Uma Experiência que Transcende o Próprio Cinema

Por Fabricio Duque


“Um Filme de Cinema”, do mestre Walter Carvalho (que já dirigiu “Raul – O Início, o Fim e o Meio”; “Cazuza: O Tempo Não Para”; “Budapeste”; “Brincante”, “Lunário Perpétuo”), é muito mais que um documentário de cinema, é um poético retrato-olhar realizado por um cinéfilo a todos aqueles apaixonados, incondicionalmente, pela sétima arte (que na verdade deveria ser a primeira, visto que representa a totalidade artística pela sensação vivenciada), permitindo ao público comungar do “cinema como arte principal” e de seus diretores escolhidos, subjetivos, icônicos e indispensáveis que fizeram história.

Seu cineasta, Walter Carvalho Corrêa, que traz a característica paraibana da sutileza da simplicidade (de descomplicar a essência e imprimir liberdade formal-estética) eleva notoriamente o seu ofício, que é ser um exímio profissional na direção de fotografia desde seu começo em 1971 com “Som Alucinante”, de Guga de Oliveira, e que, desde 2001, pontua direções de longas-metragens, entre documentários e ficções.

“Um Filme de Cinema” é a metalinguagem “aula” do “transcinema” que conversa com diretores entrevistados começando pela pergunta “Por que você faz cinema?”. É um estudo acadêmico sem regras doutrinárias. É um curioso e subjetivo acalento ao próprio saber. É “tentar o cinema do desequilíbrio”. É descobrir o porquê da essência, do “ato superior ao objeto criado”. É a “tinta fresca para se manter vivo”. É contemplar a sinestesia da imaginação. É o amor em sua carga máxima por revisitar a nostalgia do passado pelos detalhes de um cinema abandonado no interior da Paraíba, à moda musical e metafísica de “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, que aqui mostra o já crescido ator-protagonista do filme, Salvatore Cascio . ”Pense bem no final, principalmente no final”, diz-se.

O documentário objetiva traduzir o “processo inconsciente” pelo lúdico e, também, por definições da semântica-sintaxe, por adjetivos concretistas e personificados (à moda radical de Santo Agostinho), do ritmo ditado pelas imagens-planos, trechos de filmes. “Enquadrar é excluir. O quadro é o presente”, ensina-se.

O filme acorda nossa visão de ver o cinema com imagens, depoimentos, ideias, liberdades poéticas dos diretores Béla Tarr, Júlio Bressane (“Filme de Amor”, “Educação Sentimental”), Gus van Sant (“Elefante”), Zhang-ke Jia (“Plataforma”, “Memórias de Xangai”), Lucrecia Martel (“O Pântano”, “Menina Santa”), José Padilha (“Tropa de Elite”, “Garapa”, “Segredos da Tribo”), Ruy Guerra (“Os Fuzis”, “A Queda”, “Kuarup”, “Quase Memória”, “O Veneno da Madrugada”), Ken Loach “Kes”, “Terra e Liberdade”, “Ventos da Liberdade”), Ariano Suassuna (“O Auto da Compadecida”), Karim Aïnouz (“Praia do Futiro”, “Madame Satã”), Andrzej Wajda (“Os Possessos”, “Walesa”), Héctor Babenco (“Lúcio Flavio, Passageiro da Agonia”, “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, “O Beijo da Mulher-Aranha”, “Carandiru”), Asghar Farhadi (“Procurando Elly”, “A Separação”, “O Apartamento”), e o húngaro Benedek Fliegauf (de “Apenas o Vento”, “Lily Lane”).

Eles discutem questões sobre a linguagem cinematográfica: como atingir a verdade? O cinema deveria ser realista ou privilegiar o falso? Qual é o papel da objetividade na hora de filmar? Como explorar o som? Qual é a diferença de usar planos longos em relação aos curtos?

“Precisamos do som anti-naturalista para caminhar no tempo”, elucubra-se sobre a “histeria coletiva” que o cinema representa. O filme estende os planos, deixando bastidores para explicar a “entropia da seta-conceito do tempo” do diretor húngaro Béla Tarr. “Planos longos abrem a imaginação. É uma forma de democracia que não interrompe o movimento, que não representa. É algo verdadeiro. E assim, vejo a tensão. O verdadeiro cineasta corta na câmera”, complementa-se o discurso e arrepia o espectador.

“Um Filme de Cinema”, exibido no Festival do Rio de 2015, é um documentário de imagens com ritmo, cadência e cortes afiados. O diretor Alfred Hitchcock dizia que cinema era exclusivamente visual e até mesmo o popular perpetuou o ditado de que uma imagem vale mais que mil palavras. Inúmeros filmes conseguem ser identificados apenas por uma cena marcante. Essa é a magia de moldar nossas mentes. Esse é o classicismo icônico, como a contemplação de “O Cavalo de Turim”. E ou “Limite”, a “recreação de vanguarda” de Mario Peixoto, que é uma “transgressão” por “filmar a luz e o movimento, que se “inclina sobre si”. E ou o espetáculo musical clássico de 1933, “As Cavadoras de Ouro”, de Busby Berkeley, Mervyn LeRoy. “A raiva é útil”. E ou “O Tango de Satã”, de Béla Tarr.

“O melhor do cinema é que você pode fazer o que quer”, diz-se ao levantar a questão do gênero comercial versus o autoral e a constante “transformação do cinema”. “Roteiro é para os produtores guiarem o filme. A câmera é elemento neutro”, complementa-se. “O filme dura muito mais tempo que uma vida, por exemplo. A simplicidade é o melhor”, finaliza-se com catarse e epifania. “Um Filme de Cinema” é muito mais que uma aula de cinema. É muito mais que um documento de tradução da arte cinematográfica. É uma experiência. Uma transcendência à essência das imagens, do amor que os cinéfilos não conseguem definir. É um filme obrigatório para sentir, degustar, rememorar, aglutinar e ruminar. Mais que recomendado.

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