O Abraço da Morte

Por Fabricio Duque


O curta-metragem pernambucano “O Peixe”, de Jonathas de Andrade, que concorre na categoria no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017, opta-se pelo hibridismo ao conjugar ficção e documentário, realidade e ilusão cinematográfica, para contar a história de específicos e pontuais instantes de pescadores que imprimem uma crueldade e um sadismo inocentes-ingênuos quando abraçam peixes como se fossem animais de estimação até suas mortes (por bocas estaladas) fora d’água. Confesso que em um primeiro momento enxerguei humanidade com o afeto, mas se aprofundarmos o padrão agido, perceberemos um disfuncional comportamento sociopata internalizado.

Uma vila de pescadores pratica o ritual de abraçar os peixes após a pesca. O gesto afetuoso que acompanha a passagem para a morte atesta uma relação entre espécies pautada em força, violência e dominação.

“O Peixe” é contemplativo em sua imagem, explorando o corpo de pescadores torneados, tatuados e queimados pelo sol, suas forças físicas e seus movimentos, dos personagens reais não atores. Pausa-se o tempo pela fotografia nostálgica, que lembra a de um filme antigo dos anos setenta, para nos aprisionar nos tédios solitários de contato à natureza. Eles são náufragos por opção. Todos são como “O Ornitólogo”, de João Pedro Rodrigues. Vive-se uma liberdade “Amyr Klink dos rios” por passarem seus tempos navegando sem pressa, com o propósito de pescar.

A câmera também busca nosso olhar subjetivo. Eles entendem a natureza. Estão integrados, fazendo parte. Quando um velho pescador é selecionado e mostrado, então percebemos a metáfora da transição do tempo e de matar peixes com um estranho, e politicamente incorreto aos olhos dos mais sensíveis, ritual.

“O Peixe” estimula a reiteração. As cenas de cunho conceitual, particular e liberdade poética, com diferentes pescadores, gastam-se por causa da repetição, desencadeando apenas mais momentos sem a novidade da surpresa. Não é ruim, pelo contrário, mas bate na mesma tecla a ideia de que esta prática é comum, difundida, aceitável, cúmplice e localmente comportamental. O filme conjuga três pilares que prendem o espectador: uma fotografia incrível de Pedro Urano; o hibridismo da narrativa que transpassa naturalidade das interpretações (montada por Tita e Ricardo Pretti); e a estética bucólica conceitual com Desenho de som de Mauricio d’Orey. Jonathas de Andrade utiliza vídeos, fotografias e instalações para percorrer a memória coletiva e a história.

Em 2017, “O Peixe” participou do Sheffield International Documentary Festival, do Moscow Experimental Film Festival e do Curtas Vila Do Conde – Festival Internacional de Cinema, onde foi eleito melhor documentário. E exibido no lobby do New Museum, em Nova York. Recomendado.

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