Uma Arquitetura Sensorial

Por Fabricio Duque


A cidade americana de Columbus é conhecida por ser a “meca” da arquitetura modernista. Esta foi a premissa para que o imigrante sul-coreano Kogonada, estreante na direção em um longa-metragem, construísse suas metáforas, trazendo à ficção estágios passageiros, daqueles que ficam, daqueles que retornam e daqueles que consegue sair. Alguns detalhes de sua biografia, como ter nascido em Seul e crescido nos Estados Unidos, ajudam a entender a condução progressiva da narrativa do filme, que caminha no limite tênue do silêncio ausente – e resignado – e na emoção inocente mais sentimental. “Morte é separação e toda separação é um tipo de morte. A história do filme emerge dessas questões”, diz o diretor que buscou referência, inspiração e abrigo no filme “Filho Único”, de Yasujiro Ozu. “A tragédia da vida se inicia com a ligação entre pais e filhos”, complementa.

“Columbus” imprime, no tempo narrativo dos estáticos planos longos e na fotografia plástica-concretista-sóbria-majestosa-coloquial-integrada, uma estética visual. Contempla-se a imagem sem urgência, mas também a pressa para mostrar imediatamente tudo. Há uma ambiência existencialista, uma realidade minimalista com tons de ficção científica e trilha-sonora cósmica internalizada aos moldes do grupo islandês Sigur Rós. Nós, espectadores, inferimos a “Manchester à Beira-Mar”, de Kenneth Lonergan, uma tendência cinematográfica, por causa de sua edição cadenciada, e somos aprisionados no local, um “vivo e fantasmagórico museu da promessa do modernismo” de livros de arte, de arrumações simétricas em uma biblioteca e de prédios em formas funcionais de design ordenado-equilibrado de projeção e edificação dos ambientes em terras agrícolas.

Seus moradores, personagens exemplificados e metafísicos, incorporam a imaginação como forma de sobrevivência. De passar o tempo. De lidar com tédios e ou com problemas familiares consequentes desta apatia de tempo estendido. Inicialmente, o roteiro é de um filme coral, intercalando vidas, instantes, momentos, decisões, até seu completo encontro. A trama desenvolve-se por conversas, por confissões amigáveis, tendendo a potencializar a percepção da encenação pela superficialidade defensiva das personagens e pelo jazz lounge. Aqui, todos são importantes quando a câmera segue o cotidiano ao redor das micro-ações de figurantes, outros funcionários.

Casey (Haley Lu Richardson, de “Fragmentado”, “Quase 18”, e que teve o papel oferecido sem fazer o teste) vive com sua mãe em uma cidade pouco conhecida e assombrada pela promessa de modernismo. Jin (John Cho, de “Star Trek”, “Uma Ladra sem Limites”, ator este que lembra muito os olhos do Ryan Reynolds), um visitante do outro lado do mundo, visita seu pai que está quase falecendo. Sobrecarregados pelo peso do futuro, eles encontram refúgio um no outro e na arquitetura que os rodeia.

“Columbus” é a crítica da crítica, questionando, e alfinetando, sutilmente, que cada vez indivíduos estão mais alienados em seus próprios mundos, “perdendo o interesse na vida cotidiana”. Como foi dito, há um limite tênue. As conversas perdem o tom, ora apressadas e ora silenciosas demais. Há uma artificialidade interpretativa com clichês sobre “orientais falarem inglês”. A emoção falada é silenciada. O tempo para desenvolver porque ainda não morreu. A conversa com o terno do pai. Para cada cena boa, como o simbolismo do “portão-muro” entre eles, há a derrocada de um ingênuo clichê ambulante. Talvez seja o portal meio termo dos dois mundos: a estrutura direta americana (como as cores nos “cubículos desks” de trabalho) versus a inocente sutileza oriental. “É assimétrico”, mas equilibrado a arquitetura da Columbus”, diz-se e é pedido para que a personagem principal saia “do modo robô” e “fale da emoção do que realmente a interessa”. Talvez esta estrutura narrativa seja proposital.

O longa-metragem investe mais no conceito para destravar suas personagens. Explica-se sobre a repetição da arquitetura. Metaforiza-se com pontes e com “modernismo com alma”. Cria elipses continuadas. Infere (não explicitamente no filme) à cinematografia de Richard Linklater. A inversão dos valores: a filha que cuida da mãe ex-viciada em metanfetamina e tem medo de uma recaída (a filha faz tricô enquanto a mãe sai para se divertir). As melhores arquiteturas da cidade. A catarse da bebedeira e da dança. A fala “não com desdém”. O modernismo da China. “Celular inteligente, humano burro”. A cumplicidade de que “todos são contra a Monarquia”. As linhas formais. Possibilidade alternativa. A arquitetura moderna de agonia doméstica. Tudo é aprofundado por fragmentos (defesas, investigações) com um distanciamento que objetiva uma provocação de seu público, um “sermão sentimental” e uma perda de ritmo que desvirtua o caminho do filme à obviedade dos gatilhos comuns finais, que finalizam a trama.

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