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A Parábola do Amadurecimento

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2016


O cineasta português Manoel de Oliveira imprimia em suas obras a crença de que a arte cinematográfica não necessitava de excessivos e ilusórios artifícios visuais, mas sim apenas do conceito essencial, que molda sua narrativa pelo talento livre da criação, pela despretensão de sua condução, pela maturidade de seu roteiro e pela simplicidade qualitativa da técnica.

Estes elementos transcendem a ideia enraizada de que só com um alto orçamento da indústria do cinema, filmes conseguem ser realizados, e consequentemente atingir o sucesso desejado. A palavra sucesso, na verdade, esquece-se da característica principal de seu público: a subjetividade, que nos dias atuais está adulterada a manipulações mais comerciais, devido a exibições em um maior número de salas.

Sim, competência é algo visível, explícito e naturalmente sensorial, como é o caso do filme autoral “Mulher do Pai”, da estreante diretora em um longa-metragem, Cristiane Oliveira, que também assume a função de roteirista. O filme foi o grande vencedor do Troféu Vertentes do Cinema de Melhor Filme e de Melhor Atriz para Maria Galant do Festival do Rio 2016, além de arrebatar os prêmios oficiais de Melhor Direção, de Melhor Atriz Coadjuvante (Verónica Perrotta) e de Melhor Fotografia para Heloisa Passos. E também participou do Festival de Berlim.

Aqui, o longa-metragem faz com que o espectador viaje ao universo abordado de um interior bucólico, limitado, tedioso (“nada para fazer”) e sem muitas perspectivas (já se esgotaram as opções dali), o ambientado na contemplação editada de tempo pausado com sua sinestesia da natureza integrada e seus desdobramentos climáticos (como a cerração da manhã), agregada nos afazeres domésticos diários, como o trabalho da família, a tecelagem. Nós sentimos o vento, os cheiros, os sentimentos, os silêncios e a descrição fantástica, espirituosa, sagaz e perspicaz de um filme (“Transformers”).

Nós somos submersos nas ações espontâneas, principalmente pela fotografia impecável e de bucolismo realista e pela câmera solta, mas magistralmente precisa, da personagem principal, a adolescente Nalu de dezesseis anos, que precisa cuidar do pai cego, após a morte da avó que os criou como irmãos. Quando Ruben (o ator Marat Descartes) percebe o amadurecimento da filha, surge uma desconcertante intimidade entre eles. Mas, com a chegada de Rosário, o ciúme ganhará espaço na vida de ambos.

“Mulher do Pai” constrói-se com calma e sem pressa alguma. Tudo com um controle absoluto da direção para nos estimular iminências, crescimentos simbólicos, mudanças metafóricas e sonhos despertados. Um acontecimento trágico-natural possibilita substituições de tarefas, sair da apatia da zona de conforto acostumada e mimada, gerando mais cuidados, mais pressões e mais sufocamento. Abre-se o leque das possibilidades, questionamentos e confrontos com as ideias estáticas. “Ficar ou ir para a universidade?”.

O Universo conspira para que medidas de urgência acordada sejam redefinidas. A normalidade do antes agora estava fora do tom. As esperadas punições, a escola, a resignação e submissão existencial dão lugar à fuga, à depressão co-dependente, à angústia da prova, à ajuda obrigatória da modificação personalizada e imediatista. “Se está lá, é porque quer”, diz-se. Uma professora com “saudades do Uruguai”, que ao mesmo tempo fornece o sonho, o afeto, o carinho, a felicidade do pai, também estimula o medo do mudar, exatamente a mesma coisa é sentida quando Nalu conhece um “lindo” de vinte e três anos, que diz que “você é muito linda para sua idade”.

“Mulher do Pai” é a parábola da descoberta transmutada de uma menina em se tornar uma adulta, descambando e desestruturando o mundo ao redor, em todos os próximos envolvidos, com suas ouvidas peripécias confessionais de beijos, toques e estímulos-fetiches sexuais, como a confusão sentimental de um pai que agora, concretamente, vê a filha como uma mulher. O ócio oprime. A timidez deixa de ser um empecilho. A experiência é impulsionada. E a liberdade de agir, uma meta de vida à curtíssimo prazo. Para ontem. “Guri não gosta de garota que fica em cima”, diz-se com defesa direta, segura e mostrando realmente o que sente, com sotaque do sul do Brasil (filmado no Rio Grande do Sul). Não há como não referenciarmos a estética, ambiência e temática de “Beleza Roubada”, de Bernardo Bertolucci.

Seus dramas são desenvolvidos em camadas aprofundadas. Ruben tenta proteger a filha, desempenhando o papel de pai ameaçado. As revistas são utilizadas para dicas sexuais. O Tarô para definir o caminho do que se quer. A agressividade com medo do abandono (e ou de perder importância) na vida já estabelecida. A confusão do não entendimento personifica a metáfora “escuridão mais cedo às cinco horas” e de “abanar demais as tranças por aí”. Há uma melancolia resignada. Há um respeitoso silêncio analítico de ouvir catarses terapêuticas. Há Há verdade nas perguntas, nas respostas e nos diálogos não clichês e ultra naturalistas. Há um incitamento incestuoso de aproveitar a chance de observar alguém tomando banho para “inspirar” e despertar o desejo. “Aqui só cavalo, lá, internet boa”, confronta-se. O Uruguai visto com emoção e como a Meca salvadora. “Fronteira é o limite que só o homem inventa”, diz-se. É bruto, é seco, é orgânico, é humano e é Dostoiévski.

“Mulher do Pai” dota seus personagens sem excessos dramáticos, sem sentimentalismos baratos e sem gatilhos comuns conectivos. O ritmo incisivo é desenvolvido com equilíbrio até seu conflito final, e para que tudo volte a ser o que era antes, é preciso retornar e tentar destruir o novo com “drama adolescente”, “criancice”, “funk”, “bagunça”. Recuperação? “Não faz diferença. Ele não vai sair daqui mesmo”, aceita-se com cumplicidade da realidade iminente. O filme prova mais uma vez a autoralidade, excelência, maestria e qualidade do cinema brasileiro por uma diretora estreante que expõe uma competência nata ao conduzir a história. Uma aula de cinema. Uma obra-prima. Recomendado.


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