O Confronto com o Passado

Por Fabricio Duque


“Discreet”, dirigido pelo americano, formado em psicologia, Travis Matthews (de “In Their Room: London”, “In Their Room: Berlin”, ” Interior. Leather Bar”), traz mais uma vez o tema da intimidade entre homens homossexuais. Exibido no Festival de Berlim 2017, este é um filme discreto, que se conduz por fragmentos narrativos não lineares e mais existencialmente inferidos, de experimentação contemplativa visual, requerendo assim que o público construa o quebra-cabeça de um homem que decide vingar-se dos demônios de seu passado.

O longa-metragem, de viés autoral e de epifania conceitual, cria uma atmosfera sensorial, de se estar fora do corpo, quase em um universo próprio solitário, individualizado e pós-apocalíptico, que não enxerga futuro, tampouco expectativas, personificando o espaço e suas arquiteturas. Sua estética intercala elementos que caminham entre o surrealismo, a realidade agressiva-crua e a pretensão do discurso psicológico, de dentro para fora. E com sua trilha-sonora que define época e idade, indo de “Something Old, Something New”, de Lonnie Russ e “Sleepy Bird”, de Dickie Lee Erwin, até o hip hop atual e moderno dos jovens.

“Discreet” é um filme “on the road”, que “sempre está na estrada”, passando por tipos, personagens, vidas, silêncios, amarras, passados, medos, hesitações e ações passionais. Depois de passar anos escondido, um andarilho, perdido em seu próprio tempo, retorna à casa em que cresceu e descobre que o homem que o abusou durante a infância – o responsável por todos os seus conflitos, angústias e dor – ainda está vivo. Fortalecido pelo tempo, experiências e reflexões vividas durante sua jornada, ele trama sua vingança. Enquanto isso, no rádio, um fluxo constante de slogans de direita brada contra tudo o que não é branco e heterossexual através do árido interior texano, escancarando a perigosa fragilidade masculina na América moderna.

É um filme sobre desejos. Em tentar perdoar o passado. Em buscar nos vídeos, nos encontros por sexo casual (definindo no agora o que aconteceu antes), na possibilidade de finalizar fisicamente o sofrimento (intimidação), na perda de si mesmo para se redefinir como ser-humano, e em programas online (como a de uma guru “bacon”), uma “paz e tranquilidade” para que a vida seja reinicializada do zero. Seus ruídos potencializados imprimem um quê de terror iminente, de que algo acontecerá, mas que não podemos sentir por não ter acontecido conosco.

Sim, “Discreet” é altamente pretensioso por preterir mais a forma estilizada de nosso olhar que a própria história, soando assim como imagens que complementam apenas a duração do filme. Aqui, podemos traduzir, como uma união referencial da cinematografia de Gus van Sant (homenageado nos créditos finais) com a de Gregg Araki, sem esquecer de “Manchester à Beira-Mar”, de Kenneth Lonergan.


Será exibido na Mostra Panorama Mundial do Festival do Rio 2017, tendo a presença do diretor na sessão do dia 07/10, às 22h, no Estação Net Rio 3.


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