ao redor dos parques da Disney, que sobrevivem em motéis baratos. É uma radiografia intimista e cirúrgica do “sonho americano”. Do capitalismo que cria o sonho aos turistas, mas que oprime a própria fantasia dos que lá ficam. Sua narrativa, semelhante a “Docinho da América”, de Andrea Arnold, é naturalista e é construída pela espontaneidade, de câmera próxima, quase mosca, que traça um estudo visual destes americanos “fracassados” que precisam lutar com o que podem (o famoso jeitinho) para o sustento de suas famílias. As interpretações de suas personagens beiram o ultra realismo. É direto, seco, cruel, sarcástico, barraqueiro, enérgico, urgente, livre, de pulso forte e também meticuloso. Eles vivem a magia de uma fantasia de sonho “b”, de segundo plano. Sean Baker tem controle absoluto da direção e em dosar sinestesia com humanidade. Crítica social com estudo-geográfico antropológico.

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