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Os Fantasmas de Desplechin

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017


“Os Fantasmas de Ismael (Les Fantômes D’Ismaël)” é o filme de abertura da edição de setenta anos do Festival de Cannes 2017. Seu diretor Arnaud Desplechin é carinhosamente chamado de Woody Allen francês por seus diálogos de cotidiano, por imprimir humor espirituoso, e suas reviravoltas mais ingênuas (sem tantas malícias). O diretor americano, por sua vez, abriu a edição do ano passado com “Café Society”.

Aqui, Desplechin condensa características típicas de seus filmes anteriores, principalmente “Três Lembranças da Minha Juventude” (este mais hermético e distribuído fluidamente) e de “Terapia Intensiva” (este que mais se aproxima do filme em questão), para despejar como uma tempestade catártica na loucura criativa e urgente de seu protagonista, o ator Mathieu Almaric (ator que retorna à função de diretor com o filme “Barbara” na mostra competitiva Un Certain Regard – ele já realizou “Turnê”).

O longa-metragem faz com que nós, espectadores, sejamos imersos em uma atmosfera desengonçado, em que a metalinguagem pauta-se como objetivo para desenvolver os fantasmas figurativos, ainda que voltem literalmente à vida. Mas é quando o filme surta, que acontece realmente, bagunçando ficção e realidade, verdade e fantasia. Mas não muito, pois observamos uma retração hesitante, que se reverbera pelo tom mais americanizado, mais moderninho (pela presença do Hip Hop), mais palatável nas caricaturas e mais encenado teatralmente. Tudo é inserido com demasiado cuidado e cautela (inclusive a naturalidade de suas dúbias existências).

“Os Fantasmas de Ismael (Les Fantômes D’Ismaël)” é um filme sobre o elemento temporal e sobre como seus personagens lidam com seus passados, desencadeando patologias como a “Síndrome de Hamlet” (que transmite a metáfora da mensagem da insegurança, da ambivalência e da dúvida em decisões demoradas ou tardias, por culpas ou traumas) que causa “terríveis pesadelos” (“perseguições”). As personagens são mulheres mais à sombra dos homens. São livres, não se importam em ter caso com os casados, conservam uma timidez submissa, saem de cena quando é preciso (para gerar o drama neles), e acima de tudo, retro-alimentam-se das idiossincrasia de seus amores.

Este cineasta, prestes a iniciar a produção de seu mais novo filme, recebe uma notícia inesperada: uma mulher (Marion Cotillard), a quem amou muito no passado, está de volta e seu retorno fará com que a vida do diretor entre em uma espiral de problemas sem fim, afetando a submissão da outra mulher atual que “acredita no infinito” (a atriz Charlotte Gainsbourg). Marion, neste filme, retorna a suas sutilezas interpretativas (seus olhos no espelho, seus silêncios e sua dança ao som de It Ain’t Me Babe”, de Bob Dylan). Mas não demora muito para que Desplechin retire isso dela, a mergulhando em um dramalhão exagerado em uma fotografia de imagens sobrepostas (que inclui gritos durante pesadelos).

“Os Fantasmas de Ismael (Les Fantômes D’Ismaël)” cria recorrentes tensões sexuais que são resolvidas na cama. As duas conhecem-se. Uma “garota perdida” “protestante”. A outra, “uma judia renegada”. Assim, elas são aproximadas aos mistérios de suas paixões, o mesmo homem (“velho”, “misterioso”). Paralelamente, outra história é apresentada. Um espião (o ator Louis Garrel – de cabeça raspada dessa vez), que começa a trabalhar por querer “conhecer o mundo”. O filme brinca todo o tempo com o tempo, enquanto um roteiro é escrito em tempo real.

Podemos perceber que nós estamos passeando pela teia cerebral “entusiasta” do personagem principal que busca o auto-exílios defensivos em “diferentes perspectivas”. Isso possibilita explicar a linha-aura perdida e não linear. Então, como foi dito, quando a surto é liberado, quando suas personagens rebelam-se da mesmice de seguir ordens em acertos de contas, até fila burocrática para “voltar à vida” é deliciosamente degustado. Porém, este desfecho demora a acontecer, e com seu epílogo contado, é confirmado a falta do equilíbrio narrativo. Se em seu filme anterior há um desenvolvimento prolongado, aqui, fragmentos excessivos são imperados, causando em seu contexto uma fragilidade que dificulta manter a ordem do que é apresentado.


Festival de Cannes 2017: “Les Fantômes D’Ismaël”


Do diretor francês Arnaud Desplechin (de “Três Lembranças da Minha Juventude“, “Terapia Intensiva“, “Reis e Rainha”, “Um Conto de Natal”), 114 minutos. Com Mathieu Amalric, Marion Cotillard, Charlotte Gainsbourg, Louis Garrel.

Um cineasta (Mathieu Almaric) prestes a iniciar a produção de seu mais novo filme, recebe uma notícia inesperada: uma mulher (Marion Cotillard) a quem amou muito no passado está de volta e seu retorno fará com que a vida do diretor entre em uma espiral de problemas sem fim.

“Os Fantasmas de Ismael (Les Fantômes D’Ismaël)” integra a categoria fora de competição. É o filme de abertura do Festival de Cannes 2017.


O diretor Arnaud Desplechin, com 56 anos, nascido em Roubaix, Nord, 31 de de Outubro de 1960, determinou-se a fazer filmes desde sua juventude. Diretor, produtor e roteirista, começou a carreira dirigindo o média-metragem “A Vida dos Mortos” (1991). Dirigiu também filmes como La Sentinelle (1992) e Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual) (1996), este último responsável por revelar uma geração de atores franceses, como Mathieu Amalric e Emmanuelle Devos. Sua filmografia inclui ainda Reis e Rainha (2004), A Amada (2007) e Um Conto de Natal (2008). Três Lembranças da Minha Juventude foi exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.


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