Film Commission

Por João Pereira Lima


O setor audiovisual possui algumas características específicas quando comparado a outros setores da economia. Assim como o turismo, emprega direta e indiretamente pessoas de diversas áreas, utiliza a infraestrutura e capital humano local, seja no transporte, alimentação e hospedagem, e gera a criação outras estruturas insurgentes. A viabilidade de qualquer produção audiovisual depende de muitos fatores, sendo as locações de fundamental importância, pois fora do estúdio, serão a face visível de um filme junto com o elenco. Neste sentido, uma das estruturas-chave para uma produção é a Film Commission, principalmente nas filmagens urbanas onde são necessárias autorizações para filmar em exteriores, em edifícios públicos e em locações específicas. Estas são as grandes aliadas dos produtores, principalmente em relação às locações e infraestrutura de serviços locais, além de muitas vezes funcionarem como uma espécie de agência receptiva e de promoção das atividades relacionadas à produção audiovisual nas localidades.

O Rio Market 2017, promoveu o “Workshop de Film Commissions”, com a moderação de Steve Solot, Diretor Executivo da REBRAFIC (Rede Brasileira de Film Commissions). Na programação da “Mesa Redonda de Experiências de Film Commissions no Brasil” estavam presentes Tammy Weiss, Coordenadora da São Paulo Film Commission Spcine; Leonardo Randolfo, Presidente da Film Commission de Petrópolis; André Gevaerd, Diretor da Rede Catarinense de Film Commissions e Diretor administrativo-financeiro da REBRAFIC; Giovana Arduino da Film Commission de Ribeirão Preto; e Roberto Monzo, Diretor do Pólo Audiovisual de Barra do Piraí.

Uma das principais funções da Film Commission é a mediação das autorizações junto ao setor público. Tammy Weiss elucidou o trabalho feito em São Paulo enumerando as principais características do Decreto São Paulo Film Commission, e são elas: a centralização dos pedidos de filmagens e autorizações de todos os espaços públicos do município de São Paulo por meio de um Cadastro Único; a criação de um Ponto Focal na CET – Departamento de trânsito; a determinação de prazos de três dias úteis para publicidade e oito dias úteis para as demais produções; a responsabilidade pela emissão de dados sociais e econômicos; o compromisso com o incentivo econômico por meio de tabela de descontos de preços públicos para filmagens; a determinação de pagamentos em bens e serviços; a criação de um App – Aplicativo de locações; e, a responsabilidade pela articulação com todo o setor público para emissão de autorização de filmagem.

Como visto acima, além da agilidade e do catálogo de locações que centraliza informações cruciais para produtoras, a Film Commission faz a ponte destas com áreas do setor público. Sendo um ponto crucial da burocracia, como apontado por Weiss, a necessária articulação entre diferentes setores para emitir a autorização de filmagem. Tammy também apontou a necessidade de políticas a longo prazo, como por exemplo, a aprovação de leis que garantiriam uma consolidação das Film Commissions, viabilizando economicamente estas estruturas que têm um caráter público.

O palestrante Leonardo Randolfo destacou a Film Commission de Petrópolis-RJ, como um exemplo da atual tendência de adequação das necessidades das ofertas e das demandas da produção e do mercado. Neste município vizinho à cidade do Rio de Janeiro a atuação da Film Comission, ainda incipiente, é de muita articulação com o setor cultural e turístico local, tanto público quanto privado. Leonardo destacou que a atração de produções para municípios do interior é uma das saídas para a crise, e é também, de fundamental importância para apoiar o crescimento de uma indústria audiovisual diversificada fora do eixo das grandes cidades.

Apresentando um modelo bem-sucedido, André Gevaerd apontou a importância da vontade política neste processo de consolidação das Film Commissions. Em Santa Catarina, prefeituras e sociedade se uniram em uma rede que além de atrair as produções está articula com as entidades de turismo. André citou o potencial do turismo cinematográfico onde cidades e paisagens que aparecem em filmes e novelas são visitadas durante boa parte do ano. O potencial deste tipo de turismo é bastante explorado em alguns países.

A apresentação de Giovana Arduino apresentou a perspectiva de Ribeirão Preto-SP na atração de produções audiovisuais. A palestrante aponta que além do clima favorável, com aproximadamente 200 dias de sol por ano, facilitando o planejamento das filmagens, a cidade tem vôos diários para Rio e São Paulo, mesmo estando a 320km desta última. Esses fatores se apresentam como um grande diferencial somados ao fato de Ribeirão Preto, uma cidade de 600 mil habitantes, contar com aproximadamente 30 mil empresas prestadoras de serviços oferecendo infraestrutura de hospedagem, alimentação, entre outras. O município possui ainda áreas urbanas, rurais e um entorno de paisagens diversificadas, onde serras, rios, fábricas e centro urbanos oferecem um amplo leque de possíveis cenários para a produção audiovisual.

Em uma apresentação detalhada, Tânia Pinta, Coordenadora da Rio Film Commission, destacou o trabalho desta em todas as etapas de uma produção audiovisual, desde a orientação sobre produções estrangeiras e coproduções até a divulgação e acompanhamento das exibições, passando por pesquisa de locações e definição de apoios (como rede hoteleira, guarda municipal). Além de centralizar as autorizações de filmagem em um trabalho conjunto com órgãos públicos a Rio Film Commission conta com um detalhado catálogo de locações e um catálogo de provedores de serviços, apoiando assim categorias de trabalhadores da tradicional indústria audiovisual carioca.

Concluindo a Mesa Redonda, Roberto Monzo elucidou um modelo que deve ser multiplicado, de Barra do Piraí, onde há 9 anos foi criado um Pólo Audiovisual com cursos de especialização, um festival de cinema universitário (em parceria com um festival na Itália), projetos em escolas, além do fortalecimento da Film Commission. Segundo Roberto, o envolvimento da população foi de fundamental importância para o sucesso do projeto, que além de formar mão de obra especializada também é responsável por formar público, principalmente entre os jovens. Roberto reafirmou a importância da indústria audiovisual para o desenvolvimento da região e do país como um todo. Ele também destacou a complexidade de se criar uma estrutura tão importante dentro de uma administração pública onde interesses são reavaliados de 4 em 4 anos e onde a visibilidade que proporciona o audiovisual pode ser utilizada pela máquina público-empresarial em benefício próprio. A alternativa foi criar um instituto, garantindo assim a gestão do Pólo Audiovisual independentemente do governo do momento.

Podemos assim concluir, que as Film Commissions são de fundamental importância para a valorização e promoção dos elos necessários entre as localidades, em todos os seus aspectos sociais, ambientais, econômicos e simbólicos, e a produção audiovisual. As palestras apresentadas no evento deste 13 de outubro de 2017, apontam para a importância das municipalidades, representadas pela ação conjunta entre governos e sociedade civil, como o caminho mais sustentável para a evolução de políticas públicas que beneficiam o desenvolvimento e fortalecimento da indústria audiovisual no país.

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