A cidade como experiência estética

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília 2017


Uma das características marcantes do realizador Adirley Queirós, Distrito Federal, capital do Brasil, é a de integrar a essência do meio em que vive e interligar sem fronteiras a cidade satélite de Ceilândia com Brasília. É um cinema de fluxo pelo gênero da ficção científica. De criar a fábula para narrar, retratar e abordar urgentes questões sócio-políticos.

“Se você não estiver comendo frango e bebendo cerveja na Ceilândia, você não entende. Tem que ser performático. Não tem que escutar, tem que ouvir. Tem que estar inteiro. Nós fomos afetados por todo ambiente. É um mergulho não aleatório. Se não estiver aberto a sugestões não tem como. É estar aberto ao jogo, encontrar o tempo da fala”, disse o diretor.

Se em seu filme anterior “Branco Sai, Preto Fica”, o conceito-discurso era mais potente que sua forma. Agora, em “Era uma Vez, Brasília”, a estética visual prevalece, ganhando mais importância do que deseja dizer. Este é um filme fábula de contemplação silenciosa, de planos longos, de inferências existenciais. De exteriorizar preocupações, medos e perspectivas instáveis. É uma “Mad Max” candango. Um “Blade Runner” com atmosfera de “Werner Herzog”.

“Era uma Vez, Brasília”, que concorre ao Troféu Candango do Festival de Brasília 2017, depois de ter passado pelo Festiva de Locarno, é um documentário, questão que acirrou um debate sobre o que determina o que é ficção e realidade. O longa-metragem, que talvez tenha criado um gênero de hibridismo identificável, constrói a visão da utopia de poucos que querem “salvar” o mundo, usando do que se possui ao redor. É um conto-de-fadas sobre a sobrevivência. Sobre a resistência. Sobre não deixar morrer a esperança, vendo “coisas aqui” e “fugindo do radar”.

Em 1959, o agente intergaláctico WA4 é preso por fazer um loteamento ilegal e é lançado no espaço. Recebe uma missão: vir para a Terra e matar o presidente da República, Juscelino Kubitschek, no dia da inauguração de Brasília. Sua nave perde-se no tempo e aterrissa em 2016 em Ceilândia. Essa é a versão contada por Marquim do Tropa, ator e abduzido. Só Andreia, a rainha do pós-guerra, poderá ajudá-los a montar o exército para matar os monstros que habitam hoje o Congresso Nacional, no ano 0 P.G. (Pós Golpe), no Distrito Federal e região.

“A Andreia é a que mais atua no filme. Ela traz para o roteiro uma força incrível. É sua relação de corpo. Corpo como performance. Sempre em cenário a céu aberto. O nosso exercito já nasce perdido. O inimigo falar ‘Dartheei’ (referência a Darth Vader de “Guerra nas Estradas”). É o enfrentamento da gramática. Deslocar espaços. Cinema não é publicidade. É anti-estado. Nosso filme não adoro a Dilma, mas odeia o Temer”. O filme inicia-se com um discurso da ex-presidenta Dilma Rousseff

Estes alienígenas, “viajantes do planeta”, deslocados no tempo e no espaço, procuram a ideia de casa, de lar com barulhos ao redor, poesia concretista e o “cerrado como Ovnis”. Uma das maestrias do filme é o desenho “identificação” do de som na “ditadura da imagem”. “O som é um ato político. Tem a potência sonora de descrever o espaço e a geografia. Está ao redor da sala inteira. Filme de baixo orçamento acontece todo pelo desenho sonoro”, diz.

“Era uma Vez, Brasília” traduz-se por uma fotografia saturada ao brilho neon das luzes artificiais para desenvolver a atmosfera de submundo, de margem à sociedade, de últimos rebeldes. É propositalmente amador (abraçando a estrutura Michel Gondry de ser), orgânico e analógico, pela presença impositiva do elemento rádio como forma de comunicação. Eles vivem e organizam novas lutas entre trens, presos e transportados pelo sensorial, com luzes, sombras, armas improvisadas e confissões de histórias das próprias vidas e tragédias contadas.

Nós somos absorvidos em inúmeras e pululadas referências cinematográficas. De “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, a “Os Doze Macacos”, de Terry Gilliam, a “Um domingo de 53 Horas”, de Cristiano Vieira, a “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, de Steven Spielberg, a “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, de Apichatpong Weerasethakul. É uma colagem-tipicidade dos filmes de gênero de ficção científica com todos os que abordam a temática do golpe Dilma-Temer. “A nave era uma paranoia. Eu tinha um desenho da neve. O processo da nave começa a ser construído ali. Uma conquista constante de espaço”, diz.

O filme foca muito mais no visual estilizado que na trama propriamente dita. Assim, muitas cenas parecem acontecer de forma gratuita a fim de preencher a duração da própria obra. Porém outras são incrivelmente icônicas, como o “churrasquinho na nave”. Como já foi dito é uma fábula científica sobre a sobrevivência de se “procurar mantimentos”, sobre o mundo pós-apocalítico, sobre “Eu sou a Lenda”, com Will Smith.

“Era uma Vez, Brasília” é um teatro filmado sobre o tédio do dia-a-dia, com moldes realistas e hip-hop, parecendo um “THX 1138”, de George Lucas, em conversas ultra-naturalistas, que objetiva imergir o espectador no pós-guerra brasiliense, nas “batidas policiais”, na “sincronia cósmica”, no “alpha intergaláctico”, no “Clube da Luta” transmitido (lembrando o seriado da Netflix “Glow”) e nas viagens de metrô com pessoas reais não-atores. É performático na “captura de seu inimigo”, em uma visão singular sobre o domínio do Governo nas ações-reações de seu povo, este que quer ser uma “ponte para o futuro”.

É um filme de metáforas críticas. De conceitual posicionamento direto pelo viés da fábula. É um grito de pedido de socorro. Um último suspiro catártico. É a fantasia construída mise-en-scène para acordar o “gigante” da revolução. É um convite à luta. Sim, tudo é muito claro e cirurgicamente implantado, deixando o tempo ter seu próprio tempo. Contudo, a repetição dos insights potencializa a epifania do agir, gerando o soar barulhento do clichê do próprio clichê, que desencadeia o tédio ao peremptório, como a cena do carro-nave queimado.


Adirley Queirós por Adirley Queirós


Adirley Queirós fala sobre o filme durante a coletiva de imprensa no Festival de Brasília: “É uma possibilidade de levantar personagens, que embalam a ficção e faz uma radiografia sobre eles. O real é mais opressor. É melhor a fábula. Eu acho um filme documentário. Nunca existiu uma linha de roteiro. Todos os cenários são cadeias ambulantes. A gente queria que o sol nunca nascesse. É procura e deslocamento. É desconstruir o cânone. Recodificação da referência. É um teatro armado. Cada momento do filme é uma descoberta. O processo é muito livre. Cada um tem sua autoria. Tudo gira em torno do que vamos criando e recriando. Já jogava o filme para outro lugar. Trabalho de equipe é respeitar a autoria do outro. O que um cria no filme é dele. A gente ai falando menos no Set, se comunicando mais por gestos”.

“Fiz o filme em três anos. Cinema também é ofício. Não estamos brincando de fazer cinema. Não existe trabalhar sem dinheiro. Partindo que o filme é esse modelo de produção. Como montar essas referências?. Vamos na aventura. É viver o filme. Buscar as referências. Mas a referência é a própria vida e o momento que estamos na vida. É estar no filme. É viver o filme que a gente faz. Trabalhar com baixo orçamento das coisas. Fazer filme com quem eu gosto. Com quem não gosto, não transcende. Lutar constantemente pela política do filme. O mercado ainda é vanguarda. O Estado tem obrigação de bancar um filme como o nosso. Nós pegamos o filé da parada. É muito fácil terceirizar o dinheiro do Estado. Este mercado tem risco zero. Não podemos ficar de boca aberta esperando o bonde passar. Todo mundo recebe no filme. Dentro do possível dinheiro justo. Cinema é, acima de tudo, um ofício e um lugar de trabalho. Transformar esse meio de produção em trabalho. Potencializar e captar recursos para pagar a equipe. A afinidade em trabalhar com a equipe, que influencia. Isso muda radicalmente o lugar do filme. Essa falta de organização prévia já ajuda a construir o filme”, disse sobre a arte de fazer cinema.

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