A Síntese de Uma Existência

Por Fabricio Duque


“Bio”, o novo filme do gaúcho Carlos Gerbase, da Casa de Cinema de Porto Alegre, que começou, em 1979 com o curta-metragem “Meu Primo”, depois com “Intolerância”, “Sal de Prata”, “Menos Que Nada”, também foi roteirista dos seriados televisivos “Memorial de Maria Moura” e “Engraçadinha: Seus Amores e Seus Pecados”, é uma ode à vida humana. É uma trajetória de uma existência que se desenvolve pelo contato com outros seres.

Sua construção narrativa, de falso documentário (“Mockumentary” – em que a ficção parece realidade), que quebra a própria estrutura ao inserir intervenções por ruídos e falas transmutadas reconstituídas, à moda de Nelson Rodrigues (por narrar traições, causos surreais possíveis, quebra da moralidade, naturalizar a sexualidade e pela cumplicidade humanizada dos outros) é construída por depoimentos monólogos de quarenta atores consagrados (incluindo a criança que o próprio diretor considera como uma “meia pessoa”) que exercitam seus ofícios interpretativos, com domínio absoluto em verdades encenadas e abduzidas pelo roteiro perspicaz, de sagacidade sarcástica, de ritmo cadenciado, de química impecável, de precisão cirúrgica e de inocente ingenuidade confessional, que lembra a “pureza das respostas das crianças”.

O roteiro inicia-se com a síntese humana no Universo (quase um “Big Bang Stanley Kubrick de ser”), desenvolve-se por histórias contadas (e percepções detalhistas e lembradas – mas que confrontam com a máxima popular de quem “conta um conto, aumenta um ponto”) nunca do protagonista, para depois voltar em closes encarados à câmera, ao início de tudo, como um “O Curioso Caso de Benjamin Button”, de David Fincher. No elenco podemos destacar Marco Ricca, Sheron Menezes, Maria Fernanda Cândido, Maitê Proença, Tainá Müller, Werner Shünemann, Bruno Torres e muito mais. Todos afiadamente certeiros, espontâneos, naturalistas, realistas. Não vemos atores e atrizes e, sim personagens que são e não que tentam ser.

Nascido em 1959 e morto em 2070, um homem tem uma patologia especial que não o permite mentir. Depois de sua morte, amigos e membros de sua família se reúnem para relembrar acontecimentos especiais pelos quais passaram juntos e que montam um interessante retrato da biografia do rapaz.

Integrante da mostra Fora de Competição do Festival do Rio 2017, o filme é um épico da nostalgia do passado à ficção científica da era futura, de 1959 a 2070. É um exercício despretensioso e simples, sem ser simplista. Pelo contrário. A condução prende o espectador pelo bem mais precioso, essencial e intrínseco do cinema: a curiosidade em saber das histórias. Nós somos movidos a fofocas e bastidores, visto que livros são lidos, e filmes assistidos. É nosso vício. Nossa cachaça. Aqui é biologia e metafísica. É um estudo de caso de um “escolhido”. Que se permitiu descobrir quereres, desejos, limites, adaptações temporais, gostos, tudo isso o revestindo de conhecimento de suas livres vivências. Com casamentos, filhos, netos, prostituta, padre, roubando “coração” de pessoas e sendo “abandonado”.

Cada um de seus atores e atrizes ((que não contracenam entre si) interpreta com corpo, alma, gestos, reflexos, silêncios e olhares que transmitem visualmente os mais íntimos sentimentos personificados. São terapias e confissões mitigadas de mentiras e hipocrisias. O que vemos é o mais puro dos indivíduos que convivem em sociedade. Em meios, núcleos e “armários”. Cada um “empresta” suas sensações, elucubrações, pretensões e referências superficiais do personagem principal, estas são assim porque só quem conhece o outro é o próprio outro mesmo.

“Bio”, que venceu três prêmios no Festival de Cinema de Gramado 2017 (Prêmio Especial do Júri para Melhor Direção de Elenco; Melhor Desenho de Som: para Augusto Stern e Fernando Efron; e Melhor Filme por Júri Popular), é uma poesia coloquial. Um ensaio que mescla aura literária de Luís Fernando Veríssimo com Machado de Assis. A trama é entremeada e conexa com as pessoas que fizeram parte da existência de seu “homenageado”. Sim, é um álbum póstumo de família. Tanto a biológica, quanto a do acaso. Carlos Gerbase no bate-papo ao Vertentes do Cinema disse que a naturalidade das interpretações está nas horas exaustivas de “muito ensaio”.

O longa-metragem é um filme que impressiona (e encanta seu público) pela qualidade técnica, interpretativa e pelo controle absoluto de sua direção e de seu roteiro impecável. Definitivamente, sem tirar tampouco pôr, é uma obra-de-arte que ainda acredita na humanidade, respeitando suas idiossincrasias e que fez o ator Matheus Nachtergaele emocionar-se com “um filme poético e esperançoso”. Imperdível!

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