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O Brilho de Duas Atrizes Encarnadas

Por Fabricio Duque

“Feud”, em sua primeira temporada de oito capítulos (de cinquenta à cinquenta e sete minutos cada), é o típico seriado aos amantes (cinéfilos) da sétima arte da “Velha Hollywood” por trazer os bastidores da relação “incendiária” e “insuportável” das “ícones damas” Joan Crawford e Bette Davis, que em suas vidas se alimentaram de seus narcisismos, de suas crueldades, de suas maldades, de seus jogos psicológicos e manipuladores, de suas vinganças, de suas solidões, de suas arrogâncias, de seus glamours, de suas vaidades, de seus egoísmos, de suas liberdades, de suas frágeis independências, de suas covardias, de seus medos, de seus talentos, de suas aparências, de suas hipocrisias e de suas paixões pela arte de interpretar. Mas acima de tudo as duas, em seus atritos destrutivos de abusos morais na lendária rivalidade, foram mutualmente impulsionadas pela perfeição. Cada uma buscava na outra a admiração plena, sem contudo demonstrar fraqueza e ou vulnerabilidade de aceitar tal adjetivação positivada.

A primeira temporada completa, intitulada Bette e Joan (a segunda temporada com dez episódios já está confirmada e será sobre o relacionamento de Charles, Príncipe de Gales e Diana, Princesa de Gales), centra-se na batalha de bastidores entre Bette Davis (Susan Sarandon) e Joan Crawford (Jessica Lange) durante a produção do filme “O que Terá acontecido a Baby Jane?” (What Ever Happened to Baby Jane?) de Robert Aldrich, em 1962, até a morte das duas, tendo como pano de fundo a realização de um documentário.

“Bette e Joan” é baseado em “Best Actress”, de Jaffe Cohen and Michael Zam e criado por Ryan Murphy, este vencedor de vários Globo de Ouro e Emmy. É mais conhecido pelas séries “Nip/Tuck”, “Glee”, “Popular”, “Scream Queens”, “American Horror Story” (estrelado por Jessica Lange) e “The New Normal”, e pelo filme “Comer, Rezar, Amar”, com Julia Roberts, Javier Bardem.

Aqui, temos duas atrizes brilhantes e irretocáveis que encarnam literalmente as “divas” do cinema, com seus dramas apoteóticos de pura criação para os outros, em constante papel caracterizado, tanto, que “sozinhas não sabem o que são”. Dirigido por Ryan Murphy, Gwyneth Horder-Payton, Helen Hunt, Liza Johnson e Tim Minear, ainda conta no elenco com: Judy Davis, como Hedda Hopper; Jackie Hoffman, como Mamacita; Alfred Molina, como Robert Aldrich; Stanley Tucci, como Jack Warner; Catherine Zeta-Jones, como  Olivia de Havilland; Kathy Bates, como  Joan Blondell; Kiernan Shipka, como B.D (que também trabalhou em “Mad Men”), entre outros.

Sim, no fundo, Bette (Ruth Elizabeth Davis) e Joan (nome artístico de Lucille Fay LeSueur), precisavam uma da outra para que pudessem existir. Juntas, afiadas, altivas, sarcásticas, brutais, sinceras, diretas e sem coração, elas eram invencíveis, porque o ódio construtivo que as nutriam era o impulso, o alimento, a defesa, tudo, uma proteção a um universo machista que não fornecia poder nenhum a elas (mesmo que os homens fossem a minoria).

Inevitável não referenciarmos o documentário de empoderamento feminino “E A Mulher Criou Hollywood”, de Clara e Julia Kuperberg, que aborda as dificuldades de mulheres principalmente diretoras após a era do cinema mudo, que fizeram história, mas foram esquecidas e tiveram seus salários reduzidos. Também é impossível não observarmos a estética semelhante com a série “Mad Men” (principalmente na abertura dos créditos).

Impossível também não sairmos dessa maratona com a vontade de assistir e rever todos os clássicos, logicamente, com destaque a ““O que Terá acontecido a Baby Jane?”, que neste sábado, ontem, foi exibido no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro com curadoria do cineasta Kléber Mendonça Filho.

“Feud: season 1”, do canal FX, que passa no Fox Premium 1, é sobre lutar. Sobre impôr o talento e não ser apenas “uma loura burra como Marilyn Monroe”. É sobre carga dramática. É sobre buscar a perfeição máxima. Ser um Cisne Negro. Mesmo que isso faça “morrer” pelo papel. Assim como todo narrativa típica de seriado, os cortes são rápidos, instantâneos, que substituem silêncios por reviravoltas em “piscadas”. Ainda assim, nós espectadores, conseguimos nos deliciar com as sutilezas, levezas, entrega visceral, impulsividade, liberdade dessas duas atrizes. Até o sétimo episódio é arte pura e intensa. No último, podemos descrever como um epílogo-homenagem humanizado, humilde, tolerante, carinhoso e amigo a Joan Crawford, mas longe de ser desnecessário, irregular e ou desafinado. Um série à altura, que cria a ilusão visual com credibilidade interpretativa. Não sabemos distinguir atriz de personagem.

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