O amor em terapia de videntes cartas à procura do sol

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2017


“Deixe a Luz do Sol Entrar”, exibido na mostra La Quinzaine des Réalisateurs do Festival de Cannes 2017, é um filme sobre uma mulher que busca o amor verdadeiro, caindo nas características armadilhas da busca, encontrando o objetivo humor espirituoso (quase inocente acriançado de dizer “sem papas na língua” e sem o noção de ofensa ao outro), e tangenciando exigências (alto padrões de defensivas regras) ao próprio querer.

O filme, dirigido pela francesa Claire Denis (de “Bastardos”, “35 Doses de Rum”, “Minha Terra, África”, “Beau Travail” – e que foi a primeira assistente de direção em “Asas do Desejo”, de Win Wenders), busca descomplicar as camadas psico-existencialistas do amor. Há quem diga que este sentimento, mais desejado do mundo, é contraditório, até mesmo àquele que o procura, visto que na verdade nós almejamos a sensação do ter (o status platônico) e não o ter realmente (a concretização máxima da posse), imprimindo projeções inalcançáveis a fim de retardar o encontro e ou boicotar o resultado.

Entender o amor é muito fácil, se observado por fora da tensão vivenciada nos relacionamentos. Há os que se acomodam com a pessoa amada (como uma resignação aceita), há os que sempre precisam de novas experiências (casuais convictos) e há os que querem estar nas duas posições anteriores (no casamento e com amantes). Porém é muito complicado o definir, por causa de sua infinitude de possibilidades divergentes.

Isso é exatamente o que acontece com nossa personagem principal. Isabelle (a atriz Juliette Binoche – que está irretocável e impulsivamente entregue a seu papel, como sempre), uma artista plástica parisiense, e mãe divorciada, que está à procura do amor de sua vida na romântica capital da França e passa pelas realistas desventuras, entre encontros, casos, transas, brigas e desilusões. Resumir o amar e ser amada é limitar as camadas idiossincráticas de “listas de qualidades” de cada um.

Isabelle ora ama, ora enjoa, ora chora, ora investe, ora diz não e ora cansa na hora do sexo “programado” (quando seu parceira demora e diz um impaciente “goza logo”). “Deixe a Luz do Sol Entrar” é orgânico e naturalista ao tratar a nudez com uma coloquial espontaneidade, com a luz do sol e com uma foto de Pedro Almodóvar na porta (uma homenagem explícita da diretora ao cineasta espanhol).

A narrativa conduz-se, propositalmente, pelo tom teatral, com o intuito de suavizar a complexidade terapêutica e traduzir a essência do sentir, por seus personagens casuais, tipos que entram, participam como figurantes, saem e em determinados momentos voltam a aparecer. E por seus detalhes excêntricos e únicos (o sapato azul de camurça, o “azeite sem glúten”, os mesmos drinques preparados no bar, discursos de efeito: “a ditadura do proletariado”).

É a repetição da vida de acasos que passeiam. É a padronizada tautologia das reações encenadas. É a tentativa e erro até que o equilíbrio aconteça. Com todos seus pedidos (requisitos) atendidos até que a figura do amor acalente o coração e o “prazer da vida”. Eles são cruéis (com seus jogos de sedução), implicantes, de cúmplices agressividades (“Você é charmosa, mas minha mulher é extraordinária”) e urgências estereotipadas.

“Deixe a Luz do Sol Entrar”, uma adaptação do livro “A Lover’s Discourse: Fragments”, de Roland Barthes, pulula análises e percepções sobre a existência (e seus “backstreet lovers”). É a possibilidade de mudança: “cansaço da própria vida”, o apartamento que “aprisiona e protege”. É sobre a filosofia da vida. Sobre a perspicácia acordada de reparar a “estúpida” “contemplação da natureza em grupo”. É sobre o conhecimento e sobre o desconhecido. É sentir medo e se embebedar para esquecer.

É sobre a ambiguidade do amor: desencontrada e desconfortável de dizer realmente o que pensam e o que querem, os fazendo hesitar seus desejos. Eles protegem-se, mas dão asas aos impulsos (diretos como adolescentes em “cio”). E para não sofrerem, sabotam a si mesmos. “Às vezes é melhor não falar”, diz um ao outro, que “pensa uma coisa e diz outra”.

É sobre aceitar até o que não se quer, postergando o não ao “amante casado”, que aparece com flores como um arrependido (e oportunista) pedido de desculpas. O filme mitiga e desmitifica o pudor e sua opção do “sexo por tédio e ou por amizade”. As constantes derrapadas amorosas potencializam a depressão e o medo da solidão. Música ou silêncio? “Um dia extraordinário, no outro o oposto”, lamenta-se entre exposições, encontros intelectualizados e o “casual que protege mais”.

“Deixe a Luz do Sol Entrar”, que venceu o SACD Prize no Festival de Cannes 2017, é um estudo de caso sobre relacionamentos e os abusos do amor. “Fantasia é o elemento da verdade”, diz-se com a explosão catártica da música “At Last”, de Etta James, que diz “Finalmente” depois de tanto “bater em ponto de faca”. “Fazer amor é melhor quando está no amor”, ensina em uma sessão de terapia não convencional, orquestrada por Denis, um “tarólogo” vidente “guru” de “mente sintética” (interpretado pelo ator Gérard Depardieu).

Eles conversam abertamente, no prólogo, sobre os amores dela e seus dramas com todos e suas obsessões afetivas e suas dependências, em uma anamnese de incisivo e ácido humor construtiva, mas sem ser fofo e condescendente. A mensagem final é a de que acalmar a urgência latente e imediatista da felicidade, esperando com fé até que o próximo apareça. E assim até que não haja mais nenhum próximo. “Deixe a Luz do Sol Entrar” é uma aula sobre a arte do amar e de ser amada.

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