A Libertação da Hipocrisia do Desejo

Por Fabricio Duque


“A Serpente”, baseado na última peça de Nelson Rodrigues em 1978 (que já dava “roteiros prontos e montados”), é muito mais que um filme autoral. É uma revolução estética artística de transferência do teatro à arte cinematográfica. Foi exibido no Festival do Rio de 2016, e é dirigido por Jura Capela (de “Jardim Atlântico – Um Musical Brasileiro”), mas o burburinho é a presença dos atores Lucélia Santos – está arrebatadora, uma força da natureza, com domínio completo – e Matheus Nachtergaele – este que fez esta peça quando se formou – no elenco, que se entregam (sem ressalvas e sem medo de retorno) passionais, viscerais e irretocavelmente a seus papéis, em monólogos que pululam picardias pudicas e sofrimentos de uma noiva abandonada ao som de uma música de rock.

O longa-metragem, um teatro conceitual filmado em fotografia preto-e-branco (“quando você tira a cor, você tira a data, você tira o tempo” – à moda de Bela Tarr e seu “Cavalo de Turim”), é uma viagem à liberdade da criação, importando-se muito mais com o processo que com a consequência da distribuição. Busca-se a catarse, o surto, o exagero do desespero. Há a personificação dos mais latentes, íntimos, mesquinhos, egoístas e incorretos sentimentos presentes na alma humana.

É o material bruto do indivíduo sem lapidação. É a essência do que escondemos no mais fundo de nossos âmagos. Nós, espectadores, somos “presenteados” a contemplar uma epifania concerto sensorial das emoções mais intrínsecas, mais básicas, mais instintivas, mais animalescas.

Duas irmãs nutrem uma forte paixão pelo mesmo homem e a força do afeto das duas, quando colocados em oposição, fará com que o impacto de destruição da vida dos três integrantes do triângulo amoroso seja muito potente.
“A Serpente” é sobre “uma noite para não ter mais vontade de morrer”, em que “o homem deseja sem amor e a mulher deseja sem amar”. É a urgência da paixão. “Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado”, diz-se no primeiro ato. Aqui, frases icônicas de Nelson são perpetuadas, como “pior que o irmão, só o cunhado”. Quer-se desconstruir o politicamente correto, como o incesto, a sóbria submissão, a impulsividade do desejo, o erro da possibilidade, o estágio atormentado, a permissão de se vivenciar a loucura.

“Amar é ser fiel a quem nos trai”, diz-se no segundo ato, com suas cenas amplas para “tentar que o Nelson seja Nelson”. É uma homenagem ao grande dramaturgo e principalmente ao teatro. É um abraço ao cineasta Ingmar Bergman quando “sente a vida e sente a morte”. Uma referência a Pietà de Michelangelo quando alimenta o filho; ao universo de William Shakespeare quando romanceia adjetivos; ao gosto do sexo de “Salomé”. “Na cama, o homem nasce enorme”, no terceiro ato, que homenageia a “Noivas de Copacabana”, também de Nelson Rodrigues.

“A Serpente” é sobre a maldade mais pura de flertar com um “picolé chupado”. É sobre traições. É sobre orquídeas deitadas. É sobre “negras-criolas safadas”. É sobre o machismo. Sobre a libertação do desejo. As personagens “cavam as próprias covas”, desenvolvendo intelectualidades. É sobre a fome do quinto ato. “Amar é dar razão a quem não tem”, permeia o ato seis. “O pudor é o mais pudico das virtudes”, no sétimo. As dúvidas no oitavo. E que há coisas mais “importantes que a Via Láctea” no nono.

É um exercício de confissões. De doação altruísta ao vício (“Meu amor não importa, só o seu”). De frustrações. De perdas. De distanciamentos. De discussões de relacionamentos, estes para que estes seres sintam-se mais vivos, revivendo dormências incapacitadas. De simbolismos. De orgulhos. “Todo amor é eterno, se acaba, não era amor”, pontua o décimo ato.

“A Serpente” comporta-se por elipses, por atos orgânicos, por instantes da vida, por observações coloquiais. São colocadas ações terminais sem hipocrisia, excessivamente terapêuticas, de extrema-unção, tudo para zerar passados e aceitar o que está por vir, ainda que venham com mais cargas tragédias. Não são loucos, mas estão. Todos deixam se contaminar pelo acesso imediatista de raiva que cega os olhos. Eles amam demais, como adolescentes que nunca crescem em um platonismo romântico. Mensura-se o amor pela dor e pelo pior sofrimento masoquista da alma. Acredita-se que assim, pelo desequilíbrio patológico, possam conseguir embasar o status de vítimas de suas covardias.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados