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Quando a Bela Encontra a Fera

Por Fabricio Duque


Um dos temas recorrentes do momento é sobre nossa alienação submissa sócio-comportamental em relação aos meios digitais, cuja crítica discute o vício de se estar permanentemente conectado. O seriado da Netflix “Black Mirror” aprofundou este questionamento no primeiro episódio “Nosedive”, traduzido como “Perdedor”, da terceira temporada, que aborda a obrigação social de existir por likes, curtidas, notas de aprovação e falsos cumprimentos para gerar uma melhor pontuação.

No filme em questão, “O Círculo”, de James Ponsoldt (de “O Final da Turnê”), baseado no best seller homônimo de Dave Eggers (de “Negócio das Arábias”), lançado em 2013, a premissa é seguida e complementada com moldes de “A Rede Social”, de David Fincher com “Jobs”, de Joshua Michael Stern com “Jogos Vorazes”, de Gary Ross com “A Ilha”, de Michael Bay. A história nos insere no universo de “The Circle”, uma das empresas mais poderosas do planeta. Atuando no ramo da Internet, é responsável por conectar os e-mails dos usuários com suas atividades diárias, suas compras e outros detalhes de suas vidas privadas. Ao ser contratada, Mae Holland (Emma Watson) fica muito empolgada com possibilidade, mas logo percebe que seu papel lá dentro é muito diferente do que imaginava.

Aqui, é quando a “Bela” encontra a “fera”, no melhor estilo tecnológico internetesco. É quando Tom Hanks deixa de ser tão Tom Hanks. É quando um poderoso e “fofo Steve Jobs” se vê confrontado pela “mágica” sagaz e perspicaz de Emma Watson. É quando o “feitiço vira contra o feiticeiro”. É quando indivíduos comuns não poderosos conseguem burlar as artimanhas do sistema e se vingar. É quando observamos nosso fascínio, submissão, vício, alienação, empolgação, apatia a todas as coisas digitais.Tudo é desenvolvido e conduzido com ímpeto, impulso, despretensão, conteúdo, simbolismo, edição rápida, paralelismo atual e ultra contemporâneo.

“O Círculo”, inevitavelmente, foca em seu público mais jovem, intercalando, de estrutura editada, momentos mais intimistas e contemplativos do dia-a-dia, como remar, trabalhar, dirigir, jantar com a família, e assim ambientar o espectador no cotidiano e seus problemas consequentes, como o pai com esclerose múltipla; e seus sonhos, como uma difícil reunião de admissão no The Circle em que deve “dizer o certo”. Lá, ela precisa preocupar-se em não completar apenas 87 pontos, mas os 100 desejado e esperado. “Cuidado com a métrica”, ensina-se a “True You” com show real do cantor Beck.

O longa-metragem adentra em possibilidades tecnológicas, como a de estar conectado em tempo real por micro-câmeras camufladas-escondidas (instaladas em todos os lugares do mundo a fim de proteger por completo seus indivíduos que interagem na sociedade) assemelhando-se a uma experiência Big Brother de ser. Uma das críticas é de que se não postarmos incessantemente, nós realmente não existimos, até porque se não estivermos na rede (e mais se não formos interessantes), então somos excluídos sem piedade. Nossas vidas são tão importantes assim aos outros? “Compartilhar é se importar”, é o slogan divulgado. “Porque saber tudo é melhor”, complementa-se.

Busca-se ser a “mosca na parede”, e não ter mais o “choro solitário”. Ser cem porcento vigiado. Estar no controle dos próximos internautas. Uma das curiosidades observadas é que o ator Ellar Coltrane (que interpreta o desconectado Mercer), vivenciou a experiência no filme “Boyhood – Da Infância à Juventude”, que “serviu” ao diretor Richard Linklater por doze anos, tendo seu crescimento retratado.

Os pais, afastados da esquizofrenia da interconectividade, procuram na simplicidade dos momentos reais a felicidade. De preservar a privacidade. Ela, Mae, no início, trouxe os “vícios” da família e no trabalho chegou a ser excêntrica, “misteriosa”, “enigmática” e ter “baixa auto-estima” por não gerar sua popularidade na rede. Um cinismo armazenado.

A ideia é extremamente interessante e saudável: integrar a comunidade, a salvando dos perigos e conduzido suas vidas a não cometer erros e falhas. “Adeus lobistas! Bem-vindo democracia”. Mas o excesso dissimulado é prejudicial e causa pressão, incluindo a morte quando “tudo é divulgado” e quando o “desprezo pela privacidade” é potencializado. O que se deseja construir é um mundo distópico, uma pontuada ficção científica, em que a robótica é mais importante que a emoção, como a sugestão do “chip nos ossos das crianças”.

Nós vivemos em um mundo atual tão politicamente correto que a vigilância tornou-se doentia e viciante. Todos são julgadores, julgados, críticos, ativistas de alguma crença subjetiva. Todos possuem uma opinião formada sobre tudo, mesmo que seja uma repetição das ideias de outros. Ameaças de morte, comentários maldosos, crueldade mórbida, violência explícita e gratuita, tudo é rapidamente pensado antes de construir opiniões formadas, como uma obra que faz com que o artista vire um “matador de cervos”.

A reviravolta do “concretizar nosso potencial” comporta-se “melhor” quando “observada integralmente”. “Segredos são mentiras”, “mesmo no luto, a responsabilidade com os seguidores”, “mudar o mundo”, “permitir a experiência pessoal”, “compartilhar excessivamente tudo” (três minutos para descansar no banheiro, por exemplo), “povo sem governo”, “deixar de ser Amish”, “deixar de ser egoísta”, “ser transparente”, ainda que superficial e de felicidade forçada, tudo pode ser usado como arma contra aqueles que nos escravizam, fazendo com que recebam o mesmo “remédio” e se “ferrem” com as próprias medidas criadas. O segredo talvez seja a vingança invertida, pagando na mesma moeda.

“O Círculo” é um filme que atende as necessidades e quereres de seu público destinado. Uma grata surpresa que investe um pouco mais no conteúdo que totalmente no entretenimento. Último filme do ator Bill Paxton, que faleceu em fevereiro de 2017.

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