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A Surdez de Todd Haynes

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017


“Sem Fôlego (Wonderstruck)”, de Todd Haynes (de “Carol”, “Não Estou Lá”, “Longe do Paraíso”), que concorre a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017, sendo o primeiro exibido no Grande Teatro Lumière, o Palais, possui uma característica narrativa contraditória e briguenta aos cinéfilos de plantão: a manipulação sentimental que é impressa e transmitida, em nível máximo, pela música (de Carter Burwell, compositora de “Adaptação”, “O Grande Lebowski”, “Quero ser John Malkovith”, “Antes do Anoitecer”, “Onde os Fracos Não Têm Vez”), que se comporta como personagem do início ao fim do filme, pontuando épocas, sensações, urgências, perigos, dramas, reviravoltas e catarses para que o espectador seja envolvido na simplicidade temática, que se aprofunda aos poucos, em peças de um quebra-cabeças, da trama, em uma cinematografia que enaltece o classicismo e que potencializa a maestria de se contar a história.

Em seu filme anterior, ”Carol”, que também concorreu à categoria oficial em 2015, a força está em suas atrizes Cate Blanchett (que “rouba” a cena, e se entrega sem pudores e limites interpretativos) e Rooney Mara (que mesmo “apagada”, cumpre objetivamente seu papel). Já neste, em questão aqui, seu caminho é conduzido por vertentes construtivistas, homenageando o cinema mudo, pela interseção temporal e pela patologia clínica, que por sua vez desperta uma metáfora crítica aos limites do sonho.

“Wonderstruck” começa pela fragmentação de instantes não lineares e desconexos. São sonhos, pesadelos, memórias e lembranças deturpadas pela subjetividade que se intercalam em duas épocas: 1977 em Minnessota e 1927 em New Jersey. No primeiro período, após um momento surreal de realismo fantástico (incluindo a música “Space Oddity”, de David Bowie), o menino Ben foge para Nova York, sonhando finalmente conhecer seu pai “astronauta”. No outro, a pequena Rose também foge de casa, de seu pai autoritário, e também para Nova York, desejando conhecer Lillian Mayhew (sua mãe), estrela de cinema mudo que idolatra (por se identificar na tela). Em determinado momento, as vidas destas duas crianças surdas conectam de maneira inesperada.

Entre detalhes, o filme faz uma homenagem ao cinema mudo e levanta a questão do preconceito com as atrizes surdas. Neste momento, a fotografia pinta-se de preto-e-branco e sua música sentimental reverbera o melodrama teatralizado das obras da época pré-som, com sua aura de suspense, sustos, mistérios e reações expressivas e ou urgentes e ou imediatas. Cada uma dessas crianças busca respostas, galgando a cidade grande para sair da prisão de suas almas.

Porém, é fato, comprovado, de que um diretor não consegue acertar sempre. Todd tenta manter o equilíbrio que caminha na linha tênue entre emoção natural e clichê desenvolvido. Aqui, infelizmente, “Wonderstruck” tende ser o segundo, talvez por exceder em suas inserções narrativas. Os gatilhos comuns são recorrentemente martelados: a tempestade, um livro encontrado, o choque do telefone, o roubo por um branco, a ajuda de um desconhecido negro; cortar o cabelo como uma forma de rebeldia e recomeço, a descoberta do Museu de História Natural, os “segredos”, o “Gabinete das Curiosidades”, a ajuda de um homem altruísta. Juntamos às peças, cada uma a uma época.

Quando entendemos que é a música que define nosso elemento sensorial-sinestésico (completando o som pela percepção internalizada de suas personagens limitadas), então embarcamos nas histórias objetivadas. A dela, mais clássica, mais teatral e mais caricata nas reações (respeitando a característica intrínseca do cinema mudo). A dele, mais era Disco, mais black-power, mais “hip hop blaxploitation” (que mixa “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss – tema eternizado por “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick). E no auge, mais intensa, mais catártica, excessivamente sentimental.

É impossível não reparar nos clichês nesta fábula que atravessa tempos, mesmos espaços e tipos comportamentais, mas é um deleite maestria à parte a construção da Direção de Arte. Impecável. “Onde cada um pertence?”, pergunta-se. A narrativa de tom anti-naturalista, ainda que busque a estética visual; ainda que inove com uma explicação final em animação mais artesanal; ainda que tenha trilha-sonora de Nick Cave; e ainda que tenha seus créditos em linguagem de sinais, “Wonderstruck” não consegue segurar o espectador pela cumplicidade. Não se sustenta, até que desmorona de vez em um melodrama inocente-ingênuo-amador em sua essência. A fantasia versus a realidade. A sensibilidade aguçada. E a estrela cadente, que se transmuta em um só sonho. Com Oakes Fegley, Millicent Simmonds, Julianne Moore, Michelle Williams.


Festival de Cannes 2017: “Wonderstruck”


Do diretor americano Todd Haynes (de “Carol“, “Não Estou Lá”, “Longe do Paraíso”, “Velvet Goldmine”), 117 minutos. Com Oakes Fegley, Millicent Simmonds, Julianne Moore, Michelle Williams.

Em 1927 a pequena Rose foge de casa rumo a Nova York desejando conhecer Lillian Mayhew, estrela de cinema que idolatra. Em 1977 o menino Ben também escapa para NY, sonhando finalmente conhecer seu pai. Em determinado momento as vidas das duas crianças surdas se cruzam de maneira inesperada. Com música de Carter Burwell (de “Adaptação”, “O Grande Lebowski”, “Quero ser John Malkovith”, “Antes do Anoitecer”, “Onde os Fracos Não Têm Vez”).

“Sem Fôlego – Wonderstruck” integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.


O diretor Todd Haynes, com 56 anos, nasceu em Encino, 2 de janeiro de 1961. É considerado pioneiro do “New Queer Cinema”, movimento cinematográfico que surgiu no início dos anos 90. Foi indicado ao Oscar pelo curta-metragem “Superstar: A História de Karen Carpenter”, Todd utilizou bonecas Barbie como atrizes para encenar o falecimento por anorexia da cantora, e que acabou se tornando um clássico cult underground. O primeiro filme,”Veneno”, recebeu o prêmio do Grande Júri no Festival de Sundance Festival. O seguinte foi “Dottie Gets Spanked”, um curta-metragem que a revista The Village Voice considerou como sendo “Uma Visão Pop da Arte do subúrbio dos anos 50”.


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