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Muito visual, muitos personagens, mas pouca beleza

Por Marcus Teixeira


“O Reino da Beleza” é o novo filme, do premiado, Denys Arcand. Ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro com “Invasões Bárbaras”. Por isso a expectativa de assistir uma nova produção de um diretor premiado é sempre grande. Cria-se uma expectativa que ele surpreenda, positivamente, o público com um novo olhar, porém mantendo-se fiel a sua assinatura. Reinventar-se não é um problema. Na verdade, o espectador gosta de acompanhar o processo de amadurecimento do diretor.

Neste drama, Arcand nos traz a história de Luc Sauvageau (Éric Bruneau), arquiteto casado, que durante um seminário na cidade de Toronto conhece Lindsay (Melanie Merkosky), por quem se apaixona. A química do casal é imensa. Mas Luc além de ser casado, mora em outra cidade, tendo toda uma rotina de trabalho, casamento e amigos, que ele, a princípio, parece não estar disposto abrir mão.

Casado com Stéphanie (Mélanie Thierry) e morando em Quebec, Luc, começa a acompanhar o processo de depressão de sua esposa, que embora rodeada de amigos e em constante atividade com ele e o grupo de amigos, parece viver infeliz com tudo aquilo que faz o esposo voltar para a cidade, rotina de trabalho, casamento e amigos. Ao contrário de Luc, Stephanie parece estar tão infeliz que abrir mão dessa rotina, não seria o menor problema.

Mas este conflito entre um casal, aparentemente feliz, se perde em meio de algumas histórias paralelas que tiram a força desse conflito. Que poderia ser interessante, traçando o paralelo com o trabalho do personagem principal: desenhar casas, ao compasso que observa a sua “casa” ruir.

O triângulo amoro Lindsay-Luc-Stéphanie não empolga. A falta de coerência com determinadas atitudes dos personagens, distanciam os espectadores da empatia por uma dessas possibilidades de casal. Mas a ausência de identificação com o comportamento dos protagonistas é salva pela interpretação do trio. Éric Bruneau, Mélanie Thierry e Melanie Merkosky trazem ótimas construções para os personagens.

O texto parece não acompanhar a profundidade que poderia ter. Os dramas dos personagens ficam, quase que exclusivamente, a cargo da interpretação dos atores. Eric traz sedução ao Luc, porém ao ser confrontado com a depressão da esposa, é perceptível a mudança do personagem, que cresce. Melanie Merkosky (Lindsay) traz verdade interpretando uma mulher casada que se apaixona e se permite curtir uma aventura. Quanto a interpretação de Mélaine Thierry (Stéphani), o drama da personagem é crescente, o público percebe na atriz o trabalho da construção dos estágios da depressão.

Com pouco mais de uma hora e quarenta minutos, o que vemos é um monte de histórias dispensáveis. “O Reino da Beleza” não possui um grande texto, com diálogos profundos e que irão causar no público uma reflexão profunda sobre os dramas abordados. O adultério não é o mais importante. Há uma desconstrução na percepção deles a esse fato. Fato esse, que poderia ter sido explorado de maneira mais minuciosa. Sem caretices ou lição de moral. Mas a percepção que passa ao espectador é que as tramas paralelas precisavam estar no filme, não permitindo aprofundar o assunto.

Uma história quando contada deve estar com todas as pontas amarradas. As funções devem ficar claras para o espectador. Ele precisa entender o reflexo de determinadas escolhas ou ações no comportamento dos personagens. Para que não soe gratuito. Essas cenas deveriam, de algum modo, dar o respaldo para que o texto avance e as atuações cresçam, mas infelizmente não é o que acontece.

A cena inicial do filme, Luc e Lindsay se reencontram depois de anos, mas o que chama a atenção é a caracterização quase amadora dos personagens. A quantidade dos personagens também é dispensável. Salvo algumas exceções que, de fato, geram conflitos interessantes para a história.

Denys Arcand, aposta em uma fotografia perfeita. Mas essa aposta não foi suficiente para fazer de “O reino da Beleza” um bom filme. Diálogos rasos e algumas cenas entediantes, sequer lembram de diálogos ácidos já vistos em outros filmes como, por exemplo, O Declínio do Império Romano, que brindavam aos espectadores com humor negro em seus diálogos, com discussões sobre a sociedade, feminismo, direitos humanos, entre outros assuntos relevantes.

“O Reino da Beleza” é um filme que deve agradar ao público que gosta de uma história mais açucaradas. Não há riso, não há choro. É, somente, mais um filme que retrata o drama de um casal, de maneira superficial, e ponto.

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