O Pequeno Jardim dos Desejos

Fabricio Duque


A ficção “Casa Roshell”, com status de documentário, dirigida pela chilena Camila José Donoso (de “Naomi Campel”). Este seu segundo lona-metragem, exibido na mostra Fórum do Festival de Berlim 2017, é uma viagem de imersão. O espectador é convidado a participar do universo artificial neon, como se fosse arquivos de uma nostalgia perdida, do “pequeno jardim” para se “montar”, em que sonhos e desejos são permitidos. Busca-se uma radiografia intimista ao quebrar o tabu preconceituoso e hipócrita do “submundo gueto” das transexuais por conversas, verdades, sonhos da operação (e do jogador “Cristiano Ronaldo”), câmeras de segurança, processos orgânicos (de transformação de um homem em uma mulher – roupas, maquiagem e perucas alugadas) e a liberdade sem julgamentos dos “quartos escuros”.

A narrativa, intrusa, quer com sua câmera estática, que capta, livremente, a extensão das cenas, a espontaneidade de pausar instantes programados e aulas “workshop personalidade” de ser mais mulher. Não há o lá fora. O que acontece lá dentro, fica lá dentro. É a Las Vegas do Chile. Estes homens transformados são mulheres plenas, livres, felizes, aceitas e desejadas. Não querem a caricatura e sim a normalidade da naturalidade. “É uma terapia”, diz-se nos últimos toques femininos do penteado (suspirando e transpassando que estão prontas – são mulheres novamente: físicas, visuais e socialmente).

“Casa Roshell” é o refúgio. O meio. O clube. O clã. Lá, elas esperam os “Dandys” (“aquele homem de bom gosto e fantástico senso estético”) e se tornam “sereias”. “Formam o corpo”, “pensam nas letras” e aprendem a modelar como se “flutuassem”, a criar a “ilusão ótica” com a peruca, e a “praticar com convicção”. São “felinas, panteras e sexy”. E escolhem se querem ser “intelectual”, “agressiva”, “sereia”, ou “Marilyn Monroe”. E são respeitados, com o máximo de humanidade e afeto, até mesmo por um heterossexual que diz “estamos dentro, aqui são mulheres”. Lá dentro, são mais fortes e ganham energia para superar o mundo externo, ir contra a corrente plastificada social e fumar cigarros “normais” “héteros”.

A fotografia, que lembra a de “L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância”, de Bertrand Bonello, saturada a uma nostalgia argentina, que cria uma atemporalidade de unicidade existencial “escondida na alma”, embalada pela trilha-sonora de “Arrancame La Vida”, de Chivirino Davila; Abril em Portugal”, de Los Tecolines; “Ámame”, de Los Llayras, faz com que nós entremos em um portal saudosista, em um lugar que imagens são traduzidos por espelhos e reflexos. A câmera não sai da casa. A vida só é verdadeira ali dentro. “Gosto das mulheres, mas gosto mais deste lugar”, diz-se.

“Casa Roshell” mostra que elas são submissas a seus desejos e aos outros. E entre reencontros, identificações, “conga sem álcool”, “mandamentos”, “unicórnios”, salvam suas dignidades da mesquinha e limitada sociedade. É um filme de momentos. De sentimentos. De liberdade. De plena realização. De não mais esconder a própria essência. De não mais se esconder. É a revolução pela exposição entre elas e homens que as desejam. É um lugar mágico. Um jardim secreto. Um filme necessário, corajoso, despretensioso e acima de tudo livre.


Festival de Berlim 2017: “Casa Roshell”


A câmera de vigilância da área externa mostra uma recepção monótona em uma rua qualquer da Cidade do México. No interior do prédio, as luzes piscam, mas as mesas ainda estão vazias. A preparação, por sua vez, segue a todo vapor: a barba é removida, a maquiagem aplicada e os fios de cabelo são cuidadosamente postos no lugar. Nesse paraíso utópico chamado Casa Roshell, homens reprimidos em seu desejo de se travestir ganham a liberdade e compartilham sua constante busca por uma ou muitas identidades.


Camila José Donoso nasceu no Chile, em 1988. Formou-se em cinema pela Universidad Mayor de Chile e especializou-se em cinema experimental pela escola Transfrontera in Arica, onde hoje leciona. É diretora dos curtas Camino gris (2005), La niña del rio (2006), Zonas seguras (2010), La meurte de la loca (2011) e Una vida mejor (2012). Estreou na direção de longas em 2013 ao lado de Nicolás Videla com o filme Naomi Campel. Este é seu segundo longa-metragem.


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