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O Amor Em Tempos de Festivais de Cinema

Por Fabricio Duque


O gênero comédia romântica não necessariamente precisa ser palatável e óbvio. Pelo contrário. O filme “Love Film Festival”, da diretora Manuela Dias (autora das séries “Justiça”, “Ligações Perigosas”), exibido no Festival do Rio de 2014, prova que se pode trazer ao espectador uma pérola-metalinguagem inteligente, íntima e artesanal em uma narrativa musical, naturalista, estética visualmente (da câmera próxima e de edição ágil) e globalizada em suas línguas geográficas (romance em Portugal – Santa Maria da Feira; o drama no Brasil – Rio de Janeiro e seu Festival do Rio e Curta Cinema no Odeon; aventura na Colômbia – Bogotá e Cartagena; suspense nos Estados Unidos – Los Angeles e Chicago) sobre o amor “transatlântico” realista que atravessa o tempo para acontecer entre encontros em festivais de cinema.

“O amor é uma surpresa. Quando começa. Quando termina. E sobretudo quando nunca termina”, diz-se entre o universo de coletivas de imprensa. “Love Film Festival” é acima de tudo um filme cinéfilo, que se apropria do universo “onírico” dos bastidores do cinema para contar seus desdobramentos amorosos, por referências que vão de “Na Cama”, de Matías Bize, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”, de Marcelo Gomes, a Nouvelle Vague do cinema francês, passando por “Old Boy”, de Park Chan-Wook, Beto Brant e Kléber Mendonça Filho.

Luzia (a atriz Leandra Leal), uma roteirista-diretora brasileira, e Adrián (o ator Manolo Cardona, de “ContraCorrente”, “Narcos”, “A Mulher do Meu Irmão”), um ator colombiano. Os dois apaixonam-se em meio a um festival de cinema. Uma história de amor que é desenvolvida em outros 5 encontros, todos eles em festivais de cinema ao redor do mundo. Nessa mistura de ficção e realidade, tudo é possível, e o casal revive clássicas cenas românticas de filmes e ensaios de agradecimentos quando forem receber o prêmio.

O longa-metragem inicialmente retrata o cotidiano “metáfora da vida” do recém-casal e sua “química” para então desenvolver suas idas, ciúmes, defesas protetoras, discussões de relacionamentos (as famosas DR’s) dificuldades, novos namoros e reencontros. “Por amor fazemos qualquer coisa”, diz-se. Sim, quem circula por festivais de cinema (diretores, atores, jornalistas) entende plenamente a história que é contada aqui, e mais, cria uma identificação imediata, visto que muitos amigos só são revistos no próximo ano. Acabar um festival é um tormento à saudade, principalmente se estivermos falando de um flerte que quer ser um namoro.

“Love Film Festival” é quase um documentário sobre o que está atrás do cinema e o “muito trabalho e pouco dinheiro como sempre”, por uma câmera que passeia sem correr, assemelhando-se em muito à estrutura cinematográfica argentina, e por uma trilha-sonora que se equilibra perfeitamente, casando música à imagem.

O casal até tenta ser natural, prático, pragmático, livre, desprendido e moderninho (como o samba na Cidade de Deus) para arquitetar seus entendimentos, suas rotinas, suas agendas, suas energias, mas a semente do querer estar junto “bagunça” suas existências de ponderação. A entrega ao amor ou a praticidade solitária do trabalho. O filme “apodera-se” da realidade, de suas verdades e de seus nomes reais a fim de contar a versão ficcional. Todos são nômades, transeuntes, “estrangeiros”, passantes, e vivem entre quartos de hotel e casas quase sem móveis.

Aqui, um simples encontro do acaso causa complicados percalços e complexas reviravoltas. É a vida que funciona como uma filme em trailers fragmentados pelo viés do tempo de dois em dois anos. Eles esbarram-se e vivenciam uma experiência à moda de “Amor à Distância”, de Nanette Burstein. “O amor sempre surpreende”.

“Love Film Festival” é a história comum de um casal que se vê entre idas e vindas de seus compromissos profissionais. E “final feliz é subversivo”. Não há como não inferir a Woody Allen. Não, mas tudo sem cópias e sim rememorações neste filme que levou seis anos para ser concluído até sua estreia no Festival do Rio em outubro de 2014 e um pouco mais de oito anos até sua chegada oficial aos cinemas. “Eu aprendi muito com esse filme, que me deu amigos e parceiros para vida toda. É um orgulho fazer um filme brasileiro. Cinema é fundamental. Educa o nosso olhar a ver o cenário e a recriá-lo. Então muito mais cinema”, finaliza a diretora Manuela Dias. Recomendado. Não Perca!

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