Outro Filme Bonito Sobre o Período

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2017


Talvez uma das preocupações mais intensas de um documentarista que utiliza arquivos pessoais seja até que ponto ir sem interferir no processo com o público. “No Intenso Agora”, de João Moreira Salles, exibido no Festival de Berlim 2017, é uma experiência que transcende o elo familiar pela representatividade política de uma época. Esta, por sua vez, ultrapassa o próprio discurso histórico, e assim é criado uma obra híbrida, que caminha pelo limite tênue singularidade particular versus o contexto comportamental destes indivíduos sociais que atravessam o tempo.

Conversamos com seu diretor que disse que levou dez anos desde seu último filme “Santiago”, “tempo demais no processo a fim de descobrir o caminho certo”. João encontrou amadores-caseiros arquivos-imagens (“sobras de um momento da vida”), filmadas por sua mãe, que contavam muito sobre sua existência e sobre as vivências transitadas quase como memórias confrontadas pela realidade dos fatos expostos e explícitos nos filmes descobertos. João também emprestou sua voz para narrar suas percepções existencialistas, em “análises lógicas”, principalmente sobre estranhos (que “estranhamente” constrói afinidades). “Não conheço essas pessoas, só imagino que estão felizes”, diz.

São momentos e momentos históricos destas viagens (algumas pagas por uma “revista de arte”), que traduzem acontecimentos políticos, e opiniões próprias de sua mãe intelectualiza, como a Checoslováquia em 1968 e ou a câmera no Brasil que mostra “a luta de classes de uma babá negra que recua” e ou a guarda chinês vermelha de honra de Mao Tse Tung com a naturalidade e o prazer de uma Pequim em 1966 (“barulho e vermelho demais”). “Nem sempre a gente sabe o que está filmando”, diz-se.

Ao unir estas colagens, e o mais importante escolhê-las, “No Intenso Agora” documenta livremente analogias e referências das crenças políticas que alimenta o cotidiano de seus povos. , como o discurso nacionalista francês (“Os diretores têm pressa e não perdem tempo com créditos de abertura”). “Diletantes atrás das imagens”, sobre as “memórias de Paris e daqui (do Brasil)”. É impossível todo e qualquer ser-humano, inclusive seu diretor, manter distanciamento e não se envolver sentimental-emocionalmente.

O documentário busca a lógica seca, mas também o comportamento melancólico-realista (“A ideia de não ter vida era bonita”). E pode ser clássico e didático, como um “novo estado das coisas”. “Cada segundo tem a espessura da realidade”, diz-se com poesia-filosofia, e uma ambiência adjetivada de personificar sensações, do “encontro dos contrários” e da “vida cotidiana que mudou em Maio de 1968”.

“No Intenso Agora”, quase um compêndio de citações dos grandes pensadores, como Jean-Paul Sartre e sua “revolução não planejada”, é uma “resposta ao presente”. É um filme reacionário. Seus argumentos transmutam-se do campo da utopia para ganhar corpo palpável. E assim, nós podemos analisar com maior profundidade, perspicácia, sagacidade e com menor defesas passionais possibilidades de estender nosso olhar sem o politicamente correto e as diretrizes já “desenhadas” do agir, reagir e do pensar. “Curiosidade ou prudência?”, pergunta-se.

Personagem que abandona; a rebeldia de uma mercadoria de troca; as revoluções; a política-social que “transcende o pessoal”; Jan Palach, um estudante de letras checo que cometeu suicídio através de auto-imolação como forma de protesto político (aos vinte anos); Colin-Bendit, líder estudantil na França; “repúdio à acomodação que tomava conta do país”; Edson Luis, estudante brasileiro morto aos dezoito anos no Rio de Janeiro; “conformismo, a nova ordem”; mais “indignação que dor”; tudo é conduzido com urgência “contra” a “sociedade que é uma flor carnívora” e sobre os “professores que nos envelhecem”.

É um filme íntimo, de expôr o cérebro e de se conectar com o coração. É todo sobre sua mãe. Sobre viajar ao passado, sentindo sem ressalvas e medos o que se vê, ora silenciosa, ora não. “Tudo era possível, menos a tomada de poder”, diz-se.

“No Intenso Agora” era na verdade “destinado à gaveta”, como um “diário íntimo”. Mas se tornou um forma de entender o nosso agora olhando ao passado por filmagens distantes de “imagens consentidas” de uma ligação materna e com outros filmes “mais bonitos do período”, como “Morrer aos Trinta” (“Mourir à trente ans”; França;1982), de Romain Goupil. Sim, João Moreira Salles faz outro filme bonito do período com sua liberdade despretensiosa ao aceitar que não conseguiu prender, tampouco podar a construção desta experiência ideológica-familiar.


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