Do Requentado à Volta por Cima

Por Fabricio Duque


É fato que o Festival de Brasília é famoso por seus debates acalorados pós filmes. Nesta edição de 2017, que comemora cinquenta edições, a do filme “Vazante”, que concorre na mostra competitiva deste ano, foi o estímulo exaltado e necessário a pensar a questão do protagonismo negro no cinema. A crítica era de que este era um filme racista por tratar da escravidão pelo viés de uma branca, ainda que fosse outro filme que a diretora quis fazer e não o que resolvia pendências histórias desta ferida ainda aberta e não cuidada de nosso país.

Esta introdução é uma maneira de nosso site antecipar uma defesa que não somos racistas e não comungamos de quaisquer forma de preconceito, e sim, nosso olhar é unicamente imparcial e técnico à interpretação dos atores e à forma contextualizada no filme. Achou-se pertinente esta apresentação para se traçar linhas analíticas sobre o filme baiano “Café com Canela”, dos estreantes, na direção de um longa-metragem, Ary Rosa e Glenda Nicário, que está na mostra competitiva de longa-metragem do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017, busca potencializar esta questão ao escalar somente atores negros e os colocá-los como protagonistas da própria vida, do próprio meio e de um mundo melhor e tolerante.

“Café com Canela”, que se utiliza de caminhos inusitados, mais ingênuos e inocentes, para construir sua narrativa, é sobre a relação de perda e de ganho. É sobre a amizade. É sobre a solidariedade de vizinhos em “não se meter na vida alheia”, mas sim ajudar pela humanidade, fazendo o bem sem olhar a quem. É um filme que traz o mais belo e puro sentimento das almas humanas, de salvamento e insistência ao outro de “volta à vida”. E do aceitar o que cada um é e está sendo no momento. Sem julgamentos, sem críticas aos comportamentos e sem sentimentos de invisibilidade existencialista.

Constrói-se pela nostalgia da imagem direta, mais bruta e concretista. Nós somos convidados a participar deste meio tão distante, mas tão humano. Há vida, há humor, há drama vitimado. Há carências. Não por falta, mas sim pelo querer carente de mais atenção. Assim, suas personagens alteram-se. E o filme caminha sua ambiência por um tom acima, nivelando-se no exagero proposital, que beira a caricatura e o simbolismo imaginário já massificado.

Este saudosismo, do som de um rolo de filme, das imagens caseiras e amadoras de arquivos de uma feliz festa de aniversário de Paulinho (“a alegria da vida”), que precede à tragédia, é atravessado em sofrimentos, lutos e desistências, intercalando os instantes não lineares que aos poucos são montados e explicados com a narração em off de conversas naturais e com as intervenções, pausas e subjetividades da imagem. “Bom dia flor do dia!”, diz-se. Depois de uma desgraça, nada mais importa. E a cena do cinema metaforiza que agora a solução é assistir a vida dos outros.

“Café com Canela” é um filme sobre encontros, desencontros e “putaria” do personagem gay interpretado por Babu Santana, que se apaixona pelo “homem perfeito Adolfo”. A câmera aproxima. A música de bucolismo boêmio à moda de Cartola. “Depois de vinte anos, me deixou sozinho. Agora é só saudade. C’est La Vie”, diz-se. “Se vamos falar inglês, fala direito”, busca-se o humor mais “O Pai Ó” com estrutura de comunidade, em reações mais performáticas, expressões típicas, como “quieta igual toucinho no sal”, causos contados quase surreais que aconteceram no ônibus, e limitações como “a bateria da câmera vai acabar”. Há a rainha do “mico”. A saída de “quarta”. O marido amigo. A mãe doente. A venda da coxinha (receita secreta de família) que fornece a sobrevivência.

O filme busca sua autoralidade, principalmente quando mostra rostos negros em close (um sonho real acordado pelo despertador – em ritmo de batuques de umbanda – e o canto dos pássaros), abraçando a referência cinematográfica do Cinema Novo de Nelson Pereira dos Santos, em “Rio 40 Graus”. E ou quando pontua detalhes, como os livros de Domingos Oliveira, Chico Buarque (além do disco) e uma Viagem ao Afeganistão. Podemos traduzi-lo também como uma irregular novela-parábola, mais estrutural a de um Telecurso, com seus núcleos específicos que se encontram e se cruzam.

No Recôncavo da Bahia, Margarida vive em São Félix, isolada pela dor da perda do filho (entre fantasmas, vozes, desesperos, desarrumações, comidas estragadas, cafés requentados). Violeta segue a vida em Cachoeira, entre adversidades do dia a dia e traumas do passado. Quando Violeta reencontra Margarida inicia-se um processo de transformação, marcado por visitas, faxinas e cafés com canela, capazes de despertar novos amigos e antigos amores.

“Café com Canela” canta e se esforça para que os atores se “apropriem do texto”, também roteirizado pelo diretor, que disse: “Diálogo é a coisa que eu mais gosto de fazer. Normalmente eu escrevo onde eu quero chegar e depois saio à rua para descobrir como vou chegar. Eles vão dando respostas. Para mim, melhores frases do dia acontecem em uma fila de loteria. Trabalhei com diálogos mais duros, mais fechados, mas deixando momentos para improvisação dos atores, que assinaram a autoria do roteiro em várias frases. Não é um filme sobre preconceito e sim um encontro com os nossos”. É sobre homens que não “precisam dormir para sonhar”. “O povo morre e os vivos continuam vivendo”, diz-se.

É sobre rituais. Tradições. Sobre a simplicidade da vida. Com referências explícitas à “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, e implícitas a “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho. É o som das lembranças. Da própria vida que reverbera outras existências. Que se faz ouvido. Que se faz presente. “Café com caneca tem gosto de Natal”, diz-se. Sim, é exatamente esta atmosfera. De universo perdido. Passional versus urgente. “Cervejinha versus bicicleta”. Uma ironia inocente. “Quem gosta de velho é ferrugem”, diz-se com a a proximidade rápida do chegar. Assim como na trama ficcional, o filme “não desiste do outro”. “Tentar é difícil. Não é simples, mas é fácil”. E até o cinema é representado, soando clichê. “O bom mesmo é o cinema. É mágico. Quando se entra, sente-se um cheiro diferente, familiar e perturbador. Cinema serve para viver. Perde-se a vergonha e transcende. É nessa hora que você se encontra”, finaliza-se com dança e com a inferência à “Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen. É um filme que se representa pela própria existência.

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