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Uma Comédia Exagerada no Álcool

Por Fabricio Duque


Sim, é lógico afirmar, fato mais que comprovado, que um filme se torna muito mais interessante quando nós espectadores sabemos de seus bastidores e escolhas do roteiro. Na coletiva de imprensa de “Saint Amour – Na Rota do Vinho”, no Festival de Berlim 2016, os diretores insones Benoît Delépine e Gustave Kervern desferiram um aprazível carisma, humanizando o processo do filme com suas idiossincrasias, anedotas e até mesmo vulnerabilidades. Eles escrevem separadamente, tentando juntos encontrar “a palavra certa, mas o roteiro é apenas o começo de algo que está vivo”.

“Saint Amour – Na Rota do Vinho” é acima de tudo um filme “on the road” “taxi” sobre a história do relacionamento de um amoroso pai que tenta colocar seu filho de volta no caminho certo que encontram tipos e outras histórias pelo caminho. Sua narrativa é guiada por emoções e busca o tom da afeição a fim de construir o tema do amor e da reflexão verdadeira deles mesmos. Os diretores não objetivaram um filme “turístico” à moda “Tour de France”, tampouco a “modernidade de Werner Herzog”, mas sim imprimir um “gênero curioso”, extendido e ficcional (potencializado pela utilização de duas câmeras e pela trilha-sonora, de Sébastien Tellier, que sublinhou os sentimentos e emoções das personagens) “masterstroke”, que inicialmente seria filmado inteiramente em poucos dias no Feira Agrícola de Paris.

Odiado pelo filho hiperativo, constrangedor, implicante, debochado, ofensivo, “roncador” e “idiota” Bruno (o ator Benoît Poelvoorde em uma irretocável interpretação) e triste por vê-lo entregue ao alcoolismo e desânimo, Jean (o ator Gérard Depardieu) aproveita o tempo livre durante uma feira de negócios agrícolas em Paris para fazer com o herdeiro uma turnê “Mapa dos Vinhos” pela região vinícola da França (em constantes degustações e “inconvenientes bêbados”). Usando o taxista Mike (Vincent Lacoste) como motorista, os dois vivem uma intensa jornada que rende perrengues, revelações, desventuras amorosas e a sonhada aproximação.

O longa-metragem pontua a estrutura clássica do cinema francês por ambientar o bucolismo rural de uma feira de animais e por definir novos caminhos e situações pela liberdade dos acasos. Mas o equilíbrio existencial do começo tende a outra vertente mais exagerada de um humor mais encenado. De surpresa ingênua sim, mas óbvio em sua essência, articulando-se por gatilhos comuns palatáveis, de fácil e preguiçosa cumplicidade com o espectador.

“Saint Amour – Na Rota do Vinho” quer a independência espontânea-improvisada da passionalidade sensível e entregue de seus atores, ao mesmo tempo que quer seriedade com o humor pastelão, escrachado e negro como na despedida de uma noiva e ou quando insere uma ex em uma cadeira de rodas e ou uma feminista machista e ou a mulher que “transa com todos, menos com ele” e ou a estética-poesia de “Venus em um cavalo em Paris”. Tenta-se quebrar o politicamente correto com um realismo incorreto, mas seu resultado exacerba demasiadamente o amadorismo.

É uma comédia disfuncional de exterior artificial. De propósito desengonçado que mistura “mistério, gravidade e cor para flertar” que exagera na dose e em sacadas surreais e que se projeta em ser um alegórico Woody Allen. Tudo para traduzir uma livre viagem que usa a confusão catártica para resolver de forma terapêutica as pendências do passado e do estágio depreciativo do presente, permitindo que a volta do vício seja uma possibilidade de aproximação e reconexão ao que perdeu, como os pequenos truques para tomar café da manhã no hotel sem pagar.

O filme, quando se respeita ao que é e diz ao público que a experiência vivenciada não mudará, permite que nós aproveitemos o que nos é apresentado e assim somos acalmados sem expectativas. “Estágios da bebida: Um, o relaxamento. Dois, a liberação. Três, a verdade. Quatro, mais bebida. Cinco, a violência ou excesso de amor. Seis, o estágio patético. Sete, a fome de sexo. Oito, a vontade. Nove, o sono pesado. E dez, a vergonha ”, diz. a “tese para promover o não beber”.

“Saint Amour – Na Rota do Vinho” humaniza o alcoólatra e a forma como fazer o “beberrão” aceitar a ideia de mudar. Que não tem “vergonha do vinho, tampouco do corpo” e é “confiante com as mulheres”. O discurso final é sentimental demais ao propor o “renascimento”, qual a “cura” saudável e a de “quem é o filho?”. Mais uma vez, o cinema francês começa como francês mas derrapa na fórmula palatável americana-hollywoodiana de ser, nivelando mais por baixo a um “Sideways – Entre Umas e Outras”, de Alexander Payne. Sem julgamentos, visto que é uma escolha contextual dos realizadores do filme.

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