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As possibilidades de se desculpar com o passado

Por Marcus Teixeira


Ao revisitar a própria vida, como cada um olharia para seu passado? Como cada um olharia para seus medos? Seus anseios? Como cada um olharia para cada fato que lhe aconteceu, desde os mais pequenos aos mais marcantes? Com quais cores estas cenas seriam tingidas? Quais seriam as fragrâncias? Como seria lidar com tantos acontecimentos que se multiplicaram e o transformaram no que você é hoje?

Estas indagações o diretor Alejandro Jodorowsky, traz à tona em “Poesia sem fim”, sua cinebiografia. Filme em que revisa diversos acontecimentos de sua história. Desde seu relacionamento com o conservadorismo dos pais a sua entrada no círculo dos pensadores chilenos dos anos quarenta, onde conhece outros artistas e assim amadurece e desenvolve seu olhar artístico.

Desde o nascer ao envelhecer, quantas milhares de pessoas confrontamos em nossa “jornada” de vida? Quanto dessas pessoas carregamos em nossas atitudes, sem as vezes ao menos perceber? Quantos pequenos acontecimentos atropelam nossas supostas escolhas, nos afastando de algo ou nos aproximando?

Mikhail Bakhtin é um filósofo russo. Grande pensador das teorias da comunicacionais. É dele a ideia de que nenhum de nossos discursos é carregado por um ineditismo. Ao contrário. Trazemos em cada fala nossa, respingos das falas dos outros. Bakhtin, chama este fenômeno de Polifonia do Discurso.

Ao revisar sua história Jodorowsky compartilha com os espectadores, todas as vozes que o transformaram Alejandro (Adan Jodorowsky) em um artista em construção. Uma pessoa sensível que aproveita o máximo cada acontecimento para poder crescer como poeta.

O amadurecimento de Alejandro, no filme, é retratado no trabalho de corpo do ator, que inicialmente, ainda carregando toda uma educação conservadora, é contido e tímido, mas com os encontros mostrados em cena, vai ganhando amplitude no movimento e na expressão corporal. Sendo fácil identificar como cada encontro foi enriquecedor na trajetória do artista.

“Poesia sem fim” é praticamente um filme feito pela família Jodorowsky. Alejandro o diretor é interpretado pelo seu neto Adan. Seu pai, Jaime, é vivido por seu filho, Brontis Jodorowsky. Tal proximidade poderia tornar o filme uma canastrice, com as caricaturas dos seus familiares, mas o que podemos perceber, foi o olhar primoroso do diretor conduzindo o trabalho dos atores para longe dessa possibilidade.

Outra atuação que merece destaque é da atriz Pamela Flores, que interpreta duas personagens: Stella Díaz, poetisa e musa de Alejandro e Sara, a mãe. A diferença entre as duas personagens é algo estrondoso. Enquanto a mãe é contida e recada, Stella é exuberante e devassa. Mérito da direção e da atriz que souberam diferenciar, muito bem, as personagens.

O filme faz uma grande convergência artística. Não é só a poesia que está presente. Os personagens secundários personificam os mais variados tipos: A bailarina, o poeta, a poetisa, o pintor, o pianista, entre outros. Esses personagens não possuem “nomes”, eles são apresentados de acordo com sua arte. O que gera uma fácil identificação.

A fotografia de “Poesia sem fim” é literal. As cenas transbordam metáforas. Nada é insosso. Todas as cenas dialogam com a estética proposta pelo diretor. As cenas em preto em branco com apenas a Musa (Pamela Flores) em destaque, colorida e com o cabelo vermelho onipresente, direciona sutilmente o olhar do espectador para a importância da personagem, a título de transformação na vida de Alejandro.

“Poesia sem Fim” é mais que uma revisão ao passado do diretor Alejandro Jodorowsky. É a real possibilidade de tingir com novas cores, falas e entonações, passagens da vida. O diretor, inclusive participa de diversas cenas expondo, como o seu amadurecimento, o faz olhar para aquela situação de maneira diferente do que aconteceu. Ou como aquele acontecimento interferiu nas suas escolhas presentes.

Jodorowsky, inclusive brinca com isso, de mudar algo que poderia ser diferente na história. Na despedida de Alejandro e Jaime (pai), o diretor recria a cena, intervindo e corrigindo o que gostaria de ter dito ao seu pai. É simplesmente emocionante. O diretor rompe com a sua história e expões algo, que somente o amadurecimento e o despudor com sua biografia permitiriam tal generosidade.

O título “Poesia sem fim” não poderia ser mais apropriado. Tudo é poético. As falas, os figurinos, as cenas, são poesias registradas aos olhos dos espectadores.

Olhar o próprio passado não parece uma tarefa fácil… Jodorowsky, ao revisitar o passado, acaba reescrevendo a própria história. Parece ser libertador transformar tantas histórias presas em uma obra aberta a todas as pessoas. Expor todas as vozes que enriqueceram sua trajetória o transformando no artista que ele é hoje e como cada uma dessas pessoas o influenciou.

“Poesia sem fim” é mais que uma homenagem aos 87 anos do diretor. É partilhar a chance de perceber um mundo em que ainda cabe a poesia e a gratidão.

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