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Corra Paterson, Corra

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017

Precisamos falar sobre “Good Time”, dos diretores novaiorquinos Ben Safdie e Joshua (Josh) Safdie (de “Go Get Some Rosemary”, “Amor, Drogas e Nova York”, “Monger”), que compete a Palma de ouro do Festival de Cannes 2017. Uma das questões é o porquê deste filme estar na seleção oficial, visto que é uma sucessão de gatilhos comuns fragilmente construídos, e que, por lógica, é o responsável por retirar o lugar de outro mais relevante. Coisas de Cannes!

Mesmo sua narrativa de manipulação visual, que tenta a estética “neon” sensorial de Nicolas Winding Refn, e de Jeremy Saulnier e seu “Green Room”, e que desencadeia um clichê atrás do outro, em momentos ingênuos-desengonçados pela urgência da reviravolta, não incomoda tanto quanto seu discurso que se apresenta radical e extremamente racista.

Cada plano, em nossa total subjetividade, enaltece uma hostil e escondida superioridade branca (ainda que seus personagens sejam “bad guys” criminosos, nossa tendência é torcer por suas vitórias); uma submissão negra (que não é sequer percebida pelo comportamento de “invisível”, “drogada” e completamente à margem da sociedade).

Atualmente, nós, seres-humanos, vivemos em uma época tão politicamente correta de direitos sociais, que o papel do longa-metragem é a desconstrução polêmica ao abordar uma ideia que discute o social e a normalidade da presença afro-descendente no cotidiano, como a funcionária de um banco, que segue a “política” (inclusive em ajudar à empresa em que trabalha) ao ser intimidada educadamente por dois “black-faces” que trocam bilhetes para roubar o dinheiro.

O plano de Constantine (Robert Pattinson) era assaltar um banco, mas nada sai como o planejado e seu irmão (limitado mentalmente), mais novo Nick (Ben Safdie, um dos diretores), acaba sendo preso por uma estratégia amadora. Decidido a resgatá-lo, Constantine embarca em uma perigosa corrida contra o relógio, e onde ele mesmo é o próximo alvo da polícia.

“Good Time” é um típico filme à moda dos filmes de ação, estilo Jason Statham, pois recorre a incansáveis truques narrativos a fim de desenvolver suas consequências, em uma pseudo independência da presença da câmera (que hoje já não mais representa uma novidade) e das tentativas de inovar no roteiro pela câmera próxima “personagem”. Tudo no limite à moda de “Corra Lola, Corra”, de Tom Tykwer.

Sim, a figura do negro não gera medo, mas sim a subserviência ao branco “abusado” e egoísta (simbolizado na música eletrônica), como um retorno à escravidão por cenas observadas: a senhora negra que se obriga a ajudar; a “disfuncional” menina negra (de dezesseis anos, já viciada em drogas, ex de um traficante e altamente sexual – quase uma “Christiane F.”) que precisa fazer todas as vontades sem questionar; o segurança negro que se torna o criminoso; o olhar com medo de um senhor na porta entreaberta; o preso branco que sofre com o spray de pimenta só por estar próximo a outros negros;

“Good Time” é amador, amoral, “pushing movie”, “explosivo” e tem muitos créditos em sua abertura. O roteiro praticamente não esquece um único clichê existente no universo: temos cachorros abraçados na cama; temos a ajuda a uma senhora hospitalizada; temos surtos de uma filha mimada brigando com a mãe para ajudar ao “namorado”; temos pintura de cabelo; temos a violência transmitida pela mídia; mas talvez a mais frágil seja mesmo a da tentativa de retirar o irmão do hospital.

Tudo é traduzido em uma ambiência forçada, exagerada, óbvia, palatável, fora do tom, de reviravoltas facilmente resolvidas e que precisa da cumplicidade inocente do espectador para imergir nas tensões da trama. É um filme “Adventureland (terra da aventura)“, que reverbera a máxima de “shit happens (merdas acontecem)“, que são intensificadas pelas escolhas unilateralmente infantis e subjetivas, e embasadas pelas memórias constituídas. Estes brancos “fuck-up” “não dão a mínima”, não se “importam” com o social, com o alheio, com o próximo.

“Good Time” é um estudo de caso por uma parábola que eleva a máxima de “diga-me com quem andas e eu te direi quem és” para finalizar com a mensagem da salvação de alguém parcialmente incapaz, conjugada com a música ‘The Pure And The Damned’ (o puro e o maldito), de Iggy Pop com colaboração de Oneohtrix Point Never.


Festival de Cannes 2017: “Good Time”


Dos irmãos diretores, americanos de Nova York, Ben Safdie e Joshua (Josh) Safdie (de “Go Get Some Rosemary”, “Amor, Drogas e Nova York”, “Monger”), 95 minutos. Com Robert Pattinson, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi. Roteiro de Josh Safdie. Distribuição Paris Filmes.

O plano de Constantine Nikas (Robert Pattinson) era assaltar um banco e descolar uma boa quantia em dinheiro, mas nada sai como o planejado e seu irmão mais novo acaba sendo preso. Decidido a resgatá-lo, Constantine embarca em uma perigosa corrida contra o relógio, e onde ele mesmo é o próximo alvo da polícia.

“Good Time” integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.


Os diretores Ben Safdie e Joshua Safdie começaram a fazer filmes ainda jovens, inspirados pelo pai, um entusiasta de cinema. Foram membros da Red Bucket Films, um coletivo criativo formado por vários amigos e colegas de escola, incluindo os cineastas Brett Jutkiewicz, Alex Kalman e Sam Lisenco. Eles colaboraram estreitamente uns com os outros em muitos projetos. Muitas vezes trabalhavam com atores não profissionais. O coletivo terminou em 2012 com a abertura do Mmuseumm.


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