CartazMalasartes

Trapaças, Interferências e Intermitências da Morte

Por Fabricio Duque


Em nosso imaginário, por mais céticos que possamos ser, a morte, uma figura real, fatal e sem a permissividade da segunda chance (quando é chegado a hora), nos assombra com o “castigo” de nos desconectar desta vida que estamos a viver. A literatura, principalmente a nordestina de Cordel, busca humanizar este ser temeroso, cruel, intransigente, orgulhoso, mordaz e eterno ao justificar motivos propositados (e não possíveis de mudança) e a tolerar as falhas (estas que se desdobram das ações de “engraçadinhos” que decidem “enganar” a ida ao Além e retardar o destino “maktub” de já estar tudo escrito nos mínimos detalhes em “caminhos tortuosos”.

No livro “As Intermitências da Morte”, do escritor português José Saramago, a morte cansa de sua eternidade e da repetição burocrática, ganhando do acaso uma possibilidade de se redimir da própria existência. Em “Os Pobres Diabos”, do cineasta Rosemberg Cariry, a morte é um presente personagem inevitável e teatralmente ambíguo não maniqueísta. Não há bom, tampouco mal. Sua profissão é respeitada ainda que com medo de se “bater as botas”.

Esta premissa é o caminho conduzido no filme “Malasartes e o Duelo Com a Morte”, do diretor paulistano Paulo Morelli (de “Entre Nós”, “Cidade dos Homens”, “O Preço da Paz”, “Viva Voz” e que desenvolveu um software para roteiristas chamado de “Story Touch”). O protagonista Malasartes é o típico brasileiro, que se utiliza de artimanhas, pequenas tramoias e o jeitinho de “dançar conforme a música” para conseguir a sobrevivência diária no meio de constantes dificuldades turbulentas de provas e expiações. O longa-metragem, vendido comercialmente como o filme com o maior número de efeitos especiais da história do cinema nacional, é muito mais que um simples entretenimento.

Seu roteiro espirituoso, sarcástico, de humor ingênuo e livre conjugado com a química de seus atores, que se entregam para equilibrar a estrutura comportamental poético-coloquial do universo de Ariano Suassuna e seu “O Alto da Compadecida” com a naturalidade da inocência ruralista à moda dos filmes de Mazzaropi, e também com a fantasia visual de bruxas, voos, velas que dançam, tudo inferindo, em muito “Abracadabra”, de Kenny Ortega, sem esquecer da estética aventura mais editada de “Castelo Rá-Tim-Bum”.

Sim, os efeitos especiais, realizados de forma artesanal de tentativa e erro não deixam a desejar a nenhum produto estrangeiro quando contam a história do lendário do folclore ibero-americano Pedro Malasartes (o ator Jesuíta Barbosa, de “Praia do Futuro”, “Jonas”, “Tatuagem”) é um malandro de pequenas trapaças, que, por mais que seja apaixonado por Áurea (a atriz Ísis Valverde, de “Amor.com”, “Faroeste Caboclo”), não resiste a uma escapadinha. Devendo dinheiro a Próspero (o ator Milhem Cortaz), irmão de sua amada, Malasartes precisa escapar dele ao mesmo tempo em que prega peças, sempre usando a inteligência, de forma a conseguir alguns trocados. Só que seu padrinho, a Morte (o ator Julio Andrade) em pessoa, tem outros planos para ele.

“Malasartes e o Duelo Com a Morte” inicia-se com a narração ambiência de Lima Duarte em uma animação resumida e explicada.“Ser livre sempre foi o destino dos homens”, ouve-se. Entendemos que antes as bruxas tinham o propósito de “cortar os fios da vida”, mas a Morte roubou tal desencadeamento da profissão delas. Uma das maestrias é definitivamente seu texto (roteiro do próprio Paulo Morelli), que seguindo os passos de Suassuna tem o objetivo de utilizar a cultura popular para formar um arte erudita (“Capivara para ser intocada pela onça”; “desentendimento da palavra”; “ideias na caixa de bobagem”; “proteger da tristeza interior”; “não aceitar coisas de afeição”).

A morte está cansada e busca um substituto à altura: outra alma para aprisionar pela eternidade. Entre “a vida e a morte”, tramas, “arapucas”, ingênuos golpes cúmplices, coragem, subterfúgios, “figurão”, “estrupício”, outra dimensão (o outro mundo – de ponta à cabeça – impossível não referenciar ao seriado “Stranger Things”, da Netflix) e outras prisões (como a do casamento), o filme é desenvolvido com técnica, ação, fantasia e qualidade interpretativa e dos efeitos especiais realistas.

“Malasartes e o Duelo Com a Morte” duela também com o politicamente incorreto quando romanceia a falta de moral, o ciúme, o machismo, o mulherengo que faz “besteira”, “olha o movimento” e persegue “seu sorriso me chamou, eu vim”, a vantagem do desonesto “que enrica com as ideias” de “vidente famoso” (“charlatão ou salafrário?”) e por não “ser tão simples ser maquiavélico”. “O que não é possível neste mundo”, diz-se “molhando as palavras” de “cem anos de perdão” (aludindo ao ditado popular “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”).

“As coisas são assim só porque é melhor assim”, diz-se lembrando em muito um trecho de “O Alto da Compadecida”, de Guel Arraes (“Não sei, só sei que foi assim”). Inevitavelmente, que em sua duração, o filme perca ritmo e precise imprimir certos gatilhos comuns e óbvias reviravoltas para fechar a história. “A única coisa certa da morte é a vida”, diz-se.

Sim, faz parte. Mas o espectador já foi completamente abduzido pela atmosfera construída que nem mesmo as caras e bocas mais à caricatura do núcleo de humor de Leandro Hassum incomodam. “Malasartes e o Duelo Com a Morte” é um filme que respeita a essência de Ziembinski, que acreditava que qualquer gênero de teatro, se feito com seriedade artística, era válido. Nós do público temos tudo. Diversão, entretenimento, qualidade e a maior quantidade de efeitos especiais da história do cinema brasileiro (com mais de 50% das cenas geradas por computação). Orçado em R$ 9,5 milhões, com cerca de R$ 4,5 milhões dedicados aos efeitos visuais. E estreia em 340 salas pelo Brasil. Ainda no elenco: Vera Holtz, Augusto Madeira, Luciana Paes e Julia Ianina. Recomendado.

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