A ideia de uma nova consciência e juventude

Por Fabricio Duque

Festival de Cinema de Berlim 2017


Ao se escrever uma crítica, devemos seguir uma regra intrínseca e retórica de degustar as ideias do filme e digerir suas percepções, que precisam ser plurais, não unilaterais e ou em monólogos. A primeira impressão é quase sempre superficial e altamente passional no momento assistido. Outra conseqüência que se deve ter em mente é a de que nenhum filme é majoritariamente bom ou ruim, todos, sem exceção possuem suas falhas e suas maestrias, visto que estes perpetuados não são perfeitos assim como os seres humanos, que é elemento bruto utilizado para traduzir e inferir cotidianos e comportamentos sociais à tela ficcional.

Em “Como Nossos Pais”, mais recente filme da diretora Laís Bodanzky (de “Bicho de Sete Cabeças”, “As Melhores Coisas do Mundo”), assistido no Festival de Berlim 2017, acontece exatamente o que já foi dito no primeiro parágrafo. É um filme que necessita de um tempo de maturação, de pensar sobre, de possibilitar paralelos com a vida ao nosso redor, esta que se comporta como um retrato real. Podendo ser acelerada, sôfrega, demasiadamente feliz, depressiva, resignada, resiliente e ou por substituir sonhos individuais por obrigações familiares.

O roteiro de Luiz Bolognesi (que atualmente assina também o do filme “Bingo – O Rei das Manhãs”, de Daniel Rezende) conduz o espectador pela naturalidade das micro-ações cotidianas das liberdades interpretativas de seus atores, que humanizam o s hábitos diários do processo, este que é transformado aos moldes de um documentário, por estreitar o limite entre o realismo da forma ficcional e o amadorismo da estética do cinema direto. Sua câmera liberta simetrias visuais e regras da não-improvisação, fornecendo o elemento orgânico, idiossincrático e espontâneo do olhar.

“Como Nossos Pais” desconstrói o conformismo, estabelece a descontinuidade narrativa, pulula elipses continuadas e desenha quebras de ritmos como objetivo. Assim, há espaço para abordar questões múltiplas, diversidades e lados políticos sem a imposição do discurso hegemônico, como a “moqueca para o defensor da Amazônia”, “rituais antropofágicos” e a igualdade comportamental das mulheres (o empoderamento – de se o homem pode tirar a camisa, todas elas também podem; e ou dançar o “Show das Poderosas”). “No Brasil, o povo faz tudo, o Governo é meramente fictício”, diz-se.

As críticas, alfinetadas, sarcasmos e cinismos partem dos integrantes de uma “família disfuncional” que briga, mas se entende ao modo deles. “Dar banho nas filhas” versus “proteger a cultura dos ianomâmis (indígenas caçadores-agricultores). Suas personagens convivem recorrentemente com desestruturadas situações, acasos libertadores ou aprisionados, segredos revelados, frias verdades cruéis politicamente incorretas, desejos despertados, lembranças, o relaxamento das drogas ilícitas, cansaços assumidos, catarses solidárias, dúvidas existencialistas, simbolismos chuvosos, “imaginações vividas”, “almoços caprichados”, a “garota que aprende com a vida”, a “calma que precede a tempestade” e a “Casa de Bonecas” de Henrik Ibsen.

Rosa (a atriz Maria Ribeiro) é uma mulher “realista, crônica e não suavizada” que quer ser perfeita em todas suas obrigações: como profissional, mãe, filha, esposa e amante. Quanto mais tenta acertar, mais tem a sensação de estar errando. Filha de intelectuais dos anos 70 e mãe de duas meninas pré-adolescentes, ela se vê pressionada pelas duas gerações que exigem que ela seja engajada, moderna e onipresente, uma super-mulher sem falhas nem vontades próprias. Todo esse turbilhão causa desestrutura, desespero e defesa agressiva (“fala com chicote na mão”), fazendo que ela brigue no limite “desnorteada e barraqueira, falando como um bicho”, “jogando na cara” os “egoísmos” de um marido “realista e lógico” (o ator irretocável Paulo Vilhena), que “não abre mão de nada” e reclama que “não bate bola com os amigos”.

Ela encontra “paz e tranquilidade” no “sacana e chavequeiro” Pedro (o ator Felipe Rocha, sempre com seu natural sarcasmo). Rosa sofre com limitações, com terapias de casal, com a doença recém-descoberta da mãe Clarice (a atriz “Bette Davis de ser” Clarisse Abujamra), que “morde e assopra” e dá “movimento às coisas” (“tive uma vida ótima” e “todos os homens são amantes”) e com a “alienação” sonhadora de seu debochado pai Homero (o cantor, agora ator, Jorge Mautner), que confessa “auto-ajuda de botequim”. “Tudo é carnaval. Qual o problema de discordar?”, exaspera-se. Tudo está no limite do limite, pronto para explodir. E a bonança pós tempestade do amor com “All Star azul”, com o passado resolvido e a máxima perpetuada de repetir a “dureza” “como nossos pais”, como na música de Elis Regina.

Inevitavelmente que quando um longa-metragem foca exclusivamente em seu conceito textual, é despertado gatilhos comuns e um tom mais dramático, mais óbvio em suas reviravoltas, mais efeito em suas ações, mais novelado e mais forçado por potencializar demais a espontaneidade.

Durante os créditos de “Como Nossos Pais”, um jornalista alemão liga o celular e anota as músicas do filme em um bloco. Sim, é um filme intenso, livre, irregular em sua essência existencial, assim como nossa vida que não faz sentido e que somos manipulados pela lei Maktub de que tudo já está escrito. Então, queridos cinéfilos-espectadores-leitores, “façamos, vamos amar” e aproveitar os instantes que este longa-metragem nos presenteia.


“Como Nossos Pais” foi o grande vencedor do Festival de Gramado 2017, levando os Kikitos de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz (Maria Ribeiro), Melhor Ator (Paulo Vilhena), Melhor Atriz Coadjuvante (Clarisse Abujamra) e Melhor Montagem (Rodrigo Menecucci).


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