A Parábola da Perda de Uma Inocência

Por Fabricio Duque


Baseado livremente no romance homônimo “Call Me By Your Name”, do egípcio André Aciman (que imprime em suas obras uma influência de Marcel Proust), o filme “Me Chame Pelo Seu Nome”, de Luca Guadagnino (de “100 Escovadas Antes de Dormir”), buscou trazer esta ambiência nostálgica-livre-inocente-adjetivada da literatura, mas modificando alguns aspectos temporais, assim como sua história, que agora acontece em algum lugar no norte da Itália, no verão de 1983, em uma família de intelectuais, que tocam violão (“Play Again Sam”), piano, Bach e tiram fotos Polaroid.

O sensível e único filho da família americana com ascendência italiana e francesa Perlman, Elio (o ator Timothée Chalamet, de “Interestelar”, “Homens, Mulheres e Filhos”), está enfrentando outro verão preguiçoso na casa de seus pais na bela e lânguida paisagem italiana. Mas tudo muda quando Oliver (o ator Armie Hammer, de “O Agente da U.N.C.L.E.”, “Animais Noturnos”, “O Cavaleiro Solitário”) chega “quebrando as regras da casa”, um acadêmico, estudante de Arqueologia, que veio ajudar a pesquisa (e também confrontar – consertando as informações do professor) de seu pai (o ator Michael Stuhlbarg), que entende, aceita e estimula a liberdade das identidades sexuais.

É uma família livre. Sem limitações. Sem tabus. Que vive a pluralidade existencial de ser o que quiser ser, seguindo os preceitos da Grécia Antiga, em que o desejo sexual não deveria ser podado. A narrativa apega-se aos detalhes, as formas dos corpos, a organicidade dos pêlos e do suor e ao bucolismo francês de se tomar café da manhã no jardim. Infere-se a “O Talentoso Ripley”, de Anthony Minghella, por causa de sua edição estruturada a elipses de micro-ações continuadas e de sua frase “Andiamo Americano”.

“Me Chame Pelo Seu Nome”, exibido no Festival de Berlim 2017, conduz-se pela espontaneidade. Pela naturalidade do agir. Pela passionalidade do desejo. Pela resposta recíproca esperada. Pelos gestos sensuais que confundem intenções. Oliver é bonito, encantador e inteligente. Integra-se rápido no meio, fala línguas, “sabe de tudo” e não se importa de fazer “massagem em um garoto de dezessete anos”.

Este filme é sobre este garoto. Sobre o ciúme. Sobre o jogo da conquista. Sobre o receio. Sobre a urgência do outro. Sobre “later”. Sobre estátuas. Sobre toques. Sobre as particularidades da casa. Sobre moscas. É sobre este acontecimento de desejo que define todo o futuro de uma vida. O cenário, os anos oitenta. Entre Estrelas de Cinema e gatilhos comuns da época para imergir o espectador. É a história de um James Dean com Louis Garrel com Jean-Paul Belmondo. É sexy, natural, arrogante, defensivo, nostálgico e solar. É sobre uma americano descobrindo o amor (perdendo a inocência) no melhor estilo Bernardo Bertolucci e “Beleza Roubada”.

É sobre hospitalidade. Sobre as pequenas coisas da vida. Sobre as coisas que realmente importam. Sobre a “verborragia dos italianos”. E mesmo com total liberdade, algumas coisas não podem ser faladas. Camisa polo, o tudo habituado, o beijo no pé, o flerte, a curiosidade, a beleza masculina das obras de arte, a companhia em andar de bicicleta, a espera, o sofrimento adolescente, a ansiedade, a ida, o abandono, tudo pressiona, adoenta e modifica este garoto em “construção”. É a parábola do crescimento. Um ritual cruel da própria vida para que “sinta a dor”, esteja protegido, pronto a aceitar outras desilusões, a descobrir outras fases, como a androgenia David Bowie.

“Me Chame Pelo Seu Nome” é um filme único, despretensioso, que nos integra à liberdade livre e neutra do pensamento, do ser e de que às vezes precisamos do caos para nos reerguer. Um filme preciso. Afiado. Que deixa se perder na técnica para construir a naturalidade dos momentos vivenciados e abordados.


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