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Loveless é Todo Amor

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Cannes 2017

“Nelyubov – Loveless”, do russo Andrey Zvyagintsev, primeiro filme da Competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017, utiliza-se da sinestesia, abraçada à estética do cinema romeno (principalmente de “Sieranevada”, de Cristi Puiu) e do novo cinema húngaro (destaque a “On Body and Soul”, de Ildikó Enyedi), para construir um thriller existencialista que “soca o estômago” do espectador. Impossível ficar imune com a gama infinita de questionamentos sociais e de camadas aprofundadas que nos tornam cúmplices do ultra individualismo que preserva a essência animal do homem, por causa do sistema liberal que objetiva a vida robótica e não mais a humanizada, em relacionamentos inter-pessoais orgânicos, secos, incisivos, arquitetados (no contexto geral, mas egoístas em sua especificidade de cada um) e extremamente lógicos.

O longa-metragem em questão aqui, diretamente, nas primeiras cenas contemplativas, solitárias, gélidas, nevadas, inóspitas e introspectivas, complementadas por uma batida sonora intermitente que atinge o ápice catártico, mostra, em planos longos, inicialmente estáticos e depois em movimento, o cotidiano de saída dos alunos de uma escola para focar em uma criança de doze anos, Alyosha (Matvey Novikov), que brinca com uma fita de proteção de um provável crime que aconteceu, passando o dia e o tédio na solidão. A atmosfera natural de perigo iminente é criada. Antecipadamente, talvez esta seja a dica à conclusão final da trama.

Ao chegar em casa, olhando e esperando de forma apática, vivencia sua casa que está para alugar por causa de seus pais Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) que estão se divorciando. Ele, como se não existisse, ouve as brigas constantes, conflitos da separação e o egoísmo já enraizado de cada um que não se esconde pelo politicamente correto, tampouco pela suavização do comportamento. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas: ele com sua nova namorada, que está grávida, e ela com seu parceiro rico. Com tantas preocupações, é difícil eles darem atenção ao filho, que sofre com choro escondido, em uma passividade impotente.

“Nelyubov – Loveless”, em seus ângulos intrusos, como se estivéssemos presentes a esta intimidade, tanto que portas são fechadas, impedindo assim que bisbilhotemos e outras não tanto (ir ao banheiro, por exemplo). Nós somos levados a potencializar nosso voyeurismo. Os diálogos são enérgicos, diretos, com um nível máximo de verdade. Eles, pelo sarcasmo agressivo, pontuam seus argumentos e decisões pela radicalidade de sempre conservar a própria individualidade, seus quereres mais óbvios, espaciais, unilaterais e urgentes.

Aos poucos, o público é aprisionado nestes espaços egocêntricos de pessoas que vivem alienadas em seus próprios mundos tecnológicos. Eles não desconectam das telas de seus celulares. O filme segue personagens. Cada um de uma vez, retratando, quase documentalmente, suas conversas, seus papos em dia, suas reclamações, as idas ao supermercado, seus problemas fúteis e seus interesses pelas desgraças que são noticiadas em rádio e televisão.

De um lado, o homem no trabalho; do outro, a mulher na depilação. Um, a figura da responsabilidade. Outra, a submissão intrínseca do sexo. Alguns irão dizer que é um filme machista. Sim, é. Tudo por causa da divisão de classes segregadas. O homem, o provedor. A mulher, uma femme-fatale interesseira. E, os dois trocam interesses, comungando de seus desejos. Ele a leva para jantar para que possa levar à cama depois. Ela aceita sua “venda” inicial (até mesmo pela imposição anal) para preservar o amor do príncipe encantado e contornar o medo de perdê-lo por achar que o namorado está estranho. Ela chora. Ele faz graça. Ela ri. Tudo contornado. Mas quando o homem da vida transforma-se em sapo, então as alfinetadas e irritabilidades aumentam de forma cruel e sem limites.

Outra maestria de “Nelyubov – Loveless” é a parte interpretativa. Seus atores esforçam-se tanto que parecem não interpretar. É a máxima da espontaneidade por reações que transmitem a sutileza naturalista comportamental e pela crítica social que infere a um episódio do seriado “Black Mirror” (pela quantidade de documentos fotográficos de tudo: selfies, da comida, dos amigos). Vivenciamos uma era que não há espaço mais para sentir a vida própria. Não, ela precisa ser postada e curtida pelos seguidores digitais.

O filme contrói tão bem, com controle absoluto da direção, que quando perguntamos: Mas cadê o filho?, a resposta aparece. Alyosha desaparece misteriosamente. E um segundo filme inicia-se. Nós sentimos a tensão, o medo e as dores dos personagens, que elevam a máxima de que “Só quando perdemos algo é que damos valor”. A investigação objetiva e a procura policial é iniciada. Para um detetive, o sumiço é normal, visto a idade da “revolta” e dos “hormônios”. Nesta parte, não há mais portas ao espectador e a aproximação acontece. Penetramos completamente no drama trágico. Há quem crie referências com Denis Villeneuve (e seu “Prisioneiros”). Talvez. “Nelyubov – Loveless” segue sua crítica ao comportamento social contemporâneo até o final e realiza uma das cenas mais incríveis da história do cinema que metaforiza que quando o esquecimento é equilibrado e acalentado na alma, as mesmas ações intolerantes são repetidas . E com um “cercado”. Concluindo, um filme que como foi dito é um “soco no estômago” do espectador por nos confrontar com a realidade que nos cerca e que nos aprisiona mais e mais em nossos limitados mundos próprios. Sem amor.


Festival de Cannes 2017: “Nelyubov – Loveless”


Do diretor russo Andrey Zvyagintsev (de “Leviatã“, “Elena”, “O Retorno”), 127 minutos. Com Maryana Spivak, Matvey Novikov, Andris Keishs.

Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão se divorciando. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas: ele com sua nova namorada, que está grávida, e ela com seu parceiro rico. Com tantas preocupações, é difícil eles darem atenção ao filho Alyosha (Matvey Novikov). Até que ele desaparece misteriosamente.

“Sem Amor – Nelyubov – Loveless” integra a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.


O diretor russo Andrey Zvyagintsev (Андрей Петрович Звягинцев), tem 53 anos. Em 2003, dirigiu seu primeiro longa-metragem “O Retorno”, que recebeu vários prêmios, incluindo um Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza. Seu segundo longa-metragem “The Banishment” estreou no Festival de Cannes de 2007 e foi indicado a Palme d’Or. Em 2008, dirigiu “Apocrypha”, segmento para o filme “New York, Eu Te Amo”, que por sua vez foi cortado, mas está incluído no DVD oficial. Seu filme de 2011, “Elena” , estreou no Festival de Cinema de Cannes 2011, na mostra Un Certain Regard, vencendo o Prêmio do Júri. Seu filme de 2014, “Leviatã”, foi selecionado para competir pela Palme d’Or na categoria principal do Festival de Cinema de Cannes de 2014, vencendo o prêmio de Melhor Roteiro. Ganhou também o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2015 e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 2015, foi presidente do júri do XVIII Festival Internacional de Cinema de Xangai.


“Leviatã” estreou na Rússia em uma versão censurada, sem os palavrões da versão original, em cumprimento a uma nova lei que proíbe expressões de baixo calão em projetos com financiamento público. Leia nossa crítica completa abaixo.

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