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A Segregação da Segregação

Por Fabricio Duque

“Cara Gente Branca”, a nova série da Netflix, estreiou hoje, dia 28 de abril, em uma sexta-feira caótica nas ruas do Brasil devido a uma greve geral que protestava contra as medidas administrativas do governo federal. Coincidência ou não, aqui, baseada no filme homônimo “Dear White People”, de 2014, dirigido por Justin Simien, aborda uma crítica à excessiva segregação que há na América. Ao invés da lógica da união, cada vez busca-se mais rótulos “auto-segregados” a fim de dividir e especificar definições, os impossibilitando de expandir atributos da personalidade, cujas características idiossincráticas reverberam o engessamento em padrões clichês e robóticos. Trocando em miúdos, ao escolher uma “tribo” ou um rótulo, eles terão que seguir a cartilha ditada, dogmática e não flexível. A série, já com seus dez capítulos, de quase trinta minutos cada, comporta-se como “núcleo coral”, em que cada episódio foca em um personagem de um grupo de estudantes de uma universidade. Quando o vídeo foi lançado, com apenas trinta e cinco segundos, culminou em um acalorado debate racial (e sofreu boicote por se achar que era um “racismo contra as pessoas brancas” e hashtags #NoNetflix).

Tudo porque “Cara Gente Branca” aborda uma sátira pós-apartheid, imparcialmente, servindo como “advogado do diabo”, as tensões entre brancos e negros, por uma narração sarcástica de atmosfera aristocrática inglesa, que “desconstrói” utopias e discursos (que procuram o empoderamento do movimento negro – “Às vezes, só se divertir, é um protesto”), e explicita referências à “Faça a Coisa Certa”, de Spike Lee; “Django Livre”, de Quentin Tarantino; e ao universo Blaxploitation. A história concentra-se na personagem Samantha White (sobrenome em tom “alfinetada”), interpretada por Logan Browning, uma jovem ativista que em seu programa de rádio tece comentários cirúrgicos e exaltados sobre o racismo no campus de uma prestigiada faculdade; a festa de “Blackface” (referência a “O Cantor de Jazz”, de Alan Crosland); ao uso de armas de policiais contratados contra negros.

Talvez, “Cara Gente Branca” tenha mexido tanto em um vespeiro por causa de mostrar as hipocrisias dos próprios negros e seus preconceitos com os brancos, “escondendo-se” na “escravidão de 200 anos atrás”. Aqui, percebemos uma geração que não se embasa, que não busca conhecimentos passados para corroborar suas ideias, que são apenas crenças incondicionais e intransigentes (sem ouvir o outro lado). O boicote talvez seja pelo excesso de sensibilidade que esses jovens estão expostos, em que tudo é ofensivo e egoísta (mesmo que estejam errados em buscar o “status quo” de seus “opressores”). Até mesmo o cineasta Barry Jenkins (de “Moonlight”) entra na discussão e dirige o quinto episódio, além de Tina Mabry, Charlie McDowell, Justin Simien e Steven K. Tsuchida. “Cara Gente Branca” é mais um seriado que vicia, por causa de sua edição ágil e seu roteiro eletrizado, e acima de tudo, importando-se com seu conteúdo que desvirtua e disseca inúmeras formas de discriminação racial. Inevitável não referenciarmos a “Corra”, de Jordan Peele, que em breve estreia nos cinemas.

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