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Até morrer é um ato político-ativista

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017

“Silêncio é igual a morte”. A máxima de que se não lutarmos por nossas ideias, o mundo nunca saberá  o que pensamos, nossas diferenças e qual a causa que pertencemos. O filme “120”, do diretor francês de origem marroquina, Robin Campillo (de “Eastern Boys”, “Eles Voltaram”), que concorre a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017, alem de ser um filme ativista, é acima de tudo, uma recuperação do passado, para que não seja esquecido, e que possa trazer aos mais jovens de hoje a temática revisitada dos primórdios da Aids, período que os remédios causavam sofríveis efeitos colaterais e a morte era iminente.

O longa-metragem tem sua estrutura narrativa conduzida por reuniões do movimento, lugar que embasam suas ideias, votando democraticamente na mais efetiva com o propósito de colocar nos protestos que realizam contra o sistema que visa mais o dinheiro que salvar as vítimas HIV positivo. Este grupo ACT Up, em Paris, “exclusivamente gay”, os iguais, uma família que se identifica pela mesma luta a favor de seus direitos de permanecerem vivos e ajudar a outras pessoas não serem infectadas pelo desconhecimento e ou “ignorância” (que gera comentários como: “Não sou gay, nunca vou pegar Aids”).

Seus status atuais permitem viver um dia de cada vez contra a epidemia, por isso suas discussões são urgentes e as perspectivas precisam convergir, revisando os erros consequências de seus protestos, que incluem jogar sangue falso em laboratórios. Quando uma reação impaciente, passional, “infantil” causa um descontrole e uma repercussão ruim nos jornais, então, é hora de se reunir novamente. O trabalho do movimento nunca acaba, porque um minuto a menos pode finalizar existências.

França, início dos anos 90. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços e atuação para que a sociedade reconheça a importância da luta e do reconhecimento em relação a Aids, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) vai ficar intrigado em como Sean (Nahuel Pérez Biscayart) consome suas últimas forças nas ações.

O que precisamos entender é que sem essa luta não chegaríamos hoje a uma ordem controlada indetectável dos que convivem com seus vírus. O brainstorming estimula e possibilita inúmeras ideias para cartazes e slogans, até mesmo achar que o choque com sexo explícito chega mais rápido às massas. Eles são voluntários não caricatos de um movimento “não violento” e a radicalidade reverbera a quebra dos tabus escondidos por vergonha e ou por preconceito.

Eles com sua natural verdade essência “incomoda” os outros, que trocam de vagão no Metrô. “120” intercala teoria com prática, e seus protagonistas envolvidos “non stop” seguem vivendo suas emoções, estímulos ao prazer sexual e os flertes com homens bonitos. “A Aids mudou minha vida. Vivo mais intensamente com mais cores, mais barulho”, diz-se e depois riem. Se fosse atualmente, usariam a hashtag “só que não”.

Mas no fundo eles realmente acreditam nisso, talvez pelo achismo mórbido de que se já contraíram o vírus, então não há mais medo. Mas suas dúvidas passam rápido para a diversão na boate, comemorando o sucesso da ação e mais um dia conseguido. “120” imprime estética visual ao mostrar fluídos em câmeras microscópicas em sensoriais percepções.

As drogas DDI e AZT não funcionam. Causam “estragos” como vómitos e diarreias e não mais controlam as “células virais”. Uma solução, as mais alternativas e da natureza. O filme não os estigma, e sim documenta, com sua câmera integrada mosca – uma tendência da cinematografia mais independente que nos transforma em personagens cúmplices, seus medos, suas feridas, suas marcas, suas histórias, suas contaminações (“confiança de dois idiotas”), seus desejos, suas diversões, seus resultados, seus conflitos de ideias, suas participações na parada gay.

“A realidade é uma questão. Conhecimento é a arma”, diz-se. “Quando você infecta alguém, você é responsável cem por cento. O contrário também”. O movimento, com seus protocolos, suas comunicações claras, reuniões lobistas-políticas-pacificadoras, argumenta com conservadores “negligentes” que “justificam o injustificável”. “Violência é inaceitável”, acredita-se. “120” tem inferência a “Clube de Compras Dallas”, de Jean-Marc Vallée; “Filadelfia”, de Jonathan Demme, “Milk”, de Gus Van Sant, e os seriados “Queer as Folk” e “The Normal Heart”.

Aqui é sobre o amor além do medo, na saúde e na doença. O final tende mais ao sentimental, inevitável, manipulando nossa emoção à dramaticidade, recorrendo a inocentes gatilhos comuns. Perde ritmo, porque se estende querendo retratar todos os problemas e questões relacionadas. No final, um olha, para esta família que escolheu ter, diretamente ao espectador, Nós somos eles. Somos a família. Tudo é um ato político até jogar as cinzas. “Conhecer é viver”. Recomendado.


Festival de Cannes 2017: “120 Battements Par Minute”


Do diretor, francês de origem marroquina, Robin Campillo (de “Eastern Boys“, “Eles Voltaram”), 140 minutos. Com Nahuel Perez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel.

França, início dos anos 90. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços e atuação para que a sociedade reconheça a importância da luta e do reconhecimento em relação a Aids, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) vai ficar intrigado em como Sean (Nahuel Pérez Biscayart) consome suas últimas forças nas ações.

“120 Batimentos Por Minuto – 120 Battements Par Minute” integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.


o diretor Robin Campillo, de 54 anos, nasceu em 16 de agosto de 1962. Escreveu o roteiro do aclamado filme “L’Emploi du temps”, de Laurent Cantet.


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