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Artista na totalidade da palavra

Por Marcus Teixeira


Pare o que você estiver fazendo e corra para um cinema, o mais rápido possível. É sério! Você e todas as pessoas que amam a sétima arte, precisam conhecer um pouco mais sobre David Lynch, e este é o momento, o material e o conteúdo certo e se chama: David Lynch, a vida de um artista.

Muitas vezes somos direcionados ao conteúdo mais comercial da indústria cinematográfica. São centenas de blockbuster, dos mais variados gêneros, que muitas vezes assistimos, mesmo sem nos interessar pela história. Em alguns casos, pagamos um ingresso para ter um assunto. Estabelecer uma conexão com os amigos, nas rodas de conversas e por aí vai. Com isso assistimos um produto redondo, em que até a nossa lágrima tem os minutos contabilizados para ter início e fim.

Mas como disse anteriormente, “David Lynch, a vida de um artista” é um filme para quem ama a sétima arte, para quem é louco por cinema, para quem se permite fascinar, não pelo objetivo, mas pelo subjetivo da emoção que essa maravilha chamada de cinema nos provoca. Talvez esse seja o grande trunfo deste documentário, estabelecer uma conexão com quem o assiste.

O espectador é convidado a não olhar para o produto final e entender como o diretor pensa, como várias vivências, da infância até a vida adulta o transformam e inspiraram para que ele pudesse amadurecer a sua forma de pensar cinema. A sua forma de olhar o mundo de uma maneira menos real, porém lúdica a maneira como o documentário adentra a história de vida do diretor, percebemos a generosidade de Lynch em se “despir” e expor seu processo criativo e toda uma influência criativa a cerca disso.

Artista segundo o dicionário significa: Aquele que cultiva as belas artes. Talvez não exista sinônimo melhor para definir David Lynch, um artista que cultiva, que dissemina, que experimenta e partilha arte. Como diretor desenvolveu uma assinatura própria. Em suas obras o diretor convida os espectadores a transcender e experimentar o não lúdico. Um convite para que se dispam da realidade e embarquem no irreal, no surrealismo.
Mas ao contrário das obras consagradas de David Lynch, como por exemplo, “Twin Peaks”, “Veludo Azul” ou “Cidade dos Sonhos”, neste documentário não experimentamos uma proposta transgressora do diretor, ao contrário, vivenciamos o que torna suas obras transgressoras, pois o documentário relata todo o processo criativo de Lynch. As inquietações e as motivações são expostas sem pudor algum.

O diretor Jon Nguyen parece conquistar a confiança do personagem. De modo sutil o Jon começa a revisar o passado Lynch . O filme corre como uma conversa, o que é perceptível que o personagem está à vontade em revisar sua trajetória, trazendo elementos de sua infância, expondo o relacionamento familiar como se estivesse conversando com grandes amigos. Em vários momentos a ideia de existência de uma câmera é nula. Mérito dos diretores que tornam a conversa agradável, nos causando essa impressão intimista.

Em “David Lynch, a vida de um artista”, Lynch fala sobre a sua criação em uma pequena cidade, passando por outras cidades americanas que o influenciaram na maneira como ele percebe o mundo, até chegar a Filadélfia. Lynch mapeia sua história, contando os principais eventos que o levaram até sua formação artística. Quanto, mais maduro, mais ele permite-se externar aquilo que acredita ser o modo como faz cinema. A maneira que ele encontrou para reproduzir as suas ideias, seus ideais e, principalmente, sentir-se representado com o que é reproduzido.

Lynch utiliza seus filmes para expor suas obras de arte. Mas elas não estão de modo gratuito, há um sentido, uma relevância para cada peça exposta, filmada e introduzida no enredo dos filmes do diretor. Lynch explica como concebe o cenário e como introduz esses elementos cénicos na história de seus filmes. Por isso as obras dialogam com o cenário.

O documentário “David Lynch, a vida de um artista” tenta traduzir as inquietações do diretor de modo cinematográfico e os idealizadores deste filme são bastante felizes neste objetivo. Pois o público que gosta do cinema como um todo (direção, cenografia, fotografia e etc) encontram no documentário repostas para entender mais o estilo enigmático do diretor. Não é um filme para todos, mas um ótimo filme para quem é fã do diretor.

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