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A maestria ilustre do cinema argentino

Por Fabricio Duque

“O Cidadão Ilustre”, dos diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat (de “O Homem ao Lado”, “Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto”), filme de encerramento do Festival do Rio 2016 e representante argentino no Oscar 2016 na categoria de Filme Estrangeiro, abraça uma das características intrínsecas do cinema latino americano argentino: que é potencializar a autoralidade, pelas ações idiossincráticas, pelas interpretações sutis naturalistas e por seus seus diálogos humanizados não maniqueístas. Não há o certo, tampouco o errado. E sim, o necessário para que possam sobreviver no meio social. Aqui, seus protagonistas ficcionais, que concretizam a realidade para nossa experiência, desnudam-se de hipocrisias ao confrontar vulnerabilidades, medos, passados, traumas, covardias, defesas, prepotências, orgulhos e prisões existenciais. “Livros transportam a um lugar estranho”, diz-se pululando descrições opressivas e adjetivos definidores. Um artista resolve dizer a verdade em um discurso anti-hipócrita  à moda de “Relatos Selvagens”, porque tudo está no limite e na urgência da tolerância.

Daniel Mantovani (o irretocável ator Oscar Martínez, de “Ninho Vazio”, “Paulina”)), um escritor argentino e vencedor do Prêmio Nobel, radicado há 40 anos na Europa, volta à sua terra natal, ao povoado onde nasceu e que inspirou a maioria de seus livros, para receber o título de Cidadão Ilustre da cidade – um dos únicos prêmios que aceitou receber. No entanto, sua ilustre visita desencadeará uma série de situações complicadas entre ele e o povo local.

“O artista deve ser mais conivente para vocês. Artistas devem sacudir. E o sarcasmo, o único responsável”, com desabafo terapêutico confessional de humor intolerante agressivo do escritor Daniel, ganhador do prêmio Nobel de literatura. Cinco anos depois, a verdade inconveniente ainda causa a vida reclusa de nosso personagem principal. A narrativa, conjugada com uma fotografia de planos espaciais de luz versus sombra, em capítulos, conta que um convite, depois de inúmeros cancelamentos, pode ser a chave de uma prestação de contas com um passado simples e “sucateado”, entrando em uma aventura “road movie”. Ou acalentar a alma. Ou recuperar um pouco a fé e a tolerância ao se relacionar com indivíduos sociais alienados e “idiotas”.

O filme é imerso em metafóricas camadas existencialistas, funcionando como uma terapia de choque para que se enterre o passado ao vivência-lo sem amarras, rituais, máscaras e sem luxo, por planos sequência estáticos. “Que imagem piegas: queimando o próprio livro para sobreviver”, diz, com a luz da fogueira no rosto, quando nosso “cidadão ilustre” sofre as intempéries da “ida” de um caminho “surreal” de uma cidade perdida no tempo, como a “experiência” brega-piegas da chuva de papel picados, das selfies, de desfilar no carro dos bombeiros, o vídeo estilo homenagem, ao lado de Shakespeare e Dostoiévski. “O Cidadão Ilustre” é, acima de tudo, uma jornada à redescoberta da emoção real que o fez ser quem é. “Não crê no mito do artista torturado. O sofrimento não fez grandes obras literárias”, diz.

Daniel necessita deixar sua arrogância defensiva-orgulhosa do título que construiu para que a reconexão com o lugar de “gente sem ambição” realmente faça sentida. Uma das referências inferidas é a do filme “Brooklyn”, de John Crowley, e o tema da volta a um lar que não existe mais, que só se configura como uma passagem, uma visita. Filosoficamente, aquele ambiente não mais o representa, mas em seu inconsciente ainda se pode resvalar uma prisão arraigada, ressentida e rancorosa, que se comporta como fisgadas de uma dor de cabeça incurável. Este capítulo precisa ser virado para a comunhão real do presente, para sua desmistificação ao sentir de sua localidade que é um “salvador rico”. “Não sou uma ONG”, defende-se com extroversão contra o povo “limitado, mesquinho, egoísta”.

Mas a realidade supera a ficção, porque Daniel dá-se conta que é exatamente assim, só aprendeu a fingir para si ao longos dos anos. Assim, ele questiona sua literatura em pequenos gestos em um hotel que mais parece ter saído de um filme romeno. Gradativamente, muda seus princípios ao começar a ter sonhos-epifania. Aceita as solenidades demasiadamente orgulhosas, rústicas, “patéticas”, óbvias, caricatas, “ignorantes”, “imbecis” e simbólicas; e de forma conivente com frases oportunas e politicamente sociais, agradece a uma imponente estátua-homenagem, deixando de lado o habitual rebate veemente, agressivo, vaidoso, pressionado, perseguido, hostil, cruel, malvado. Sim, “a realidade não existe”.

“O Cidadão Ilustre” é uma ode à humanização, tentando pelo confronto não-imune, um religamento à raiz, às motivações passionais, à emoção natural que precede a técnica. Um filme que disseca a alma humana em suas contradições, medos ao fracasso, proteções. Cada um defende-se como pode. Cada um usa a arma que possui mais próxima. Nenhum lado está certo. São anjos e demônios convivendo dentro de um ser com múltiplas sensações e reações. Um longa-metragem único e que merece a apreciação. Recomendado.

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