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A Esperança Suína

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017

Uma das principais características que já podemos observar sobre a plataforma Netflix, de exibições de filmes, exclusivamente online, é a de estimular nosso questionamento sobre diversidade do comportamento humano e luta ativista dos ideais sociais, para que, assim, as barreiras dos tabus sejam transpostas, e que a liberdade da cada personalidade possa ser plural, ampla, sem preconceitos e conviver pacificamente no ambiente em que vivemos, que cada vez muda e, acima de tudo, é transmutado por infinitas possibilidades descobertas.

“Netflix me deu total liberdade em escolher o elenco, maneira de filmar e editar. Eles não me pressionaram. Não houve restrições de nenhuma parte. Isto é uma experiência maravilhosa”, disse o diretor do diretor Bong Jooh-ho (de “O Expresso do Amanhã”) na coletiva de imprensa de seu mais novo filme “Okja”, que integra a mostra competitiva oficial do Festival de Cannes 2017, e que elevou discussões os meios de exibição da arte cinematográfica, muito do que foi dito foi em resposta à polêmica levantada por Pedro Almodóvar, presidente do júri desta edição dos setenta anos. “Eu pessoalmente não considero dar a Palma de Ouro a um filme que não será visto na tela grande do cinema”.

A escolha na competição gerou polêmica pelo filme que será exibido somente online e em streaming e não nos cinemas franceses. Tanto que quando apareceu a logo da Netflix na primeira sessão de imprensa, complicada, houve mais vaias que poucos aplausos e alguns gritos. A exibição chegou a parar. Logo se pensou se seria boicote? Protesto impedindo todos de assistir? Ou a culpa do Raul (que em toda sessão é mencionado aos berros)? Nada disso, a culpa foi do projecionista que projetou o filme fora de quadro.

“Qualquer filme que desejar competir a Palma de Ouro deverá ser primeiro distribuído nos cinemas franceses. Esta nova medida será aplicada a partir da edição de 2018 do Festival de Cannes”, escreveu a organização em um comunicado. O CEO da Netflix, Reed Hastings, não gostou nada da mudança, que afeta diretamente o serviço de streaming, e escreveu no Facebook: “O establishment está se juntando contra nós. Assista Okja na Netflix em 28 de junho. Um ótimo filme que as salas de cinema não querem ver entrando na competição de Cannes”.

Sim, é um filme que merece ser apreciado no cinema e que possui todo o mérito para vencer o prêmio máximo aqui. “Okja” conduz, em sua narrativa, um ritmo dinâmico que envolve o público conjugando aprofundada naturalidade sentimental com questões político-sociais, cuja atmosfera infere à estética de surrealismo possível do cineasta Wes Anderson (e seu “O Grande Hotel Budapeste”) com Luc Besson (em “Lucy”). Opta-se pelo viés científico para embasar com veracidade possibilidades existentes, mutantes e geneticamente modificadas.

Por 10 anos idílicos, a jovem Mija (An Seo Hyun) tem sido a cuidadora e companhia constante de Okja, um animal gigantesco e amiga ainda maior – em seu lar, nas montanhas sul-coreanas. Mas tudo isso muda quando a empresa familiar e conglomerado multinacional Mirando Corporation leva Okja embora e a transporta para Nova York, a CEO obcecada por sua imagem, Lucy Mirando (Tilda Swinton), e seus “psicopatas” têm grandes planos para a Mija.

Sem um plano concreto, mas com muita determinação, Mija parte para uma missão de resgate, mas sua já arriscada jornada logo fica mais complicada,  quando seu caminho cruza com diferentes grupos de capitalistas, demonstradores e consumidores, cada um lutando para controlar o destino de Okja a seu bem próprio e a seu egoísta ativismo. Enquanto tudo o que Mija deseja é levar sua amiga de volta para casa.

Sua trama é apresentada em 2007 em Nova York por uma diretora, à moda de um Steve Jobs bem mais excêntrico, que explica o novo programa da empresa, criando o Super Porco, “milagre” transmutado com inteligência e de “gosto espetacular”, e “sintetizando ciência e natureza”. A “criatura sensível” será enviada para lugares no mundo para ser criada e concorrer, dez anos depois ao prêmio Porco de Ouro. “Okja” questiona ética versus humanidade, simplicidade versus futilidade, apego amigo versus o poder do dinheiro. Ganância versus crueldade. “Okja” é presa (da janela só vê túmulos e morte), é violentada, é torturada, revolta-se, mas ser boa ninguém tira.

Dez anos depois, nós conhecemos a “criatura” vivendo nas montanhas da Coréia e “só correndo por aí pela natureza”, em um orgânico, naturalista e fisiológico experimento visual, com olhos expressivos humanos, livre, no cotidiano de sua melhor amiga, uma criança nascida na atualidade (que come o arroz de colher, enquanto a tradição de seu avó é com Hashi). Ela tecnológica, fica vislumbrada com as últimas novidades como o Mac Book de “retina display”. Quando um médico “louco”, famoso, midiático, um “animal” (referência à “Animais Noturnos”?), ainda mais excêntrico, e extremamente caricato (o ator Jake Gyllenhaal) é “escalado”, a real aventura começa. Da tranquilidade à agitação. Das dificuldades de se colocar a “criatura” no Metrô. Seu propósito é “anunciado” pelo universo.

Aqui representa a mais essencial das premissas: a ligação entre humanos (robotizados) e animais e termina por criar uma visão distinta e complexa do mundo que fala com o animal que vive em todos nós. É tudo sobre a sociedade do espetáculo dos “jogos vorazes”, com suas selfies, com suas passionais e “complexas convicções”, que não descarta nem mesmo os ativistas que querem libertar os animais, protestando e agindo radicalmente (saindo da teoria “Facebook”) contra o sistema. Tudo precisa ser apoteótico.

“Okja”, é acima de tudo um filme pop, e para que se equilibre na modernidade, é necessário que se submeta a algumas regras: personagens que vivem no limite e obviedades nas reviravoltas. Mas é o no final, que têm uma longa cena após os créditos, que a fábula passa a mensagem. “O amor protege” quando menos se espera. Há esperança. “Tradução é sagrado”, finaliza-se com a música tema “Harvest For The World”, de The Isley Brothers. “Okja” é excelente, “Up” e estende “novas aventuras”, até porque nossa luta nunca acaba. Recomendado.


Festival de Cannes 2017: “Okja”


Do diretor sul coreano Bong Joon-ho (de “Expresso do Amanhã“, “Mother – A Busca Pela Verdade“, “Tokyo!“, “O Hospedeiro”), 118 minutos. Com Seo-hyun Ahn, Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Giancarlo Esposito. O filme será exibido online com estreia na Netflix dia 28 de junho de 2017.

Por 10 anos idílicos, a jovem Mija (An Seo Hyun) tem sido a cuidadora e companhia constante de Okja – um animal gigantesco e amiga ainda maior – em seu lar, nas montanhas sul-coreanas. Mas tudo isso muda quando a empresa familiar e conglomerado multinacional Mirando Corporation leva Okja embora e a transporta para Nova York, onde a CEO obcecada por sua imagem, Lucy Mirando (Tilda Swinton), tem grandes planos para a querida amiga de Mija.

Sem um plano concreto, mas com muita determinação, Mija parte para uma missão de resgate, mas a sua já arriscada jornada logo fica mais complicada,  quando seu caminho cruza com diferentes grupos de capitalistas, demonstradores e consumidores, cada um lutando para controlar o destino de Okja… Enquanto tudo o que Mija deseja é levar sua amiga de volta para casa.

Misturando habilmente gêneros, humor, perspicácia e drama, o filme começa com a mais gentil das premissas – a ligação entre humanos e animais – e termina por criar uma visão distinta e complexa do mundo que fala com o animal que vive em todos nós.

“Okja” integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.


A escolha na competição gerou polêmica pelo filme que será exibido somente online e em streaming e não nos cinemas franceses. “Qualquer filme que desejar competir a Palma de Ouro deverá ser primeiro distribuído nos cinemas franceses. Esta nova medida será aplicada a partir da edição de 2018 do Festival de Cannes”, escreveu a organização em um comunicado. O CEO da Netflix, Reed Hastings, não gostou nada da mudança, que afeta diretamente o serviço de streaming, e escreveu no Facebook: “O establishment está se juntando contra nós. Assista Okja na Netflix em 28 de junho. Um ótimo filme que as salas de cinema não querem ver entrando na competição de Cannes”.


O diretor Joon-Ho Bong, de 47 anos, nasceu em Daegu, 14 de setembro de 1969, e a decisão de se tornar um cineasta aconteceu enquanto estava no ensino médio, talvez influenciado pela sua família artística (seu pai foi um designer e seu avô um autor famoso). Graduou-se no final da década de 80 em sociologia pela Yonsei University, onde era um membro do clube do filme. Na época ele gostava de Edward Yang, Hou Hsiao-Hsien e Shohei Imamura. No começo da década de 90 ele completou um programa de dois anos na Korean Academy of Film Arts. Enquanto estudava fez vários curtas-metragens 16mm sendo que dois deles, “Memory in the Frame” e “Incoherence”, foram selecionados para serem exibidos nos festivais internacionais de cinema de Vancouver e Hong Kong. Em 1994 dirigiu um curta-metragem chamado “White People”. Seu primeiro filme, Barking Dogs Never Bite, parte comédia e parte uma cruel sátira social, teve um lançamento pequeno e limitado. Seu próximo filme, Memórias de Um Assassino, baseado em uma história real dos primeiros assassinatos em série da Coréia do Sul, fez tanto sucesso comercial quanto crítico. Mas foi em 2006 que Bong alcançou um grande reconhecimento pelo seu trabalho com o filme Gwoemul — O Hospedeiro, um sucesso não só no país de origem como também internacionalmente, recebendo elogios da crítica após sua estréia no Festival de Cannes. Em 2008, junto com Michel Gondry e Leos Carax, fez o filme Tokyo!, onde dirigiu o segmento Shaking Tokyo. Em 2009 fez o filme Mother – A Busca pela Verdade, sobre a história de uma mãe coruja que luta para salvar seu filho deficiente de uma acusação de assassinato. O filme estreou na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes daquele ano. Em 2011, Bong foi presidente do júri da sessão Caméra d’Or do Festival de Cannes de 2011.


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