Entre a Espera do Ver e a Distância da Emoção

Por João Pereira Lima


“Zama”, último filme da diretora Lucrecia Martel (de “O Pântano”, “A Menina Santa”, “A Mulher Sem Cabeça”), que é a pré-escolha da Argentina ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2018, configura-se por desenvolver sua narrativa diferente dos outros filmes de gênero época-História. Baseado no romance sobre Don Diego de Zama, de Antonio di Benedetto, escrito em 1956, o longa-metragem épico, exibido no Festival de Veneza 2017, e que integra a seleção Fora de Competição do Festival do Rio deste ano, retrata uma América Latina que persiste até hoje na paisagem e nos costumes coloniais, no ambiente de opressão e nas incertezas.

Nestes finais do século XVIII, personagens, que parecem ter saído de um monótono livro de aventura, vão costurando uma história de um funcionário da coroa espanhola que tenta ter controle do seu destino, mas que é forçado a aceitar o que lhe é imposto. Nada o pertence, tudo em sua volta é temporário. A sensação de que o futuro almejado deve ser conquistado com paciência e perseverança e que mesmo assim a qualquer momento tudo pode mudar é uma constante pululante e descortinadora.

A construção formal que nos leva a este lugar é o maior mérito do filme, junto com sua impecável direções de arte e fotografia. Todo o resto é oscilatório. Quando nós contextualizamos o resultado final, percebemos que a junção de todas as cenas não consegue traduzir uma natural fluidez, assim, nós temos que nos impor uma cúmplice assistida, para que possamos acompanhar o filme até seu derradeiro final. Um esforço, que durante as quase duas horas, não percebemos. Partimos do princípio que o filme é bom por gostarmos da diretora (a admiração de seus trabalhos anteriores). Mesmo com suas fragilidades, méritos devem ser apreciados.

“Zama” é um filme fora da curva, que imprime, propositadamente, uma “sujeira” estética para que assim seja possível uma identificação maior com o universo vivenciado e abordado. É menos “Sebastião Salgado” de “Vazante”, de Daniela Thomas, e mais “A Festa da Menina Morta”, do diretor Matheus Nachtergaele. Podemos defini-lo como uma experiência aos moldes de “Jauja”, de Lisandro Alonso. Sem dúvidas, é polêmico, principalmente pela questão racial que silencia os negros (nenhum tem voz, inclusive a personagem interpretada pela atriz Mariana Nunes), pela percepção de que o afeto verdadeiro vem dos errantes, criminosos e visceralmente violentos e pela ideia unilateral da selvageria indígena. Nós também podemos inferir que, pela liberdade narrativa, de tempo estendido pelo tédio típico e característico da época, se busca um tom orgânico, de epifania comportamental, que critica o tema estando dentro das sensações obscuras, selvagens e instintivas das almas humanas.

“Zama”, de produção Argentina / Brasil, co-produzida por inúmeros países, inclusive pelos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar, escala um consagrado-conhecido elenco argentino, espanhol e brasileiro. Daniel Giménez Cacho, Juan Minujín, Lola Dueñas, Matheus Nachtergaele, Mariana Nunes para citar os principais. As personagens esforçam-se pelas interpretações de seus trabalhos, mas logicamente não conseguem modificar a estrutura escolhida do roteiro que os transformam, algumas vezes, em estereótipos históricos de uma novela.

A arte de Renata Pinheiro (“Tatuagem”, “Amarelo Manga”, e que nesta edição do Festival do Rio concorre ao Troféu Redentor com “Açúcar”, co-dirigindo com Sérgio Oliveira) e a fotografia de Rui Poças (“Tabu”, “O Ornitólogo”) andam de mãos dadas nas difíceis escolhas que o filme propõe. Ao mesmo tempo, que exige cenários, maquiagem e figurino característicos, a fotografia propõe uma direção pouco usual com a definição dada pelas lentes Zeiss Ultraprime. O conjunto visual nos aproxima da época retratada, porém nos causa um desconforto pelo hiper-realismo poético e pelas pitadas de um realismo mágico opressor, reverberadas por diálogos mais anti-naturalistas e forçados.

Primeiros planos que aprisionam os personagens se alternam com planos abertos e libertadores da paisagem. O ambiente sonoro é construído cena por cena com o incômodo som de insetos, por uma música alegre e descontraída e por um zumbido subjetivo que marca momentos em que o personagem principal sente uma pressão pela situação em que se encontra.

“Zama” é definitivamente o filme de Lucrecia Martel que mais divide opiniões, por se conduzir no limite tênue entre nos prender pelo que se espera ver e na distancia pela emoção esperada. Merece ser visto? Cabe a cada um decidir. Para vivenciar um livro, este tem que ser lido do começo ao fim, e esta resenha cumpre somente uma função que é a única e restrita subjetividade-inferência de indicar pontes e percepções.

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