Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2017


O Festival do Rio chega a seus dezenove anos em meio à crise que atinge o Brasil, especificamente, o setor da Cultura. Esta edição configura-se como um ato de resistência, de não desistência, quando pela primeira vez o apoio financeiro da Prefeitura foi indeferido. Na sessão de abertura com a exibição de “A Forma da Água”, de Guilhermo Del Toro, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza deste ano, potencializada pelo protesto “Meu cu é laico”, na porta do cinema Odeon, a diretora e curadora Ilda Santiago disse que a “luta continua” e que ninguém “vai nos tirar daqui”.

Há muitos anos, o Festival do Rio vem perdendo verbas, talvez pela quantidade estratosférica de filmes selecionados (mais de trezentos), talvez pela utopia cinéfila de trazer a Cidade Maravilhosa os realizadores e parte da equipe. Sim, mas nenhum dos interessados impede sua participação. A produtora Sara Silveira na apresentação de “As Boas Maneiras”, de Juliana Rojas e Marco Dutra, disse que cada um veio como conseguiu (sem a ajuda de custo aos convidados que sempre ocorreu). Tampouco seu público que lota as salas de cinemas, como aconteceu ontem na sessão de “A Fábrica de Nada”, de Pedro Pinho, vencedor do prêmio Fipresci no Festival de Cannes 2017.

Cada vez o Festival do Rio deixa de ser apenas um evento cult venerado por cinéfilos e “nerds” da sétima arte. Já faz parte da cidade, já se define como um produto entretenimento aos moldes de um Rock in Rio. Sempre que um evento transcende sua essência de apenas assistir aos filmes, há perdas e críticas são pululadas. E reverberadas. Jornalistas-críticos, por exemplo, sem a possibilidade de cabines de imprensa (prévia dos filmes para que se possa escrever) e ou a limitação da retirada de ingressos (que era trinta, depois vinte e agora dez), são constantemente obrigados a “cortar” críticas, e entrevistas com o diretor, de suas programações.

Sim, há a necessidade de abrir um discurso, uma conversa, uma reformulação da própria estrutura. Ou a corroboração de que este não é um festival à imprensa (com exceção aos veículos mais importantes e mais conhecidos de seu público) e sim a convidados, ao contrário de Cannes, Berlim, Brasília e Mostra de São Paulo. Estes profissionais precisam “pedir favores para trabalhar”, frase esta ouvido de um crítico. Talvez haja críticos demais. Bem. Dito isto. Vamos a pílulas-críticas dos filmes.


As Pílulas-Críticas

E todo e qualquer festival de cinema nacional e internacional, sou acometido de sentimentos de estranheza inexplicável. Há um misto de urgência em “ter” que ver tudo e, a imposição de mais pressão, em “ter” que escrever sobre tudo, com a realidade de que não se consegue atravessar limites. Sempre entrei com conflito e contradição com a ideia de que uma crítica deva ser imediatamente escrita, instantaneamente produzida. Uma de minhas frases já se transformou em bordão “Ainda estou degustando”, esta um parâmetro, uma desculpa à demora. Confesso que em períodos assim, sinto-me menos crítico, mais cansado e mais pressionado em “precisar” elucubrar percepções analíticas e as publicar “quebrando a velocidade da luz”. Não há como admirar críticos “extra-terrestres” que “rasgam” palavras em seus textos “polaroid”.

Assim, nós criamos o conceito da Crítica ‘Work-In-Progress’, que é, nada menos, que do menos ao mais. De uma pequena análise, chamada Pílula, à crítica propriamente dita, que estará completa na data de sua estreia nacional (ou inicialmente no Rio de Janeiro). Confira, então, a seguir, o primeiro balanço crítico.


“TESTRÖL ÉS LÉLEKRÖL – ON BODY AND SOUL”, da diretora húngara Ildikó Enyedi (de “Europa”, “First Love”) conta uma estranha e poética história de amor, em que as manias idiossincráticas são respeitadas como um entendimento mútuo de se estar em um relacionamento orgânico, simétrico, visceral, solitário e lógico, em que duas pessoas possuem o mesmo sonho (e sem saber cada um dentro do outro). Tudo é experimentado ao sentir. Vencedor do Urso de Ouro e do prêmio Fipresci no Festival de Berlim 2017. Aqui, a maestria está na união de uma direção impecável em transformar o complexo em simplicidade e pelas interpretações irretocáveis de seus atores em situações desconfortáveis criadas pelo roteiro preciso, sarcástico, realista, afiado, e, literalmente, certeiro. Ao final da sessão, o filme foi ovacionado com aplausos ininterruptos, tanto na do filme quanto no início da coletiva de imprensa. Primoroso, complementada pela música cirúrgica-metafórica  “What He Wrote”, cantada por Laura Marling.


“THE FLORIDA PROJECT”, do diretor Sean Baker (de “Tangerina”, todo filmado em celular), é uma fábula realista sobre os moradores periféricos, ao redor dos parques da Disney, que sobrevivem em motéis baratos. É uma radiografia intimista e cirúrgica do “sonho americano”. Do capitalismo que cria o sonho aos turistas, mas que oprime a própria fantasia dos que lá ficam. Sua narrativa, semelhante a “Docinho da América”, de Andrea Arnold, é naturalista e é construída pela espontaneidade, de câmera próxima, quase mosca, que traça um estudo visual destes americanos “fracassados” que precisam lutar com o que podem (o famoso jeitinho) para o sustento de suas famílias. As interpretações de suas personagens beiram o ultra realismo. É direto, seco, cruel, sarcástico, barraqueiro, enérgico, urgente, livre, de pulso forte e também meticuloso. Eles vivem a magia de uma fantasia de sonho “b”, de segundo plano. Sean Baker tem controle absoluto da direção e em dosar sinestesia com humanidade. Crítica social com estudo-geográfico antropológico. Imperdível.


“HENFIL”, de Angela Zoe (de “Meu nome é Jacque”), transpassa exatamente o que um documentário deve abordar: conhecimento, emoção e verdade, aprofundando curiosidades, esclarecendo fatos e desenhando um retrato que respeite su homenageado. Sim, este cumpre todos estes requisitos e muitos outros. O documentário apresenta a vida do cartunista e ativista Henfil e, através de narrativas paralelas, explora um movimento de descoberta do artista junto aos jovens a partir de uma turma de animadores que tenta trazer seu trabalho para os dias atuais. O filme ainda traz revelações sobre a maneira como o artista usou seus desenhos como um aparato para driblar a censura política, e também como um recurso para lidar com sua saúde frágil, causada pela hemofilia, e para expor sua inquietação criativa.​ O filme só tem um ponto negativo: é curto demais com seus setenta minutos. Sua diretora disse que isto é proposital para que fiquemos com um “gostinho de quero mais”. E nós ficamos.


“DETROIT EM REBELIÃO”, da diretora Kathryn Bigelow (de “Guerra ao terror”, “A hora mais escura”), é um filme cruel. Sua diretora é uma torturada psicológica. Tudo por potencializar ao máxima da sinestesia do sentir. Nós somos cúmplices e observadores. Nós sofremos as dores, a morte dos sonhos, inclusive fisicamente. Nós somos lançados em sua experiência de personificar a violência, o racismo, o machismo, o poder policial, o preconceito enraizado. Somos arrebatados pela câmera próxima e intimista. Pela pressão de seres que revivem a psicopatia de “Violência Gratuita”, de Michael Haneke e ou “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick. Somos expostos a uma “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. Nossa raiva é estimulado à moda de “Dogville”, de Lars von Trier. Queremos lutar, revidar, impor nosso lugar de indivíduo social que o único “mal” foi ter nascido negro e pobre. No verão de 1967, os EUA enfrentavam uma profunda inquietação social, com a Guerra do Vietnã e um número cada vez maior de casos de repressão racial. Durante os protestos em Detroit, a polícia local é chamada para investigar uma denúncia de tiros no Motel Algiers. Ignorando a lei, os policiais interrogam e torturam um grupo de afro-americanos, em um jogo mortal de intimidação. Ao fim da noite, três homens desarmados foram mortos e outros ficaram gravemente feridos. Baseado em uma chocante história real. É um soco no estômago. Um filme necessário e imperdível que incomoda da primeira a última cena. E que reverbera a questão racial, que em 2017 ainda não diminuiu em nada e que volta com força total, vide o Festival de Brasília 2017.


“AS BOAS MANEIRAS”, traz mais uma vez a parceria casamento da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra (de “Trabalhar Cansa”), conhecidos pelo fascínio ao cinema de gênero de terror-horror psicológico, que agora é definido de “pós-horror”. O filme é uma fábula paranormal-modernista de realismo fantástico aos moldes de um Guilhermo Del Toro com Manoel de Oliveira com Sergio Bianchi. É “O Labirinto do Fauno” com “O Estranho Caso de Angélica” com “Os Inquilinos- Os Incomodados Que Se Mudem”. Sem esquecer da atmosfera de “Deixe-Me Entrar”, de Matt Reeves. Propositalmente caminha no limite tênue do anti-naturalismo (sensação de estranheza – a artificialidade) e ultra-realismo (na credibilidade visual da criatura lobisomem – a visceralidade). Aqui, a narrativa é conduzido pela estrutura de um conto de fadas metafórico que une criação e gestação, que personifica medos, carnes, desejos frustrações, proteções, solidões, carências, opções, covardias, fracassos, oportunidades “marroquinas”, vampirismos, possessões filosóficas e opções sexuais. Suas atrizes desconstroem suas próprias interpretações, personalidades e literaturas. É uma interessante e curiosa loucura boa. De alimentar estranheza e o surreal. ​Clara, enfermeira solitária da periferia de São Paulo, é contratada pela rica e misteriosa Ana como babá de seu futuro filho. Uma noite de lua cheia muda para sempre a vida das duas mulheres.​ Exibido no Festival de Locarno 2017.


“LOGAN LUCKY – ROUBO EM FAMÍLIA”, de Steven Soderberg, é sobre os membros família disfuncional que está à margem da sociedade, sobrevivendo de roubos e tramoias. Este é um despretensioso e assumido “Onze Homens e Um Segredo” (tanto que é explicitamente referenciado na trama). Aqui, mais uma vez, é Sorderberg sendo Soderberg. Com seus planos arquitetados, lidando sua consequência pela surpresa do acaso. Há quem diga que mais ou menos. Há quem diga que o diretor apela a suas próprias características, gerando assim um produto auto-clichê. Não. Pelo contrário. Sua narrativa busca a “idiotice” para fazer acontecer, em uma sociedade americana que enxerga o sucesso pela quantidade de dinheiro. Os Logan são sortudos e não tem parentesco com Wolverine (impossível não repetir essa piada infame e sem graça). ​Os irmãos Jimmy e Clyde Logan acreditam que sua família sofre de uma terrível maldição, que justifica um azar financeiro que vem se estendendo por gerações. A fim de tentar reverter essa condição, eles decidem executar um ambicioso assalto durante uma corrida de automóveis da NASCAR, o maior campeonato de stock car dos Estados Unidos. No entanto, nem tudo sairá como o previsto.

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