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O Planeta Vazio de Um Cristo Voador

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017


Depois da vitória húngara dos filmes inventivos em sua estética narrativa, “O Filho de Saul”, de László Nemes, no Festival de Cannes do ano passado, e de “On Body and Soul”, de Ildikó Enyedi no Festival de Berlim 2017, o diretor Kornél Mundruczó (que por “White Dog”, teve boa recepção quando foi exibido na Mostra Un Certain Regard em 2014 (ganhando o prêmio de Melhor Filme), está de volta à competição desta edição que completa setenta anos, só que agora na categoria oficial pela Palma de Ouro, com o filme “Jupiter’s Moon – A Lua de Júpiter”, que nos é “brindado”, literalmente, por explosivos.

Sim, o longa-metragem é definitivamente a grande bomba, até agora, não por causa de sua literalidade narrativa que aborda uma metáfora sobre refugiados que buscam a salvação e a paz em uma Europa contemporânea, mas sim por pulular recorrentes gatilhos comuns em uma obra frágil, de direção ingênua e inocente. Podemos relembrar filmes das edições anteriores do Festival de Cannes, como “The Sea of Trees”, de Gus van Sant e “The Last Face”, de Sean Penn.

Aryan, um jovem, é baleado enquanto tentava ilegalmente cruzar a fronteira. Depois do choque provocado pelo acidente, acaba descobrindo que agora tem o poder de levitar. Agora preso em um campo refugiados na Síria (igual a um de concentração), ele terá que contar com a ajuda do Dr. Stern, que tem interesses muito específicos em sua habilidade sobrenatural.

O longa-metragem conduz sua narrativa pela fantasia, pelo realismo fantástico e pelo inexplicável, a fim de reverberar em tela uma sensação de perigo iminente do próprio ser humano, que vive socialmente entre próximos que se comportam individualmente como distantes, afastando a solidariedade e nadando a favor da corrente.

“Jupiter’s Moon – A Lua de Júpiter” já fornece seu tom político-crítico-ficcional, de um estudo de caso, desde o início, ao explicitar que a “Moon – Lua” é a própria Europa, conjugada com um câmera próxima (colada em um caminhão) que nos insere no contexto em um Thriller de tensão. Nós, espectadores, nos tornamos refugiados, ilegais e imigrantes indesejados de um potente continente, e juntos estamos na travessia de “libertação” a Meca.

Simplificando, o filme é sobre um extraterrestre (designação para estrangeiros), que tem o super poder de voar (alterando a rotação do lugar) e que é comparado a Jesus Cristo por ter um pai “carpinteiro”. Um médico, que também busca sobreviver sendo mercenário, sarcástico-agressivo, corrupto, machista e inescrupuloso, “encontra” no garoto “voador” a chance de enriquecer, assim como os “vendedores de santinhos na era coloquial terráquea do Filho de Deus”. Confesso que só me vinha à cabeça a música “I Believe I Can Fly”, de R. Kelly.

“Jupiter’s Moon – A Lua de Júpiter”, que na exibição percebemos a falta de sincronismo das falas dubladas, é uma sucessão de clichês amadores, como o drama da procura do pai, ter tido a sorte da sobrevivência, em câmeras microscópicas (de detalhar as gotas de sangue que saem de seu corpo). Já o médico, entre alfinetadas a Testemunhas de Jeová (os anjos), em que “recebe” o primeiro sinal da Bíblia; provocações a mulheres; celular esquecido como prova, também não sai imune do desastre narrativo. “Deus é dinheiro”. Tudo apresenta-se por truques apelativos, necessitando e muito de nossa cumplicidade para construir alguma veracidade na história, que infere a “Destino Especial”, de Jeff Nichols. São as “consequências da guerra”.

Entre atentado, câmeras subjetivas, a tatuagem de violino pela metade, outros doentes curados (milagres do Salvador), lugar de nudistas (perdido no meio do tudo que o diretor quer atingir), tudo nos leva a uma tentativa de choque com ações violentas-viscerais “no limite” e interpretações forçadas, desengonçadas, manipuladas e excessivamente emotivas. São informações demais. Seu diretor esqueceu da máxima de “menos é mais” de seu “White Dog”.

Neste processo, estágios sentimentais são respeitados. Da falta de culpa à redenção, passando pela vingança social, pela ira, por festas-orgias animadas no hospital (com a música “Ready For The Floor”, de Hot Chip), por uma estrela cadente esperançosa, por conversas sobre ser gay, por preconceitos de um Skinhead a “ciganos”, por biscoitos da sorte e por propósitos desordenados. “Tinha tudo: cama, mesa e Playstation”, diz. “No mundo, todo mundo está com medo. Vive-se na horizontal e se esquece de olhar para cima”, suas frases de efeito, com direito a uma aparição do próprio diretor como funcionário da recepção de um hotel.

“Jupiter’s Moon – A Lua de Júpiter” é ladeira abaixo. Tiros, perseguições, tomadas aéreas, frase como “Não fuja de mim”, o choro contido, música que “rasga” a cena e força a emoção de quem assiste e uma sensação de “Tigre e o Dragão” com “Matrix”. Mas o efeito é contraditório. Nós rimos das peripécias. Até mesmo da “french fries”. A ajuda acontece. Como a água a Cristo. “Não há lugares seguros para as injustiças da História”, finaliza-se e agradecemos, tamanha o arrastamento.


Festival de Cannes 2017: “Jupiter’s Moon”


Do diretor húngaro Kornél Mundruczó (de “White God“, “Johanna”, “Delta”), 100 minutos. Com Zsombor Jéger, Merab Ninidze, Gyorgy Cserhalmi.

Aryan, um jovem migrante, é baleado enquanto tentava ilegalmente cruzar a fronteira. Depois do choque provocado pelo acidente, acaba descobrindo que agora tem o poder de levitar. Agora preso em um campo refugiados, ele terá que contar com a ajuda do Dr. Stern, que tem interesses muito específicos em sua habilidade sobrenatural.

“A Lua de Júpiter – Jupiter’s Moon” integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.


O diretor Kornél Mundruczó tem 42 anos e nasceu em Gödöllő, 03 de abril de 1975. Já dirigiu 16 curtas-metragens. Em 2003, ganhou o prêmio artístico do Cinéfondation do Festival de Cannes, onde desenvolveu o roteiro do filme “Delta”, com Yvette Bíró. Seu longa-metragem “Johanna” foi exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cinema de Cannes 2005. O filme “White Dog” foi apoiado pelo Fundo do Cinema Húngaro, vencendo o prêmio Un Certain Regard no Festival de Cinema de Cannes de 2014. Também foi exibido na sessão Spotlight do Sundance Film Festival em 2015. Em 30 de março de 2016, foi anunciado que um thriller psicológico “Deeper”, que será estrelado por Bradley Cooper. Em 2009, ele fundou a Proton Theatre, uma empresa artística virtual organizada em torno de produções independentes do diretor. Além de preservar a máxima liberdade artística, seu objetivo é garantir uma estrutura profissional para suas peças e projetos de teatro produzidos independentemente.

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