Sofrimento, Opressão, Afeto e Esperança

Por João Pereira Lima


“Piripkura”, exibido na mostra Première Brasil: Competição Longa Documentário no Festival do Rio 2017, é um filme necessário, além de ser lindo, emocionante e muito bem executado. Com direção de Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge, que entrou no projeto ao longo do processo, o filme nos ensina como contar uma história de sofrimento e opressão, mas também de afeto e esperança de uma maneira muito comovente.

A questão indígena (assim como a quilombola, a LGBTs, entre muitas outras) deveria ser debatida todos os dias, assim como debatemos a corrupção e a violência, até porque os índios estão do lado mais vulnerável de uma colonização opressora e assassina praticada ainda hoje. O modelo de desenvolvimento econômico e social implantado nas Américas desde que os europeus invadiram o Brasil sempre massacrou e marginalizou os povos tradicionais. Há mais de 500 anos estes são assassinados e os sobreviventes forçados a se deslocar ou a aceitar condições impostas, o que significa uma forma de morte das suas culturas e deles próprios.

O filme começa com uma busca incerta por dois índios, Pakyî e Tamandua, os últimos indivíduos isolados que se tem contato da etnia Piripkura, do subgrupo Kawahiva. Rita, a terceira sobrevivente Piripkura que se tem contato, vive na cidade com seu marido, índio de outra etnia, e conta como seu povo foi, na década de 1980, constantemente perseguido e massacrado, tendo que fugir para fora de suas terras. Já Pakyî e Tamandua se isolaram e passaram a habitar o escasso pedaço de floresta nas margens do rio Madeirinha no Mato Grosso, interditado pela FUNAI desde 2008 e cercado por fazendas, estradas e madeireiros que ameaçam sua sobrevivência. A interdição da Terra Indígena proíbe qualquer não índio de entrar em estas terras e deve ser prorrogada a cada 2 anos com provas da existência desses 2 índios. Esta é temporária e se difere da demarcação que é permanente (palavra que tem seu significado posto à prova todos os dias no Brasil).

Desde 1989 a Funai, por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Madeirinha-Juruena, acompanha em expedições periódicas esses últimos sobreviventes da tribo Piripkura. O funcionário não estatutário Jair Condor é quem bravamente coordena estas expedições, sempre na esperança de encontrá-los antes de terminar a portaria de interdição, em uma luta contra o tempo carregada de amor por nossos parentes e por tudo que estes representam.

A capacidade de sobrevivência destes índios é impressionante. Entre 1992 e 2007 o contato com eles foi perdido, e somente em 2008 retomado esporadicamente. Portando somente um facão, um machado cego e uma tocha, Pakyî e Tamandua, tio e sobrinho, vivem caçando, colhendo, conversando em voz alta e dormindo debaixo de construções temporárias feitas de material encontrado na floresta.

A busca por estes índios na primeira expedição da equipe do filme com Jair é frustrada, sinais são encontrados, mas eles não. Meses depois todos voltam ao posto avançado da Funai para mais uma busca e desta vez Pakyî e Tamandua (como eles próprios se chamam hoje em dia, já tiveram outros nomes) apareceram no posto da Funai. A tocha que eles mantêm acessa desde 1998 havia se apagado e eles precisavam reacendê-la, sem fogo não se vive na floresta. Este momento do filme é emocionante, pois como Bruno, fotógrafo do filme, explicou, ruídos vieram da floresta e o experiente Jair sabia que eles estavam por perto. Com a rapidez de quem faz documentário o equipamento foi preparado, a câmera ligada e todos correram para o emocionante encontro.

Em outro momento do filme Jair pede por telefone a presença de médicos para avaliar a situação dos 2 índios. Do outro lado da linha é dito que vão enviar alguém em alguns dias e pedem para que Jair os mantenha por perto. Em palavras sábias de quem entende e respeita o próximo, Jair diz que não pode mantê-los ali se eles não quiserem, pois eles sempre foram e continuam sendo livres.

O processo todo durou 4 anos desde o primeiro encontro com Jair até as últimas filmagens. Foram 3 expedições entre novembro de 2015 e março de 2016 quando aconteceu o encontro. Com uma equipe reduzida trabalhando em condições difíceis, o resultado é um filme de afeto, de amor e de esperança por compreensão em tempos de reflexão. Desde que foi inventada, a fotografia serve também para documentar o que existe e o filme é neste sentido uma arma muito poderosa para a preservação e para luta da causa indígena.

O sistemático desmantelamento da Funai e o crescimento do poder dos ruralistas, madeireiros e garimpeiros ameaçam seriamente as políticas de proteção aos índios em todo Brasil. Os especialistas que durante toda uma vida trabalham com esses povos nunca foram valorizados. Jair por exemplo não é funcionário da Funai, com as mudanças de governos pode ser demitido de um dia para outro. A causa indígena é uma causa pelo direito a vida e a cultura. Cultura essa, que mesmo que alguns se neguem a aceitar é a nossa cultura, a brasileira, fruto da mistura de todos os povos que aqui já habitavam e daqueles que para cá vieram. O lugar dos índios é nas terras por eles habitadas e que são deles por direito, estavam aqui antes da invasão europeia e isto deve ser respeitado, demarcação já!

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