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O Estrangeirismo das Emoções

Por Fabricio Duque

“Hiroshima Meu Amour”, do diretor francês estreante Alain Resnais (por este filme, que já realizou “O Ano Passado em Marienbad”, “Ervas Daninhas”), um dos mais influentes da Nouvelle Vague, é um filme sobre o amor realista, espirituoso, livre, sexual, sensual (o pré e o pós-sexo por corpos abraçados de suor ou da chuva que cria a fotografia poesia-purpurina em preto-e-branco – impossível não lembramos da atmosfera das obras de Henri-Georges Clouzot) perspicaz, verdadeiro, terapêutico, intenso, passional, mitigado de regras sociais e culpas infiéis, e polêmico, tanto que na época de seu lançamento, por possivelmente ofender descendentes alemães, foi retirado da competição oficial do Festival de Cannes em 1959, apresentado apenas sem poder concorrer a Palma de Ouro. “O primeiro filme sem nenhuma referência cinematográfica”, disse Jean-Luc Godard. Nós, por sinal, não concordamos com este comentário, e sim, o filme é pululado de referências, a mais explícita delas: “Casablanca” (1942), de Michael Curtiz, que também tem seu cenário na Segunda Guerra Mundial e suas lembranças quatorze anos depois.

O longa-metragem, com roteiro de Marguerite Duras, conduz-se pela vivência cotidiana de um casal, com a narração repetitiva, articulada, descritiva, catártica, utópica, realista, analítica, mais sentimental a uma emoção instantânea, detalhada, adjetivada e rebatida à moda de monólogos mentais e às idiossincrasias de um preâmbulo sobre percepções de uma Hiroshima em reconstrução, e se configura como uma jornada da música de um piano clássico ao encontro do tom oriental. Aqui, uma turista francesa e um local vivem a casualidade sexual de um encontro. Neste momento de apresentação, o discurso é conceitual e o que mais importa, como se fosse um grito, uma enxurrada de lembranças para o não esquecimento.

“O hospital existe em Hiroshima. Como evitar vê-lo?”, pergunta-se retoricamente enquanto a câmera encontra a interatividade teatral de uma metalinguagem bastidores. “Você não viu tudo em Hiroshima”, rebate-se. E ela continua: “Fui quatro vezes ao museu. Reconstituições e os filmes feitos o mais seriamente possível de forma simples. A ilusão é tão perfeita que os turistas choram”, critica-se com a contemplação da imagem (aproximações nas obras e fotografias do museu) e observações de pessoas pela câmera que nos transforma em turistas, cúmplices e acompanhantes. É a metáfora política sobre o pós de uma bomba que destruiu o local. “Senti calor na Praça da Paz”, diz-se, e assim o espectador é convidado a um passeio turístico pelos “sete afluentes do Rio Ota”.

Mas há muito mais nas entrelinhas explícitas, difícil para em tão pouco tempo uma turista entender toda a dor dos locais e das pessoas abandonadas. “O que mais pode fazer um turista se não chorar?”, entre imagens da guerra que inicialmente suavizadas (para “inglês ver”) ganham o impacto “herança” da verdade visual das cicatrizes e deformidades. Ela, ingênua, ainda esperançosa, viu “o amor, a paciência, a inocência, a doçura aparente dos sobreviventes provisórios que se adaptavam a um destino tão injusto”, e conta a seu “novo amor” mais cético, embrutecido e questionador. “Contra que e a quem as cidades se revoltam?”.

Uma casada atriz francesa passa seu último dia na cidade de Hiroshima terminando sua participação em um filme (“não francês, mas internacional”) sobre a paz e o seu relacionamento amoroso com um casado arquiteto japonês, que aos poucos a lembra de um trágico amor que ela teve durante a guerra. O filme analisa a memória, a psicologia, o comportamento dos personagens vivendo em um mundo sem perspectiva e com os traumas que os afligem. Eles não têm nomes. Ele (Lui), o Hiroshima “faz política” (o ator, já falecido, Eiji Okada – de “A Mulher de Areia”, “Quando Irmãos se Defrontam”). Ela, (Elle), a Nevers (jovem, louca, em um rio sem navegação e a duzentos e sessenta quilômetros de Paris), uma atriz de “moral duvidosa” que interpreta a paz (a atriz estreante, falecida recentemente, Emmanuelle Riva, de “Amor”).

O casal, uma francesa e um japonês, em um lugar sobrevivendo à “memória” e ao “esquecimento”, que em “nove segundos de efeito atômico, matou duzentas mil pessoas e feriu oitenta mil” (em dados oficiais). “Devore-me. Deforme-me”, diz-se energicamente. “Por que nesta cidade entre o amor e ódio, eu encontrei uma alma gêmea de corpo?”. “Sorte dele estar na guerra e não em Hiroshima”. Tudo é muito direto e realista sem nenhuma carga de sensibilidades. “De perto você aprende”, expressa seu interesse sobre Hiroshima. Dos corpos nus, ela veste um hobby Gueixa, reparando nos minuciosos detalhes de seu amor. O quarto, a intimidade, a proteção fantasiosa ao mundo externo, a vida privada que não precisa ser social – até porque ainda é líquida. “Reparou como notamos as coisas que desejamos notar?”, entre diálogos falados mais devagar para que as palavras tenham mais intensidade e possam potencializar ao extremo o entendimento. Tudo precisa ficar muito claro. Filosófico sim, mas preciso (como Hotel New Hiroshima).

“Na França, Hiroshima era o fim da guerra e o começo de um medo desconhecido da indiferença de um povo”. Eles são “amores passageiros”, estrangeiros, “inimigos de um povo”, “Romeu e Julieta”, afoitos como adolescentes em um encontro que quebra paradigmas de uma padronizada e hipócrita sociedade. Mas a insistência dele em conhecê-la desperta digressões de um passado traumático, cuja volta serve como terapia ao não esquecimento de uma dor insuportável. Ela, que não “gritava mais e que tinha se tornado razoável”, agora revive sua passionalidade patológica (e a “fome da infidelidade”) juvenil de um novo amor, encontrando o “oásis” na chuva e por um breve momento a máxima de que “não há tempo para saber, só se viver intensamente até morrer”.

“Hiroshima Meu Amour” é sobre a complexidade do amor pelas vivências individuais traumáticas e que é “muito tarde para ela estar sozinha”, tudo por preferir não a maturidade de Paris, e sim a carga visceral de Nevers, de um “nunca” que talvez possa existir. Somos embarcados e estimulados a um final que só depende de nós e de nossas subjetividades para ser perpetuado no amor ou no esquecimento. Não Sam, não toque novamente. E que foi o filme de inspiração a “Copacabana Mon Amour”, de Rogério Sganzerla. O ator Eiji Okada não sabia falar francês e, com isso, teve que memorizar foneticamente cada palavra dita em cena. Indicado em 1961 ao Oscar de Melhor Roteiro Original.

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