Um Verborrágico Artista Formidável

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2017


Toda cinebiografia já vem, por lógica, dotada de uma grande responsabilidade. E quando esta homenagem é sobre o mítico, endeusado, político e polêmico diretor de cinema francês Jean-Luc Godard, então esta expectativa atinge níveis estratosféricos. Não podemos negar uma certa pretensão do diretor  Michel Hazanavicius de “O Artista”, que aumenta sua filmografia com o gênero metalinguagem. Falar do cinema com o cinema não é novidade. Dziva Vertov já fez em 1929 com “O Homem com uma câmera”.  Michel focou no específico pontual e acertou quando permitiu que o próprio filme ganhasse liberdade de traduzir a atmosfera nostálgica da cinefilia, conservando o tom de referência próxima e não de tentar encenar a cópia.

“O Formidável”, que concorre na mostra competitiva oficial do Festival de Cannes 2017 pela estatueta da Palma de Ouro, é inspirado no livro “Un An Après”, de Anne Wiazemsky (a atriz “musa”), e aborda a vida mais psicológica do maestro do cinema “Amadeus Mozart Godard”, um ser “impertinente, jovem, livre, charmoso, arrogante”, que “fala de seu amor” pela vida, pelas atrizes e pela sétima arte. A responsabilidade de “encarnar” o mestre suíço ficou à cargo do ator galã francês Louis Garrel, que empresta uma despretensiosa encenação, com um que de caricatura por causa da imitação do sotaque do homenageado.

O roteiro segue a essência da cinefilia com suas adjetivações e seus conceitos visuais vanguardistas afiando-se aos poucos, como a “comida chinesa”, a fim de se libertar das “continuidade” das interpretações mais teatralizadas. Tudo porque JLG acreditava que suas obras deveriam ser descontínuas. Aqui, o longa-metragem assume sua adoração, construindo um Godard com “educação”, que não tem credibilidade discursiva no meio acadêmico, que vai a Nova York, que é amoroso, gentil, quase submisso. E que ouve na rádio sobre submarinos.

“O Formidável” busca traduzir a nostalgia pela fotografia realista de cores vivas aos moldes de “Fahrenheit 451”, de François Truffaut, e pela sinceridade de um humor inocente, de sarcasmo quase infantil, mas dotado de referências literárias e ideias políticas unilaterais, como por exemplo, a filosofia de Mao Tsé-Tung, um político, teórico, líder comunista e revolucionário chinês, que liderou a Revolução Chinesa. “Nomes chineses são complicados”, diz-se.

O roteiro não tem a pretensão de servir como uma cinebiografia e sim focar no específico período de preparação do filme “A Chinesa”. Após terminar seu longo e famoso relacionamento com a sua musa Anna Karina e em meio à fase revolucionária de sua carreira, o célebre diretor e escritor Jean-Luc Godard (Louis Garrel) inicia a produção de seu mais novo filme: A Chinesa, longa que narra a história de um grupo de jovens que tentam incorporar princípios maoístas ao seu cotidiano político. Durante as filmagens, ele conhece Anne Wiazemsky (Stacy Martin) e, logo, os dois se apaixonam.

“O Formidável” humaniza convencionalmente e desmistifica Godard com motivos, permitindo uma vulnerabilidade espirituosa de seus medos, idiossincrasias, excentricidades, loucuras, defesas, silêncios, distanciamentos, prepotências e momentos altamente egocêntricos, como a coletiva de imprensa no Festival de Cannes, e as reações das pessoas que dormem e saem durante a exibição de seu filme. “Ninguém gosta de críticas”, assume-se. Esta experiência o levou a acreditar que o “cinema morreu”, que talvez as pessoas não estivessem preparadas à estética de seu cinema. “Amor é a ditadura dos sentimentos”, diz-se.

O filme perpassa memórias reconstituídas, editadas com elipses, como a revolução de Paris e ou “caído como um paraquedas” nos protestos, e depois corre como um “covarde”. Objetiva-se traduzir seus quereres. Fazer filmes diferentes da vida. Ser um interessado nas pessoas. Lutar contra a idiotização daqueles que não acompanham suas ideias. E a escolha metafórica de seus óculos (para “enxergar”), quebrados a cada mudança, que o deixa sem “ver”.

“O Formidável” é um novo olhar do diretor que homenageia. Uma revolução de descaso “auto-alienada” mais próxima, mais jazzista, menos utópica, mais possível, menos distante, mais verdadeira, menos inatingível e mais humana, como um movimento de um objetivo não totalitário. “Godard é um produto consumido, como a Coca-Cola e o Mickey Mouse”, alfineta-se. Novos adjetivados são cunhados em closes. Subversivo, pedante, carismático, odiado, e em capítulos (cada um personifica um tipo existencialista influenciado pelo momento e por referências mundanas sócio-comportamentais externas), que tenta ser amado, mas que lança um “Quem se importa?” em Cannes. É um “zumbi” diretor “ocupado pensando”, que usa a “câmera como uma arma” e que é debochado pelos outros. Entre livros e acontecimentos históricos, como o de 1968, o longa-metragem nos guia por uma vertente imaginada e diferente de JLG, ouvindo “Cuando Calienta el Sol”, com Talya Ferro e ou observando alguém comer de forma sexy uma asa de frango e ou conversas verborrágicas sobre o cinema de Dziga Vertov, de Marco Ferreri, ligações a Bernardo Bertollucci e ou o epílogo de “Vento do Leste” que fez com Glauber Rocha. Ninguém é poupado. Judeus, nazistas, japoneses, mídias, casamento, religião, todos os assuntos são abordados com picardias “briguentas”. “O milagre da vida é o começo”, filosofa-se em “estado permanente”.

É reacionário também quando deixa de sê-lo. Como a mise-en-scène de falar pelados sobre a nudez nos filmes. Godard ama demais. Com possessão. Sem limites. Política, cinema, poesia, realidade, amores físicos, livros, ideias, tudo tem a mesma hierarquia em sua vida. E o que mais queria era exterminar a mediocridade de seus filmes, criticando com o próprio veneno. Concluindo, “O Formidável” consegue o quer. Libertar a homenagem com a essência livre da adoração cinéfila a este ícone ainda vivo que “criou o cinema”, isto que foi dito por Agnes Vardá em “Visages, Villages”, antes de ser “desprezada” pelo suíço arrogante mais venerado do mundo.

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