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Além das Palavras

Por Fabricio Duque


Um romance literário, quando adaptado à versão cinematográfica, é compreensível que assuma modificações, logicamente respeitando-se a premissa-essência da história original, a fim de fornecer um tratamento final mais equalizado e ritmado. Esta liberdade poética pode mitigar trechos, personagens e ou adulterar temporalmente os acontecimentos. É mais que aceitável, mas também uma grande responsabilidade ao roteirista.

Em “O Filme da Minha Vida”, terceiro longa-metragem do ator, agora diretor Selton Mello (de “Feliz Natal”, “O Palhaço”), a adaptação de “Um Pai de Cinema”, do chileno Antonio Skármeta (de “O Carteiro e o Poeta”) precisou ir “além das palavras do livro”. Seu escritor deu carta branca para que o diretor (que dedica o filme a seus pais) pudesse construir e propor novos caminhos às personagens que na versão cinematográfica foram transpostas à atmosfera temporal dos anos sessenta. Então, nova época necessitava-se de novas referências histórico-sociais. “Adaptação é uma palavra rasa, que não dá conta do que significa esta travessia tão sutil. Prefiro dizer que respondi com imagens e sons aos sentimentos mais puros que este livro me inspirou”, escreveu o diretor na apresentação da nova edição do livro relançado.

A “fábula da história íntima de uma aldeia mágica” de Skármeta (que também participa como ator: é o maquinista que “leva e traz pessoas para resolver problemas”) foi oferecida a Selton em uma feira literária em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, em 2013, cujo autor foi o patrono-homenageado do evento. O escritor acreditando na similaridade na sensibilidade da linguagem após assistir “O Palhaço” manifestou seu desejo de ver o romance ser rodado no Brasil e ser falado em português e “caiu como um luva” por se passar na serra do Chile.

Um dos trechos do livro: “Compondo minha vida com os materiais rústicos da aldeia: o som aflito do trem local, as maças do inverno, a umidade que sinto na casca dos limões tocados pelo orvalho da madrugada, a paciente aranha na escuridão do meu quarto, a brisa que balança as cortinas” faz com que o espectador esteja cúmplice e participante.

“O Filme da Minha Vida” é um musical romanceado com uma estonteante fotografia do mestre Walter Carvalho (uma experiência estética sépia envelhecida à moda de “Lavoura Arcaica”), uma envolvente trilha-sonora de Plínio Profeta (que realmente nos emociona e nos faz chegar a “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore) com pitadas inferências a “O Segredo dos Seus Olhos”, de Juan José Campanella e a “Amores Imaginários”, de Xavier Dolan e, e um impecável desenho de som de Bernardo Uzeda.

Aqui, o longa-metragem apropria-se de liberdades quase transgressoras, como o nome da “puta” Luna que é redirecionado a iminente namorada. Ou o “dinheiro antes, o mundo depois”. Ou os filmes exibidos.“Rio Bravo”, de Howard Hawks (que mostra “o processo de se tornar homem”), é substituído por “Rio Vermelho”, de Howard Hawks e Arthur Rosson. Nenhuma mudança, ainda que representativa, representa ameaça alguma à história. É a permissividade da liberdade adaptativa.

Serras Gaúchas, 1963. O jovem Tony Terranova (o ator Johnny Massaro) precisa lidar com a ausência do pai, que foi embora sem avisar à família e, desde então, não deu mais notícias ao filho. Tony é professor de francês em um colégio da cidade, convive com os conflitos dos alunos no início da adolescência e vive o desabrochar do amor. Apaixonado por livros e pelos filmes que vê no cinema da cidade grande, Tony faz do amor, da poesia e do cinema suas grandes razões de viver. Até que a verdade sobre seu pai Nicolas (o ator Vincent Cassel) começa a vir à tona e o obriga a tomar as rédeas de sua vida. Como “imaginar as férias: a melhor coisa da vida”.

“O Filme da Minha Vida” busca imergir o espectador na nostalgia bucólica do interior pela fotografia contemplativa entre sombras, reflexos e epifania simbólica da fronteira do não sonho. Um lugar que se desenvolve existencialmente pela presença dos sonhos de todos em querer buscar novas experiências fora dali de uma “vida em duas rodas” (exatamente o mesmo sentimento de “On The Road”, de Jack Kerouac e já vivenciado em “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho). “O meio é tão importante como o final dos filmes”, diz-se por uma narração objetivamente poética.

Porém a impecável, expressiva e sensorial experiência visual é sobrepujada pela forma mais palatável de sua narrativa. Um dos exemplos é a substituição à tela do porco (será uma referência a “Billi Pig”, de José Eduardo Belmonte) invés da vaca, assim talvez para estimular o riso fácil e a caricatura do humor, com direitos a onomatopeia imitada grunhe do animal. No livro: “Você sabe o que quer e tem consciência de si mesmo. A vaca é vaca todo o tempo. Não tem nem consciência de que é uma vaca. É totalmente vaca. Já a consciência o torna livre”.

Não podemos negar que “O Filme da Minha Vida” abraça comercialmente a estrutura de novela (perceptível pelos inúmeros patrocínios creditados), mesmo com conceituais planos estáticos que contam sonhos, por construir um ritmo mais fragmentado, com núcleos, ainda que procure o lado secundário dos personagens. Comporta-se como trailers-instantes de frases de efeito (“Televisão é uma caixa para bobo olhar”; “Cara feia não bota ninguém para frente”; estação de trem abandonada; ausências sentidas; “Os olhos para ver o mundo e os pés para ir ao encontro do mundo”) que se unem para contar uma excessiva quantidade de informações, subtramas, reviravoltas, personalidades, idiossincrasias justificadas e inferências literárias (que incluem Monteiro Lobato, substituindo “Zazie no Metrô”, de Raymond Queneau – que virou filme nas mãos do cineasta Louis Malle).

A trilha-sonora é uma experiência à parte. Provavelmente, uma boa parcela da renda do filme foi destinada ao pagamento de direitos autorais, que inclui Nina Simone cantando (na íntegra) “I Put Spell On You”; “Coração de Papel”, de Sérgio Reis; “Errei, Sim”, de Dalva de Oliveira; passando por “Hier Encore”, de Charles Aznavour; “Comme d’habitude”, de Claude François; até chegar em “House of the Rising Sun”, de The Animals.

“O Filme da Minha Vida” busca lembranças e digressões. Resolver o passado para que o presente programe-se ao futuro. Mas para que isto aconteça o roteiro, de Marcelo Vindicato, utiliza-se de gatilhos comuns inocentes, frágeis, dramáticos, mais teatrais, mais sentimentais e mais ingênuos, de reações óbvias, soando como uma emoção superficial, nos impedindo a sentir. Como o som dos pratos caindo e ou o silêncio da mãe que sofre calada e ou frases prontas como “alpinista de braguilha”.

O diretor Selton Mello é acima de tudo um cinéfilo. Nós podemos perceber na pluralidade de cartazes dos filmes (provavelmente seus favoritos – e explicitado com “Paris, Texas”, de Wim Wenders, ao ser perguntado “Qual é o filme de sua vida?”) que vão de “Se Meu Apartamento Falasse”, de Billy Wilder a “Mensageiro do Diabo”, de Charles Laughton, Robert Mitchum e Terry Sanders, passando pela produtora Vera Cruz. E o filho vendo o pai no cinema passando filmes dos outros para postergar a própria existência, entre poemas de Victor Hugo.

“O Filme da Minha Vida”, como já foi dito, é uma experiência visual para ser assistida no cinema. É compreensível também, sempre, mesmo soando pedante e extremamente radical, que o resultado nunca consegue atender plenamente nossas expectativas, principalmente a quem leu o livro antes do filme. E para você, caro espectador, Qual é o Filme da Sua Vida?

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