Os Anjos do Desejo

Por Fabricio Duque


O curta-metragem “Inocentes”, do diretor Douglas Soares (de “Contos da Maré”; do longa “Xale”), concorrente na categoria no Festival de Brasília de Cinema Brasileiro 2017, traz a estética do desejo. Da observação que desperta a obsessão da repetição do olhar. Um vício estimulado pelo querer aos corpos sarados e aos rostos bonitos.

É muito mais uma experiência solitária platônica, aos moldes de “Morte em Veneza”, de Thomas Mann. É uma exploração orgânica. Uma repetição condicionada ao belo que está no externo.

É um percurso voyeurístico na obra homoerótica de Alair Gomes, conhecido pelo trabalho fotográfico de corpos seminus na “ousadia no tratamento da intimidade”, nos anos setenta e oitenta. Dedicou-se à pesquisa de filosofia da ciência, estética e história da arte, espelhando-se em Arthur Rimbaud e D. H. Lawrence.

Do seu apartamento de frente ao mar no sexto andar de um prédio da rua Prudente de Moraes, em Ipanema, o artista obtia a maioria de suas fotos de forma secreta. Apenas uma minoria das era posada, à pedido.

A narrativa, que insere fotos reais (do carnaval, por exemplo) e percepções sensoriais orgânicas-físicas, busca a nostalgia quando diminui a velocidade do tempo em planos longos (de tédio observador) e quando opta pela fotografia (de Guilherme Tostes) em preto-e-branco de luz e sombras pelo sol (e diz que a cor do Rio de Janeiro é monocromática, assim como Woody Allen fez em “Manhattan”), que imerge o espectador em uma atemporalidade, contemplando o ambiente com o som do mar, dos pássaros, o apito do navio.

Ao observar corpos torneados e com óleos nas costas, “Inocentes” aproxima-se da cinematografia do cineasta chileno Marco Berger, que desenvolve a iminência do desejo sem consumar (e ou demorar) chegar às consequências. É uma punheta visual com zoom, protegido em um “observatório caseiro”. Tudo é de longe, transgredindo a liberdade dos outros em só existir.

É um filme sobre afeto. Uma ficção experimental à moda “Belair”. De retratar a beleza. De alimentar o próprio tesão individualista. Em sons de uma luta na televisão, que mais parecem momentos sexuais, e em músicas lentas, os cliques da câmera buscam o prazer antológico dos elementos genuínos e os detalhes do corpo, narrado (pelo ator Marcos Caruso) com poesia coloquial-existencial. A imaginação também é estimulada ao explícito. A criação mental dos momentos, entendido quando uma felação prestes a acontecer é cortada bruscamente. Quem realmente foi visita ou fantasma perseguidor? “Não importa o que acontecer, tudo será apenas consequências”, finaliza-se com as músicas “Oh Sister”, de Bob Dylan e “Suave é a noite”, de Nelson Gonçalves. Com montagem de Karen Black. Recomendado.

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