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A Manhattan Sul-Coreana de Hong Sang-Soo

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017


Precisamos falar sobre o diretor Hong Sang-soo, o “Woody Allen sul-coreano”, que é carinhosamente chamado assim porque desenvolve suas histórias-subtramas pela presença do acaso situacional, e seu mais recente filme “The Day After”, que integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017. O cineasta é constantemente rechaçado, até mesmo por críticos que ainda pensam, devido suas repetições narrativas temáticas em suas obras. Dizem que Sang-soo sempre faz o mesmo filme. Não, não é verdade. Ele é um exímio contador de histórias, e que por lógica absoluta, nenhuma, por mais que se tente, consegue a façanha de ser a mesma (vide em seu “Certo Agora, Errado Antes”).

“The Day After” surpreende seu próprio público por modificar sua ambiência, diversificando radicalmente suas características já já tipicamente identificáveis com o característico humor mais inocente ao lidar com as questões humanas. Aqui, sua fotografia, em preto-e-branco, fornece uma atemporalidade nostálgica mais realista, pausando o elemento temporal. A sensação que nós, espectadores, temos, é a de estarmos assistindo a um “Blue Jasmine”, de seu “xará” americano.

O filme conta a história de Areum (Kim Min-Hee) que está pronta para o seu primeiro dia de trabalho em uma pequena editora. Ela precisa lidar com seu chefe Bongwan (Hae-hyo Kwon) e sua vida amorosa complicada. Após uma crise no casamento, no entanto, a esposa de Bongwan encontra um bilhete amoroso na mesa dele e acaba por envolver Areum nesta situação delicada.

O filme desta vez é apresentado inicialmente sem café, sem bebidas alcoólicas e sem interação alimentar, visto que apenas um das personagens come enquanto conversa, mais seca, silenciosa e hesitante, mitigando a incondicional esperança latente de ser. Sua narrativa de elipses de ações próximas encontra o patológico status quo da solidão.

Os encontros agora são por mensagens de celular. Suas personagens pensam mais ideias existenciais, para transmitir e descrever precisa e perfeitamente suas infelicidades, desgraças, rancores, injustiças, frustrações, culpas, ciúmes, vulnerabilidades, fragilidades e fraquezas. Sim, eles não bebem. Aceitam a vida de “cara limpa” com maturidade crescida e menos passional-infantil, reverberado pela presença visual dos planos sequência em ângulos que “re-voltam”.

“The Day After” é mais aprofundado, mais complexo, mais verdadeiro, mais musicalmente dramático, mais sensíveis, mais humano e mais com inferência a “Manhattan”, de Woody Allen. Cria-se a solenidade do “Boss”, do “melhor crítica da Coreia”. “A realidade não existe”, diz-se explicando em desconexões à moda da física-quântica.

“A ilusão pode ser real”, traz a metalinguagem ao falar do cinema. “Você é esperta porque pensa”. Este humor transmutado mantém um clima pesado, desesperançoso e solitário. As brigas pelo “homem” são mais realistas, barraqueiras e intensas, estapeiam-se com violência, urgência, loucura, surto, defesa.

São momentos que se conectam. Há a funcionária contratada, que no primeiro dia sofre a ira da mulher enlouquecida do chefe; há a outra “rica” que foi a Inglaterra. Mas é quando começam com as bebidas alcoólicas (que tem fotos de pessoas em suas garrafas) que a tensão desconfortável e a “má energia” encontram o descanso na leveza e no humor mais espirituoso de verdades ditas em aura de inocência. Com isso, é trazido a moralidade, culpa, questionamentos sobre inteligência e religião.

“The Day After”, de forma incisiva, constrói sua condução por prolongar os instantes. Como caminhar pelo meio da noite sem encontrar nenhum outro ser humano. Sim, depois da bebida, a ironia é desencadeando, ainda que agressiva, por ofensas, conjugado com um cenário gélido de neve e frio. É a metáfora dos sentimentos internos de cada um dos personagens, que se sabotam por “bagunçar” seus acasos, escolhas, medos e receios.

Aos poucos, entre choros catárticos (por uma pressão alimentada), o passado é resolvido, a calma encontrada na terapia da auto-análise. Do “garanhão” à simplicidade de ter uma filha (e memórias) que o salvou de cometer mais erros. São as ajudas da vida da aceitação da redenção do “eu sozinho”.

“The Day After” é a tradução poesia pela realidade, de vidas que se transformaram em suas próprias ficções e que procuram a plena liberdade de suas almas machucadas. Então, este, mesmo diferente dos outros filmes de Hong Sang-soo, é, sim, autêntico e apaixonante. Recomendado.


Festival de Cannes 2017: “Geu-hu (The Day After)”


Do diretor sul coreano Sang-soo Hong (de “Certo Agora, Errado Antes“, “Você e os Seus“, “A Montanha da Liberdade“, “Our Sunhi“, “A Visitante Francesa“, “HaHaHa“, “O Poder da Província de Kangwon“), 92 minutos. Com Kim Min-Hee, Hae-hyo Kwon, Kim Saeybuk.

O filme, com fotografia em preto-e-branco, conta a história de Areum (Kim Min-Hee) que está pronta para o seu primeiro dia de trabalho em uma pequena editora. Ela precisa lidar com seu chefe Bongwan (Hae-hyo Kwon) e sua vida amorosa complicada. Após uma crise no casamento, no entanto, a esposa de Bongwan encontra um bilhete amoroso na mesa dele e acaba por envolver Areum nesta situação delicada.

“Geu-hu (The Day After)” integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.


O diretor Hong Sang-soo, com seus 55 anos, nasceu em Seuol, 25 de Outubro de 1961. Seus filmes buscam a simplicidade da repetição clássica cinematográfica para contar e aprofundar temas cotidianos. É um dos diretores mais conhecidos no mundo do cinema internacional, imprimindo uma característica estética única e de fácil identificação. Considerado o Woody Allen da Coréia do Sul.

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